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Ai o delírio das noites de Luanda, o alarido nas esplanadas, o exotismo dos grandes cinemas em jardins tropicais, os clubes nocturnos a fervilhar de milicianos – uns acabados de chegar, como nós, e outros já de regresso à Metrópole –, davam à cidade uma vida impetuosa que a esmagadora maioria nunca tivera dantes. Cada vez que o paquete "Vera Cruz" escalava Luanda, como transporte de tropas, eram mais de cinco mil os militares que se espalhavam por ruas e avenidas, com preferência pela frondosa marginal, adornada de palmeiras.
A cinco quilómetros deste rebuliço, um enorme quartel de combatentes em trânsito, no Grafanil, albergava aqueles milhares de homens, sem acomodações para tanta gente, "essa é boa... não têm camas?!", inquiri indignado, "espere um pouco, meu alferes, vai-se arranjar dormida, nem que seja num burro-de-campanha". Mas o sargento encarregado, antes de levar sumiço, descartou-se "fique já com o cobertor...". Teria ele dito a mesma coisa a muitos... e não tive outro remédio senão dormir no chão barrento, toda a santíssima noite, a contas com uma caterva de mosquitos possessos – deliravam com sangue novo. Ainda o sol mal luzia, desapeguei-me daquele desassossego de tanto mosco, a caminho do primeiro café da manhã em África. Num rodopio estonteante, chegavam e partiam toda a sorte de transportes militares e civis, acarreando aquela gente num completo desvairamento. Ao outro dia, procurámos pousada do ar da noite, fora daquele chão duro. Corremos em cata de residenciais e hotéis baratos, "lamento, não há lugar", e sempre o mesmo responso comercial, "lamento, mas de facto não há lugar", tudo cheio. Depois de muitas voltas e rodeios – isso já noite alta –, o motorista do jeep militar, "bem, meus alferes, os senhores têm, mesmo aqui ao pé, o hotel Continental, é carote...". Descemos e reparei a sua classe na parede ao lado da porta da entrada – eram cinco as estrelas do magnífico! O meu companheiro de desdita arrepiou-se e voltou ao jeep, para se enfiar no chão calcinado do Grafanil. Bem, pelo menos, iria saborear mais três noites de bom passadio, pensava eu, "só por uma noite, senhor alferes..."; advertiu-me um mestiço aí pelos trinta e poucos anos, esperando a minha decisão. Apalpei a carteira e pensei, "antes pouco do que nada"; claro, aceitei aquele refrigério, "é pena, o hotel está realmente cheio", volveu ele complacente. Mas tropa era isso mesmo – combater o inimigo, fosse ele chão duro, barrento, ou o que quer que fosse. E voltei refeito para o terreiro do Grafanil, já prevenido com um mosquiteiro. Mesmo assim, vagueávamos aos bandos pela grande cidade, tomando de assalto tudo o que era divertimento. Ninguém parecia levar a sério o que nos esperava no mato, como se fosse preferível arrolhar os ouvidos, cerrar os olhos, ignorar o inferno a arder ao pé da porta, "isso depois se vê...", era uma máxima que passava de boca em boca. Interessava apenas aquele dia, a noite que havia de chegar bem divertida. Até que, à quarta e última noite, ouvi de alguém, aos gritos, em plena pista de dança, "camaradas, quem a morte não teme, que importa a vida tê-la por um fio...". Aquilo gravou-se-me, até hoje, como ferro em brasa. Claro, fiquei toldado de vez. Saí do recinto como se aquela atoarda fora a primeira emboscada, ali à queima-roupa. Notei que outros foram tomados do mesmo assalto, vergando um semblante cerrado. Ouvi mais gritos que vinham de dentro, e a mesma voz bradou, "um dia basta!", outros secundaram-no em coro histérico, "um dia basta!", e de seguida, cantando, "Angola, um dia basta! Angola, um dia basta!". Pus-me a magicar: teria o fulano sido um quartanista de filosofia, em busca de razões firmes de vida, e depois desentendeu-se consigo próprio; ou um renegado finalista de teologia, voltando costas a uma vocação empurrada por uma tia solteirona, "se fores padre, deixo-te tudo..."; ou talvez fosse um anarquista disposto a desintegrar as mentes ébrias; ou ainda, quem sabe, alguém a soldo de uma pérfida acção psicológica militar – sei lá, diziam-se cobras e lagartos dessa gente – atirando-nos para a frente de combate com desprezo pela vida. Fosse o que fosse, ao quinto dia, manhã cedo, a extensa coluna de camiões civis, de caixa aberta, partia para o Norte, como se fôramos refugiados em debandada para terra segura. A paisagem ia crescendo de verdes, de grandes montanhas empoleiradas na picada acidentada, e tudo calmo. Meu Deus, aquele sossego penoso confrangia-me. Ainda por cima, a meio caminho no Quicabo, a soldadesca divertida, "olha os maçaricos!", e mangaram na nossa angústia, "daqui para lá é que vão ser elas...", e toca de nos roubar da cabeça os "quicos". Nem o comandante foi poupado – nem glória, nem galões... Durante todo o primeiro dia, agouráramos uma saraivada de balas, voando esbaforidas do esconderijo aterrador da mata – mas nada. E assim se consumou a véspera de um dia que havia de ser pavoroso. P.S. "Parece-me que o senhor é filho de uma pessoa que conheci no Pico…", disse-me Dias de Melo na Morada da Escrita, e eu acrescentei, "era meu pai que…" e ele logo esclarecido, "era o chefe do Posto Matos Souto, que nunca chegou a Escola Agrícola – foi pena…". A palavra do leitor
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