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Angola Xyami - Angola Minha Terra

O poder e a política: "O problema não é destruir esta sociedade, mas parar de a criar", John Hollowa Imprimir e-mail
Escrito por Director   
08-Mai-2008

John Holloway é professor de sociologia na Universidade de Puebla, no México, e o seu livro mais conhecido é Mudar o Mundo sem Tomar o Poder (2002). 

Holloway partilha com Tony Negri algumas referências fundamentais, tanto no plano filosófico (Deleuze e Foucault),1 como na rejeição das visões tradicionalmente opostas na esquerda, seja a da social-democracia, do estalinismo e de outras correntes, e ainda na rejeição das propostas revolucionárias derivadas das oposições de esquerda ao longo do século XX. Mas critica em Negri a apresentação de uma mundivisão estratégica, como a que este defendeu com Michael Hardt em Império, pelo facto de ser uma estratégia e pelo facto de ser global. De facto, Holloway destacou-se pelo facto de ter proposto uma leitura do zapatismo que o apresentava como uma alternativa ao modo de pensar de todas as esquerdas - embora o zapatismo oficial tenha recentemente feito todo o possível para deixar claro que Holloway não é o seu ideólogo nem representante. Essas questões de estratégia não são tratadas aqui.

O que me interessa, em contrapartida, é a justificação política da recusa da luta pelo direito ao emprego. E, como Holloway se refere ao marxismo e pretende mesmo representar uma nova geração do pensamento marxista, é legítimo situar esta discussão nesse contexto ideológico.

 A primeira razão de Holloway mergulha na sua visão da luta emancipatória. Segundo ele, «O problema não é destruir esta sociedade, mas parar de a criar». Se assim fizermos, a sociedade capitalista «deixa de existir».2 Por isso mesmo, é preciso fugir: «Evadir-se do capital é vital. Escapar-lhe é ‘fácil', o verdadeiro problema é conseguir a fuga e evitar ser apanhado».3 A explicação está feita: devemos fugir do capitalismo, deixando de o produzir e desagregando-o assim através desse antipoder que desarticula o poder. Como Holloway explicou na sessão referida, o emprego é o direito a ser explorado, e por isso é parte da produção do capitalismo. O nosso poder seria fugir.

 A segunda razão para a recusa do direito ao emprego decorre directamente desta. Como a propriedade é o «processo diariamente repetido de apropriação do produto da nossa acção», assenta na reificação do produto. A forma de combater o capitalismo é por isso «possivelmente, a desfetichização da propriedade».4 Assim, a fuga ganha uma direcção: a desalienação é a chave da política, porque é possível criar «nichos de recusa, de desobediência, de insubordinação», «opondo o valor de uso ao valor de troca5
 

A terceira razão é o enunciado da forma de actuação: «Queremos fazer um mundo novo, não queremos tomar o poder». O nosso poder é diferente do do capitalismo, porque «está por todo o lado».6 É um «antipoder».7 A prática emancipatória desenvolve-se a partir dos interstícios da resistência à alienação, ligando experiências «dentro-contra-para além do capital».8 Nem toda a gente partilhará o mesmo optimismo que define uma acção dentro-contra-para-além, mas nada disso parará o ímpeto de Holloway.

 A recusa do direito ao emprego fica então clara. A luta emancipatória não enfrenta nem sequer procura vencer o capitalismo, procura fugir dele, e o seu poder é não querer o poder. Mas esse não-poder é irrigado pelos «interstícios» da sociedade, criando «nichos».

 O que acontece nesses nichos? Perguntar é responder: criam-se valores de uso, opostos aos valores de troca. Com essa ambição, temos simultaneamente uma política e uma fuga. Todas as consequências desta visão estão expressas na celebrada rejeição do direito ao emprego.

 Mas, antes de discutir razões e consequências, permita a leitora ou o leitor que deitemos uma vista de olhos aos argumentos de Marx. Holloway não levará a mal; de facto, considerando-se ele próprio um renovador do marxismo, não pode deixar de se medir contra os seus temas originais. Não passa a ter nem perde razão pelo facto de ser distinto de Marx, nem lhe falta legitimidade para o questionar; afinal, esse é o sentido da teoria crítica e do marxismo aplicado a si próprio. Não é portanto um exercício de hermenêutica que pode decidir da validade dos argumentos em liça, mas não deixa de ser relevante pensar se as questões actuais não foram já afrontadas no passado. E é que foram.

 

        Na sua Miséria da Filosofia, Marx lança-se contra as doutrinas de Proudhon. Para o que nos interessa, Proudhon defendia a ideia da dupla natureza do valor, distinto entre valor de uso (a utilidade para a pessoa) e o valor de troca (o valor socialmente reconhecido na troca mercantil). Marx escarnece desta ideia: «No momento em que [Proudhon] ignora a procura, identifica troca com escassez e valor de uso com abundância». Para Marx, pelo contrário, o valor de uso é parte da determinação da procura social, mas a realização da mercadoria ocorre no mercado e não antes dele, e é por isso esse processo de socialização privada que constitui o valor de troca como valor e só assim tem valor de uso, sendo acessível. A produção de mercadorias é por isso concomitante da função da moeda, que organiza a troca.

        No Trabalho Assalariado e Capital, Marx vai um pouco mais longe e analisa o «capital como uma relação social de produção. É a relação burguesa de produção». O capital «consiste não somente em meios de subsistência, instrumentos de trabalho e matérias primas e não somente em produtos materiais; consiste em valores de troca». Finalmente, no segundo capítulo do Capital, a sua obra fundamental, Marx volta a discutir a distinção entre valores de uso e valores de troca: «Todas as mercadorias são não-valores-de-uso para os seus proprietários e valores de uso para os seus não-proprietários. (...) Assim as mercadorias devem ser realizadas como valores antes de serem realizadas como valores de uso. Por outro lado, devem provar ser valores de uso antes de serem realizadas como valores». Nesse sentido, afirma, «O progresso histórico e a extensão das trocas desenvolve o contraste, latente nas mercadorias, entre o valor de uso e o valor». O contraste é permanente, e a sociedade burguesa resolve-o com a troca mercantil e com a formação do capital: o valor torna-se valor de troca.

        Para Holloway, esta análise deve ser abandonada. De facto, volta a Proudhon, rejeitando a ideia marxista da coerência da sociedade e da produção capitalista, isto é do seu modo de produção que estabelece o capital como uma relação social. E, nessa senda, recupera a ideia de que ainda sobreviveria, não um contraste, mas uma contradição entre valor de uso e valor de troca. Assim sendo, o próximo passo é simplesmente afirmar que os «nichos», os «interstícios» da sociedade são os espaços em que seja possível a produção de valores de uso sem valor de troca.

        Troquemos isto por miúdos. Essa produção de valores de uso, o lugar da fuga do capitalismo (Negri diria do exílio ou, mais bíblico, do êxodo), poderia então fazer-se sem trabalho assalariado, sem emprego nesse sentido, e sem troca mercantil, isto é com troca directa entre produtores. Seria necessariamente um «nicho» onde não existiria moeda, porque qualquer troca monetarizada pressupõe a medida de valores de troca. Ora, este «interstício» não poderia existir em nenhuma sociedade capitalista; porventura poderia ser criado numa comuna retirada do mundo, sem consumos que não correspondessem à produção local.

        É uma utopia, mas é uma utopia reaccionária. Só um regime concentracionário poderia imaginar este idílio, em que os consumos são determinados sem escolha individual, em que o gosto é dirigido, em que não há acesso a formas de comunicação ou de acção global.

 

A ideia de que se pode combater o despotismo do mercado ou a sacralização da propriedade através destas fugas é profundamente perniciosa, não só porque arrastaria a vontade emancipatória para um purgatório incomunicável, como sobretudo porque desistiria de intervir na disputa concreta dos direitos sociais.

Haveria ainda uma alternativa, a que Negri defende: os desempregados reivindicariam um rendimento universal. Assim, poderiam viver sem estar sujeitos às grilhetas do trabalho. Mas esta alternativa não é alternativa. De facto, o acesso a subsídio de desemprego ou a rendimento social é fundamental para proteger da exclusão e da marginalização, mas não garante o direito fundamental da autonomia do trabalhador, em primeiro lugar porque fica dependente do Estado. Deve ser defendido como o que é: uma resposta transitória a uma situação inaceitável. Mas seria pelo menos estranho que os defensores do «exílio» e da «fuga» fizessem desembocar essa fuga... nos braços da dependência do Estado. O contrapoder viveria assim do poder, o que não deixaria de ser absurdo.

Esta questão, aliás, remete de novo para o problema da estratégia política. Ao pedir aos desempregados que fujam e que não aceitem o trabalho assalariado, Holloway não lhes está a pedir que deixem de ser explorados, com a ambição benevolente de que, se fossem muitos os que deixassem de trabalhar, o capitalismo ruiria (ignorando aliás que as pessoas deixariam entretanto de consumir aquilo de que dependem para viver). Está a afirmar que a alienação é tão poderosa, porque inscrita no trabalho, que pode ser vencida pela desistência. Bastaria então que fosse apregoada a necessidade de eliminar a alienação das nossas mentes, como se a alienação fosse uma visão deturpada que pudesse ser limpa das consciências sofredoras, num «regresso ao paraíso perdido», para que as Muralhas de Jericó do capitalismo tombassem clamorosamente.

Com qualquer modo de fuga, que Holloway sugira que o caminho para dia tão glorioso seja o desistir de combater, não deixa de ser uma demonstração de cinismo. Se quiserem seguir o meu conselho e certamente o que lhes diz a sua experiência, os e as desempregadas continuarão a lutar pelo direito ao emprego e pela margem de autonomia que um salário permite, para que essa acção e organização social marque o presente e o futuro.


 


Notas

1 Discuti as posições de Negri em capítulos de dois livros escritos com Jorge Costa, «A Guerra Infinita» e «A Globalização Armada» (2002, Edições Afrontamento). Tanto na análise da guerra do Iraque e do papel de Washington como centro do império, como em algumas questões políticas como o apoio de Negri ao projecto de Constituição Europeia, as nossas divergências são fundamentais. Assinalo em todo o caso que, ao rejeitar o lugar da história e da estratégia, Holloway se coloca à direita de Negri.

2 «Stop Making Capitalism», in Werner Bonefeld e Kosmas Psychopedis (eds.), Human Dignity, Ashgate, Londres, 2005.

3 «Revolt and Revolution, or "Get out the Way, Capital"», in Werner Bonefeld e Sergio Tischler (eds.), What is to be Done, Ashgate, Londres 2002.

4 «Zapatismo Urbano», in Humboldt Journal of Social Relations, Arcata, California, 2005.

5 «Revolt and Revolution», ibid.

6 «Where is Power», in P. Chandra, A. Gosh, et R. Kumar (eds.), The Politics of Imperialism and Counterstrategies, Aakar Books, Dehli, 2004.

7 Ibid.

8 «Stop Making Capitalism», ibid.

 

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