Fonte ligada a este processo contactada pela Agência Lusa explicou ainda que a aprovação final do documento, sem qualquer data apontada oficialmente, deverá passar pelo Conselho de Ministros e pela Assembleia Nacional.
"Os Estados foram notificados para se pronunciarem sobre o assunto e nós estamos a desencadear mecanismos internos para saber como estão as coisas", acrescentou a fonte.
De acordo com esta fonte, existe uma "preocupação" de todos os Estados lusófonos, logo também de Angola, para resolver a questão, na medida em que há actualmente "uma fala e duas escritas"..
Para o governo angolano, o Acordo Ortográfico ainda não foi assinado porque "caiu no esquecimento", considerando a fonte que "agora é importante voltar a analisá-lo para lhe dar seguimento".
"O problema é que as questões surgiram e depois morreram, por isso elas devem voltar a ser discutidas", concluiu.
O Acordo Ortográfico foi assinado a 16 de Dezembro de 1990 por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe mas não podia entrar em vigor por não ter sido ratificado por todos os países.
A discussão formal sobre a ratificação do documento tem sido residual em Angola e a comunicação social não tem dado relevo a esta matéria.
Mas, em Fevereiro último, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, em prosa divulgada pelo semanário A Capital, de Luanda, defendeu que Angola "deve optar pela ortografia brasileira", caso o Acordo Ortográfico não venha a ser aplicado por "resistência" de Portugal.
Para esta tomada de posição de um dos mais respeitados escritores angolanos e lusófonos, José Eduardo Agualusa avançava então como justificação o facto de Angola ser um país independente, nada dever a Portugal e o Brasil ter 180 milhões de habitantes e produzir muito mais títulos e a preços mais baratos do que Portugal.
Agualusa defendeu ainda, na crónica que publica regularmente n´A Capital, que Angola "tem mais a ganhar com a existência de uma ortografia única do que Portugal ou o Brasil", porque o país não produz livros mas precisa "desesperadamente deles".
Ainda no referido texto do escritor José Eduardo Agualusa, este defende que a educação das populações angolanas e o desenvolvimento do país depende da importação, nos próximos anos, de milhões de livros.
E defende que as autoridades angolanas devem criar "rapidamente legislação" que permita e facilite a entrada de produtos culturais e, "em particular", de livros, no país.
Agualusa aponta ainda como razões para a demora na activação do acordo a "confusão" entre ortografia, as regras de escrita e linguagem, resumindo que o acordo tem por objectivo a existência de "uma única ortografia" no espaço de língua portuguesa, sendo "absurdo" pensar-se em unificar as diferentes variantes da "nossa" língua.
O autor apontava no texto ainda o dedo a um "enraizado sentimento imperial" de Portugal em relação à língua para o protelamento de uma decisão.
E, contrariando esta possibilidade, diz que a História nega este sentimento porque "a língua portuguesa formou-se fora do espaço geográfico onde se situa Portugal - na Galiza".
"Por outro lado, a língua portuguesa tem sido sempre, ao longo dos séculos, uma criação colectiva de portugueses, africanos, brasileiros e povos asiáticos", aponta.
Por outro lado, Jerónimo Belo, animador cultural e homem de letras, defendeu à Lusa que Angola deve ratificar o Acordo Ortográfico "no mais curto espaço de tempo possível".
"Os responsáveis angolanos não se podem esquecer que o país não está sozinho no mundo e deve participar com os restantes países de língua oficial portuguesa na procura de uma solução que a todos sirva, nomeadamente com a ratificação do texto", disse.
Jerónimo Belo sobrepõe "o interesse das crianças" angolanas a "qualquer outra questiúncula".
Um exemplo: "Sabe-se que Angola precisa muito de importar bens culturais, como acontece com a quase totalidade dos países africanos".
"Ora, havendo uma uniformidade nesta matéria, estes países podem proceder a importações, por exemplo de livros, com a garantia de que existe coerência na exposição dos conteúdos e sem o risco de equívocas interpretações na aquisição de saber", explicou.