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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

"Peço aos compatriotas que se orgulhem da perpetuação da herança africana" Dr. Simão Souindoula Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
27-Mai-2008
O nosso entrevistado é o Dr. Simão Souindoula, historiador, crítico de arte, coordenador do Comité Angola do Projecto da UNESCO "A Rota dos Escravos" e Director do Museu Nacional da Escravatura, reaberto a 18 de Maio de 2007. Em jeito de balanço e perspectivas da vida da importante instituição que dirige, sita no Morro da Cruz, a 23 quilómetros a sul de Luanda, mantivemos com ele o diálogo que passamos a reproduzir.

Kituxi kia Henda


Angolense (ANG): No dia 18 de Maio, completa-se um ano sobre a reabertura do Museu Nacional da Escravatura. Que factos relevantes registou a instituição, ao longo deste ano?

Simão Souindoula (SS): Graças a novos suportes iconográficos adquiridos durante missões efectuadas na Argentina, no Brasil, na Grã Bretanha e nos Estados Unidos, pudemos enriquecer a exposição "Caravanas dos Aferrolhados", que foi montada por ocasião da reinauguração e permanece.
Registámos, também, o sucesso da introdução de um suporte áudio-visual no circuito da exposição sobre a tragédia que foi, para o nosso país e para a África, o tráfico de escravos além-Atlântico e além-Índico. Saliente-se que o nosso Museu foi o primeiro estabelecimento museal, em Angola, e ainda é o único a usar essa tecnologia fundamental de aprendizagem e sensibilização.
Por outro lado, assinalámos, comovidos, as muitas visitas de escolas de Luanda dos diferentes níveis de ensino, de confissões religiosas, associações, grandes empresas e instituições públicas.
De salientar, também, o facto da quase institucionalização de visitas ao "Baptistério" do Morro da Cruz por altas personalidades estrangeiras que visitam Angola ou aqui residem. Outro aspecto que podemos sublinhar é o da realização de várias reportagens televisivas e de documentários sobre a instituição e o tráfico de escravos, com destaque para "De San Salvador a São João dos Angolares", documentário realizado pela TPA.
Podemos referir ainda a edição, em versão portuguesa, da brochura "O Baptistério do Morro da Cruz – Um Alto Lugar de Memória", que é oferecida aos visitantes. Por fim, sublinhamos a aquisição de uma trintena de cópias de documentos de arquivos holandeses, livros e DVD, oferta de várias instituições afro-americanas.

ANG: Que actividades assinalarão a efeméride?

SS: Visitas de delegados ao Vº Encontro Nacional dos Profissionais dos Museus e de alunos de várias estruturas escolares.

ANG: Refira-se à génese e à importância do Museu Nacional da Escravatura.

S.S.: O Museu do "Holocausto" foi criado pelo Governo no dia 7 de Dezembro de 1977, dois anos após a Independência de Angola.
O facto revela a sensibilidade das Autoridades angolanas para a importância histórica dos actos ligados à escravatura e à neo-escravatura, registados, em Angola, ao longo de quase cinco séculos.
Assim, a criação de um museu dedicado especificamente a esse período doloroso do nosso passado era uma prioridade nacional.

ANG: Que aspectos da memória da escravatura propõe, aos visitantes, o acervo de que o MNE é guardião?

S.S.: O conjunto das diferentes peças da exposição "CARAVANA DOS AFERROLHADOS", que ocupa quatro compartimentos do velho "Baptistério". A mostra, bastante rica e elucidativa das tormentas sofridas pelos escravos, desde a captura ao duro trabalho nas minas, plantações e engenhos, passando pelas desumanas condições de transporte nos navios negreiros, é constituída por uma panóplia de instrumentos usados ao longo de todo o processo.
Assim, no Museu da Escravatura, podem ver-se armas usadas na "caça" aos escravos, instrumentos de tortura, como grilhetas, chicotes e palmatórias, esculturas e gravuras que retratam as intermináveis caravanas de cativos aforquilhados ou aferrolhados, mapas das rotas esclavagistas, estampas e miniaturas de navios negreiros transatlânticos e da horrenda atmosfera nos seus porões. Enfim! Toda uma série de documentos e peças que são testemunho do tráfico de escravos e da escravatura em si.
Realce, ainda para uma placa gravada com a famosa afirmação "Quem somos nós?" feita em Atlanta, nos E.U.A, em 1967, por Martin Luther King Júnior.

ANG: Que lacunas estão por colmatar, para a representação do "Holocausto angolano"?

S.S.: Sobretudo gravuras ou fotografias ligadas aos sítios e às actividades esclavagistas no hinterland do país.

ANG: O que terá de fazer alguém que ainda não conheça o Museu e queira visitá-lo?


SS: O Museu está aberto todos os dias, das 9 às17 horas. De segunda a sexta-feira, a instituição funciona com guardas-guias; aos sábados e domingos, as visitas são acompanhadas por um guia.
Para visitas guiadas especiais, a Direcção do Museu pode ser contactada pelo telefone 924 771 880.

ANG: Que projectos tem o MNE em carteira?

SS: Podemos destacar a continuação do desenvolvimento de actividades relacionadas com o Comité de Angola do Projecto da UNESCO "A Rota do Escravo" e, a nível das infraestruturas, o alargamento do MNA para complexo museal. Nesse âmbito, será erigido um memorial em homenagem aos cinco milhões de angolanos, vítimas do tráfico de escravos.
Temos planos para a criação de um website e para a digitalização de todo o acervo fundamental da instituição e toda uma série de protocolos de investigação e de programas de divulgação do nosso património, que, obviamente, vamos continuar a procurar enriquecer, com o contributo de instituições nacionais e estrangeiras.

ANG: O senhor é o coordenador do Comité de Angola do Projecto da UNESCO "A Rota do Escravo". Fale-nos, em linhas gerais, dos objectivos do projecto.

SS: A Conferência Geral da UNESCO instituiu, em 1994, este Projecto com o propósito de tornar presente, na memória da humanidade, a tragédia que foi o tráfico transatlântico de escravos, o maior movimento organizado de deportação da história.
Nesse âmbito, aquele organismo das Nações Unidas estabeleceu um quadro para uma investigação científica internacional que visa realçar as consequências multiformes da escravatura.
O projecto desenvolve vários programas relativos à conservação das fontes documentais, à exploração das tradições orais, ao ensino, à expressão artística, ao turismo cultural e às publicações.

ANG: De que forma contribui Angola para o êxito dessa iniciativa?

SS: Angola forneceu centenas de dados e documentos, publicou uma dezena de artigos, tais como "Benguela, um pântano esclavagista" ou " São Salvador e São Tomé, entre parceria e rivalidades", deu à estampa dezenas de recensões de obras sobre a presença "angolana" na Península Ibérica, nos países do Rio de la Plata, nas Caraíbas e na América setentrional.
O Comité Angola tem efectuado viagens de recolha de dados e construção de parcerias com vários países da "Rota", como o Peru, a Argentina e os EUA; organizou a exposição itinerante "Itinerários da Memória – Escravatura e Tráfico Negreiro na África de Língua Portuguesa"; tem realizado palestras, no país e no estrangeiro; tem mantido encontros com entidades estrangeiras ligadas ao Projecto, com destaque para o ocorrido, em Dezembro de 2007, por ocasião do 30º aniversário do Museu Nacional da Escravatura, com a Sra. Elida Obella, Presidente da Federação das Associações Afro-argentinas; tem também contribuído com a participação de especialistas angolanos em encontros científicos internacionais, nomeadamente em Buenos Aires, Londres e em Porto Velho, no Brasil amazónico.

ANG: Como tivemos a ocasião de noticiar nas páginas do nosso jornal, deslocou-se recentemente a Nova Iorque e um dos pontos que figuravam na sua agenda consistia na solicitação de o "La Amistad"(1) atracar em portos de Angola, numa próxima viagem... Em que pé ficou o assunto?


SS: Obtivemos informações técnicas complementares, sobretudo sobre a capacidade do navio reproduzido, que a Dra. Júlia Machado, Cônsul Geral de Angola naquela cidade, já visitou.
Aguardamos, agora, o caderno de encargos dos promotores do projecto, documento no qual constarão vários aspectos tais como os ligados ao lugar de atracamento, à organização ordenada das visitas, à segurança, etc.
Mas, é quase certo que a vinda em Angola do novo "La Amistad" será programada para o próximo ano.

ANG: Para terminar, que mensagem tem para os nossos leitores por ocasião do Dia Internacional dos Museus, que se assinala a 18 de Maio?

SS: No que diz respeito ao MNE, que tenham um pensamento de respeito por todos os nossos compatriotas e outros africanos que foram arrastados nesse penoso percurso de migração forçada; que não deixem apagar-se na memória os dolorosos caminhos do tráfico negreiro e do comércio triangular, a corajosa luta pela sobrevivência, no intra e além-Atlântico, e as heróicas resistências; que se orgulhem da perpetuação da herança africana nessas regiões de deportação, a qual constitui a base para o fortalecimento de uma nova fraternidade entre as duas margens do Atlântico.
Falando de museus em geral, que os visitem e saibam aproveitar as grandes lições de que são depositários e porta-vozes.

(1) Réplica de um navio negreiro que sulca o Atlântico, visitando portos que foram teatro do tráfico de escravos.
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