Cabinda, Angola - As Forças Armadas de Angola (FAA) mantêm forte presença militar na estrada entre a cidade de Cabinda e Buco-Zau, principal acesso ao norte desta província angolana onde um movimento reclama ser uma das guerrilhas mais antigas de África.
Os 120 quilómetros que separam a capital da província de Cabinda e Buco-Zau, percorridos pela Agência Lusa, permitem detectar vários sinais que apontam para a existência de uma realidade militar diferente das restantes regiões de Angola.
Se o conflito que opôs as forças militares da UNITA e do MPLA durante quase três décadas terminou em 2002, a FLEC-FAC(Frente de Libertação do Enclave de Cabinda-Forças Armadas Cabindesas) afirma que a guerra ainda existe nesta província angolana.
À saída de Cabinda rumo a norte surge, ao longo de vários quilómetros, o chamado Malongo, onde se situam as instalações petrolíferas das empresas norte-americanas e da angolana Sonangol, com a sua sólida vedação metálica, arame farpado e avisos de que o local está minado.
Depois surgem os primeiros destacamentos militares ao lado da estrada que são constantes até Buco-Zau e Belize, dois municípios no norte do enclave cabindês.
Por detrás desta realidade militar estão os cíclicos ataques às guarnições das FAA e também a cidadãos estrangeiros a trabalhar na região, reivindicados pelos guerrilheiros da FLEC-FAC, afectos ao líder histórico N´zita Tiago.
Mas há ainda outros sinais de uma paz ainda precária no enclave, como aconteceu numa deslocação a Cabinda, no domingo, do presidente da União Nacional para a Independência Total de Angola(UNITA), Isaías Samakuva.
Durante um comício realizado na cidade, Samakuva, quando se referia à conquista da paz em Angola como instrumento fundamental para o desenvolvimento do país, recebeu, por parte das várias centenas de populares um clamoroso: "Cabinda está em guerra."
Este episódio, segundo fontes da sociedade civil cabindesa contactadas pela Lusa no enclave, é o primeiro acto público popular de expressão de um "sentimento nacionalista" em vários anos.
Na resposta, Isaías Samakuva, obrigado a tomar posição sobre a situação de Cabinda pelos populares que o escutavam, deixou claro que, para o maior partido da oposição angolana embora com presença minoritária no Governo, Cabinda é parte inteira da Nação.
No entanto, Samakumava sublinhou que "a Nação angolana é constituída por diversos povos com tradições e culturas específicas".
Samakuva prometeu mesmo ter em conta as "especificidades" de Cabinda se a UNITA vencer as eleições legislativas de Setembro próximo, distanciando-se da posição do governo de Luanda, para quem Angola é constituída por "um só povo, uma só Nação".
A contrariar a caminhada política para chegar a uma solução que ponha fim definitivamente às acções de guerrilha em Cabinda, como defende a UNITA, a FLEC-FAC de N´Zita Tiago assume claramente a "continuação da guerra" contra Luanda.
Mesmo depois da assinatura do Memorando de Entendimento, em 2006, que tinha o objectivo de integrar todas as partes em Cabinda numa plataforma que permitisse sustentar a paz no enclave, a guerrilha de N´Zita Tiago diz manter ataques cíclicos aos aquartelamentos militares das FAA em Cabinda.
Fontes próximas do movimento de Tiago lembram que em 2003 o governo de Luanda deslocou um forte contingente militar para Cabinda com o objectivo de pôr fim aos ataques mas, passados cinco anos, esse objectivo "está longe de ser conseguido".
O enclave de Cabinda tem 10.000 quilómetros quadrados e 300.000 habitantes e é responsável pela maior parte da produção petrolífera angolana, além de possuir outros recursos, como o ouro.
Em Agosto de 2006, o Governo angolano e o Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD) assinaram um Memorando de Entendimento para a Paz e Reconciliação em Cabinda.
O acordo foi sempre contestado pelo líder da FLEC, N`Zita Tiago, que prossegue a sua luta na província.
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