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Actualmente, parece não haver uma alternativa coerente ao capitalismo, no entanto, os sentimentos anti-mercado estão bem vivos, sendo a reacção moralista contra a globalização uma das suas muitas expressões.
Não podendo um sistema social, qualquer que ele seja, sobreviver por muito tempo sem uma base moral, urge lidar com os desafios que os activistas anti-globalização colocam, para mais quando estes se manifestam durante uma crise económica.
Dificilmente podemos negar um certo valor moral ao mercado. Afinal de contas, associamos moral tanto a processos como a resultados. A expressão "o fim não justifica os meios" assim o ilustra. Em termos morais, é preferível que os bens resultem do trabalho livre do que do trabalho escravo, bem como podermos escolhê-los de nossa livre vontade ao invés de ser o Estado a escolhê-los por nós. O facto de o sistema de mercado ser mais eficiente na criação de riqueza e na satisfação de necessidades do que qualquer outro sistema é uma vantagem acrescida.
As críticas à moralidade do mercado focalizam-se na propensão que este tem para favorecer uma natureza moralmente deficiente, de privilegiar sentimentos displicentes e de promover resultados indesejáveis. O capitalismo é ainda acusado de não ter um princípio de justiça.
Consideremos a sua natureza. Muitas vezes acusa-se o capitalismo de premiar qualidades como o autodomínio, o trabalho árduo, o espírito inventivo, a parcimónia e a prudência. Ora, este enaltece virtudes que não possuem qualquer utilidade económica, como o heroísmo, a honra, a generosidade e a compaixão. O heroísmo sobrevive, em parte, na ideia romantizada do "empreendedor heróico".
O problema não reside apenas na inadequação moral das virtudes económicas, mas no seu desaparecimento. O trabalho árduo e o espírito criativo continuam a ser premiados, mas o autodomínio, a parcimónia e a prudência iniciaram a via da extinção a partir do momento em que surgiram os cartões de crédito. No opulento Ocidente, o crédito ao consumo está em alta. Os EUA e o Reino Unido afogam-se em dívidas.
Adam Smith escreveu um dia que "o único fim e objectivo da produção é o consumo". Mas o consumo não é um objectivo ético. Onde está a virtude moral de ter cinco cartões de crédito em vez de um? Precisamos de consumir para viver e consumir acima do necessário para viver bem. Eis a justificação ética para o desenvolvimento económico. De um ponto de vista ético, o consumo é um meio para atingir a bondade, sendo o sistema de mercado o mecanismo mais eficaz para libertar as pessoas da pobreza: é o que tem acontecido, e a um nível extraordinário, na China e na Índia.
Isto não nos diz, todavia, até que ponto o consumo nos leva por maus caminhos. Quando as pessoas procuram drogas ou pornografia, o mercado permite-lhes consumir estes bens ao ponto de se autodestruírem. O mercado fornece em excesso bens prejudicais e peca no fornecimento de bens moralmente benéficos. No que respeita à qualidade de vida, devemos pautar-nos pelos princípios morais e não pelos mercados.
É claro que é injusto acusar o mercado pelas escolhas moralmente erradas. Cabe às pessoas decidir quando devem pôr termo ao consumo e escolher o que querem consumir. Acontece, porém, que o mercado depende de um sentimento particular subjacente à acção, a que Keynes chamava o "amor pelo dinheiro", que tende a subverter os tradicionais ensinamentos morais. O paradoxo do capitalismo reside no facto de transformar sentimentos como a avareza, a ganância e a inveja em virtudes.
Dizem-nos que o capitalismo desperta nas pessoas necessidades que desconheciam ter e que é isto que leva a humanidade a seguir em frente. Mas talvez seja mais correcto dizer que a economia de mercado se apoia no estímulo à ganância e à inveja através da publicidade. Num mundo onde a publicidade é omnipresente não existem limites naturais para o apetite por bens e serviços.
A derradeira questão moral do capitalismo é a ausência de um princípio de justiça. Num mercado competitivo perfeito, onde a informação é generalizada, os modelos de mercado mostram que os factores de produção e os seus produtos marginais são premiados de igual forma, ou seja, são pagos pelo que valem. A informação e a concorrência fazem com que os contratos não sejam coercivos - não existe poder de monopólio - e com que as expectativas sejam correspondidas, ou seja, as pessoas têm aquilo que querem. A justiça da distribuição releva, supostamente, da justiça inerente à troca.
Ora, nenhum sistema de mercado capitalista gera hoje justiça de uma forma espontânea. Existe sempre alguma forma de poder de monopólio: quem está por dentro do sistema tem sempre acesso a mais informação do que quem está por fora, a ignorância e a incerteza são sempre perversoras, e as expectativas saem muitas vezes frustradas. A justiça da troca tem de provir de fora do mercado e não deste.
Além disso, o contributo que cada pessoa dá ao mercado não só inclui as suas qualidades inatas como as suas posições, que são extremamente desiguais. Daí que a teoria liberal da justiça exija um mínimo de igualdade de oportunidade, que passa por tentar - até onde for compatível com a liberdade pessoal - eliminar as diferenças que relevam de pontos de partida distintos. É por esta razão que confiamos no Estado para providenciar bens sociais como a educação, a saúde e o acesso à habitação.
Por último, exigir que todos sejam pagos - em condições ideais - em função do seu valor é, no fundo, uma avaliação económica e não moral. A nossa intuição moral não aceita que um CEO receba 500 vezes mais que a média dos seus trabalhadores nem que uma pessoa morra à fome por receber um salário demasiado baixo. À medida que as nossas sociedades se tornaram mais ricas, passámos a defender que todos têm direito a um padrão de vida condigno, seja num contexto de emprego, doença ou desemprego, na medida em que aquele permite manter um certo nível de conforto e de prosperidade. Ora bem, o sistema de mercado não garante esta exigência.
E embora o mercado não tenha um adversário à altura, não deixa de ser moralmente vulnerável. Tornou-se, aliás, perigosamente dependente do êxito económico, por isso, qualquer catástrofe económica em larga escala vai expor a superficialidade das suas reivindicações morais. A solução não é abolir os mercados, mas sim "remoralizar", corrigir as vontades. A publicidade é a forma mais simples de o conseguir, pois permitiria atilar o papel da ganância e da inveja na forma como os mercados operam e criar espaço para que outros sentimentos possam emergir.
* Professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick e autor de uma biografia premiada sobre o economista John Maynard Keynes.
Exclusivo PÚBLICO/Project Syndicate
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