O resultado, vitória do Benfica por 3-2, não era o mais importante logo à partida, porque se tratava de um jogo amigável destinado a selar a época do clube da Luz na digressão africana que a equipa fez, começando em Cabo Verde e terminando na sexta-feira em Luanda.
O mais interessante foi mesmo ver os adeptos do Benfica, trajados a rigor, camisolas, cachecol e bandeira, a apoiar efusivamente a equipa adversária quando esta estava nos últimos metros da baliza defendida por Moreira.
O mesmo acontecia com os adeptos dos "Palancas Negras" quando era o Benfica a aproximar-se da baliza da equipa angolana - mas aqui quando o angolano do Benfica, Pedro Mantorras, que alinhou como capitão e desde o início do jogo, ensaiava um drible sobre um seu compatriota.
De um lado das bancadas, logo abaixo da área VIP, estavam os adeptos encarnados, do outro, puxava-se por Angola. Momentos houve no desafio em que não se percebia quem gritava por quem.
O Benfica, adiantou-se no marcador logo aos cinco minutos pelo Cristian Rodriguez, o empate surgiu por Love Kabungula, e a festa percorreu todo o estádio.
O segundo tento do Benfica foi um auto-golo após remate de Di Maria e o terceiro nasceu de um poderoso livre de Maxi Pereira.
As bancadas só se voltaram a levantar em uníssono com o segundo dos "Palancas Negras", já o árbitro se preparava para dar por finda a partida.
Mas o jogo estava destinado a ser mais que futebol. E foi mesmo uma festa, com benfiquistas, e até sportinguistas, com camisolas do clube de Lisboa envoltas em cachecóis da selecção angolana e cachecóis da águia envolvendo o emblema da equipa nacional angolana...
Ainda a bola rolava no campo e já as antigas glórias José Augusto, Simões e Eusébio e o presidente Luís Filipe Vieira eram assediados por dezenas de adeptos para deixaram um autografo em camisolas, bandeiras ou cachecóis.
O nome de Eusébio era gritado. Chamavam-lhe também de "Malanginho" por o seu pai ser natural da província angolana de Malange.
Ali perto, a querer falar com os seus amigos, José Augusto, Simões e Eusébio estava Manuel Fernandes Mateus, angolano, antiga estrela do Vitória de Setúbal nas décadas de 1950/60, que ergueu uma Taça de Portugal conquista ao Benfica, por 3-1.
Olhando para o jornalista que ia tomando notas, Mateus disse, primeiro baixinho, depois mais alto: "Andei com o Mourinho ao colo". Quem? "Sim, esse o Mourinho, o melhor treinador do mundo".
Mateus foi para Portugal aos 17 anos para jogar futebol. E jogou "com todas as estrelas da época", incluindo os "amigos" Augusto, Eusébio e Simões.
O jogo ia decorrendo e Mateus garantia à Lusa que o jogador angolano do Benfica Pedro Mantorras "está a melhorar muito".
Também Mateus gostava um dia de ter jogado no Benfica. "Mas eles nunca me quiseram", lamentou, garantido que tudo fez para que o Benfica o contratasse. "Mas nada, nunca me quiseram". Essa a mágoa da sua vida.
Hoje, aos 70 anos, Mateus sabe que "naquele tempo" o futebol "era outra coisa", muito diferente "disto", e apontava para a relva onde os craques de hoje trabalhavam a bola. "Remata-se muito mal no futebol de hoje".
Minutos depois Mateus ficava quase sem palavras quando Maxi Pereira marcou, de livre, um daqueles golos que acontecem poucas vezes, com a bola no ângulo superior esquerdo atirada a mais de 30 metros da baliza.
No fim do jogo, ninguém saiu insatisfeito do Estádio da Cidadela e Mateus, com o golo de Maxi Pereira, deixou o estádio satisfeito por se ter reencontrado com o futebol onde se chuta como deve de ser. Com "aquele grande pontapé".
RB
Lusa/fim















