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Nesta sexta-feira, a senadora Hillary Clinton aparecerá pela primeira vez ao lado do provável candidato democrata à Casa Branca Barack Obama, desde o fim das prévias democratas. O evento, na cidade de Unity, serve para Obama mostrar que o partido está unido, mas serve principalmente para Hillary atrair doadores para pagar a sua milionária dívida de campanha. Para Paul Beck, chefe do departamento de ciência política da Universidade de Ohio, nem mesmo a ajuda de Obama será suficiente para a ex-primeira-dama pagar os mais de US$ 20 milhões em dívidas.
"Eu acho que é isso que acontecerá com parte da dívida de Hillary. A sua campanha terá que ir à Comissão Federal Eleitoral (FEC) e registrar um plano de pagamento no qual se comprometem a pagar, uma parte, talvez US$ 2 de cada US$ 10, e o FEC vai ter que aprovar isso. Faz parte do processo", disse Beck em entrevista por telefone de Columbus (Ohio) à Folha Online. | 26.fev.2008 - Rick Bowmer/AP |  | Hillary e Obama participam de debate; ela ainda precisa pagar uma dívida de US$ 20 milhões | Segundo o professor, a dívida não poderá ser perdoada pelas empresas que prestaram serviços a Hillary porque o dinheiro seria considerado como doação de campanha, o que é "ilegal de acordo com as regras de financiamento de campanha eleitoral norte-americanas". Parte da estratégia de Hillary, diz o professor, é seu comprometimento em não utilizar o dinheiro arrecadado para pagar os empréstimos pessoais que fez à própria campanha --que chegam a US$ 12 milhões. O gesto pode inspirar seus colaboradores--e principalmente os inúmeros doadores de Obama-- a contribuirem com o pagamento da dívida. Para Obama, o que está em jogo são os eleitorados de Hillary --mulheres, operários, homens brancos. Depois de meses em uma intensa disputa pela nomeação, o senador --e grande parte da liderança do Partido Democrata--, teme que os ataques, críticas e questionamentos feitos na época das primárias impeçam que os seguidores de Hillary votem em Obama. Segundo Beck, há efetivamente alguns eleitores dos dois lados que não votariam para o outro pré-candidato, mas não em um número que possa afetar a candidatura de Obama. "O que vemos agora é o começo do processo que tornará mais fácil para eles [eleitores de Hillary] voltarem para o lado democrata em novembro", disse o professor, sobre o evento conjunto desta sexta. Leia a íntegra da entrevista com Paul Beck: Folha Online - Qual a importância deste evento conjunto de Hillary e Obama? Paul Beck - É um evento de grande importância. Eles foram grande competidores na disputa pela nomeação e Obama superou Hillary por uma margem muito pequena no número geral de delegados e de eleitores. Hillary conseguiu, como ela gosta de frisar sempre, 18 milhões de votos no processo de nomeação. Esta foi uma situação sem precedentes na histórica americana, os pré-candidatos competirem tão próximos. O mais perto que chegamos disso foi, eu acho, em 1976, entre [Gerald] Ford e [Ronald] Reagan [que disputaram a nomeação republicana]. Nesta situação, o pré-candidato vencedor precisa unir-se ao pré-candidato que perdeu a nomeação para tentar atrair tanto o apoio do rival quanto, mais importante, o apoio de seus seguidores e eleitores. Isso é exatamente o que Obama está tentando fazer. Eu acho que a própria Hillary quer unir o partido para a campanha pelas gerais, e ela está sendo de grande ajuda nesta questão. Mas há um segundo ponto que está atraindo a atenção. É que Hillary tem enormes dívidas de campanha, gastou mais dinheiro do que tinha na campanha pela nomeação e precisa pagar esta dívida. Mas é muito complicado, porque é difícil para ela arrecadar dinheiro por si só, agora que não é mais candidata. As pessoas para quem ela deve são empresas que prestaram serviços de marketing e pesquisas, além de companhias de telefone e companhias aéreas. Não são empresas que esquecerão as dívidas, porque se eles o fizerem, será visto como doação de campanha o que é ilegal segundo as regras eleitorais. Ela precisa pagar estas dívidas e, para isso, realmente precisa da ajuda de Obama. E, aparentemente, ele está disposto a isso. Folha Online - Que tipo de ajuda Obama pode oferecer? A imagem dele como candidato pode inspirar doações a Hillary? | Susan Walsh/AP |  | Hillary Clinton volta ao Congresso após tentar candidatura democrata à Casa Branca | Beck - Ele pode conseguir doações de seus contribuidores. Ele vai aparecer ao lado dela, encorajando seus seguidores e contribuidores --e os dela-- a dar mais dinheiro para pagar as dívidas. Obama pode também apelar para sua própria equipe de financiamento para ajudar Hillary. Todas essas são possibilidades. Ele tem uma lista de pessoas que contribuíram para sua campanha, ele quebrou todos os recordes da história americana de contribuição. Sua campanha tem o poder de fazer isso. Mas há um problema: se ele destinar sua equipe para arrecadar dinheiro para Hillary pagar suas dívidas, terá menos gente para arrecadar dinheiro para sua própria campanha pelas eleições gerais. Esta é uma de suas preocupações. Folha Online - O sr. acha que as pessoas doarão dinheiro para Hillary, mesmo com ela fora da disputa? Beck - Alguns dos fiéis seguidores de Hillary ainda estão comprometidos com a causa. Mas se os colaboradores de Obama vão doar, nós não sabemos. É uma situação sem precedentes, nós nunca vimos nada parecido com isso antes. Ela disse que não usará o dinheiro arrecadado para pagar o dinheiro que emprestou à sua campanha de seu próprio bolso ou do de seu marido. Eu acho que isso é importante. As pessoas não querem ver seu dinheiro de doação ir para Hillary ou Bill. É muito melhor dar para pagar sua real dívida de campanha com outras empresas. Folha Online - E o cenário é promissor para Hillary? Ela deve conseguir pagar a dívida milionária que deixou? Beck - É muito difícil. Há exemplos de outros candidatos nesta situação, como John Gleen, que foi um senador aqui por Ohio. Ele tinha uma dívida considerável de campanha e não havia jeito fácil de pagá-la. As pessoas para quem ele devia não poderiam perdoar a dívida porque seriam contribuições de campanha e seria ilegal, ele poderia ser processado e multado por isso. Ele não tinha saída. Eu acho que ele ainda deve alguma parte deste dinheiro, obviamente isso nunca será pago, e eu acho que é isso que acontecerá com parte da dívida de Hillary. De qualquer modo, a campanha terá que ir à Comissão Federal Eleitoral (FEC) e registrar um plano de pagamento no qual vai dizer que pagará, não sei, US$ 2 de cada US$ 10 e o FEC vai ter que aprovar isso e assim os doadores não serão multados. Faz parte do processo, mas ela provavelmente espera não ter que recorrer a isso. Folha Online - O sr. acha que as primárias democratas foram tão repletas de ataques mútuos entre os dois que eles dividiram efetivamente os votos democratas entre eleitores de Hillary e eleitores de Obama? | Alex Brandon/AP |  | Hillary Clinton chega a reunião com seus arrecadadores e Obama | Beck - Obviamente há alguns eleitores dos dois lados que não votariam para o outro pré-candidato que buscava a nomeação. Mas eu acredito que estes eleitores acabarão sendo muito pequenos em número. Hillary e Barack são muito similares em muitos assuntos, eles são dois candidatos com muito apelo. E nós estamos também em um período no qual os republicanos são muito impopulares, em especial o presidente [George W.] Bush. Eu acho que muitos democratas que teriam votado em Hillary nas gerais, dirão "bem, o único voto que eu tenho é o voto por Obama". O que vemos agora é o começo do processo que tornará mais fácil para eles votarem para o lado democrata em novembro. Eu devo acrescentar a isso que há alguns democratas que votaram nas primárias por Hillary, mas que já foram eleitores republicanos. Estes eleitores podem não voltar para Partido Democrata em novembro. Eles poderiam não votar nos democratas a menos que Hillary fosse a candidata e, mesmo neste caso, poderiam não voltar e votar por [republicano John] McCain em novembro. Isso deve ser considerado também. Folha Online - O evento desta sexta-feira é uma tentativa de Obama de conquistar estes eleitores de Hillary? Beck - Com certeza. Ele realmente quer conquistar os eleitores de Hillary e outros além deles. Mas particularmente os eleitores de Hillary, mostrando a eles que ele a respeita, que ela foi uma pré-candidata muito forte, que ela será importante para ele no futuro e que respeita a natureza histórica de sua candidatura --a primeira mulher que realmente tinha uma chance de conseguir a nomeação de um grande partido. Eu acho que ele tem que mostrar respeito a isso, e acho que ele efetivamente respeita. Folha Online - Durante a campanha pela nomeação democrata, Hillary disse que Obama não estava preparado para assumir as responsabilidades de um presidente. As pessoas vão esquecer esta crítica agora? Beck - Isso será interessante. Obviamente, Hillary estava tentando diferenciar-se de Obama na época que fez estes comentários. Ela já se distanciou deles um pouco desde então. Mesmo na etapa final da disputa, ela estava mais cautelosa em fazer tal comentário. Ela realmente acreditava que tinha mais a oferecer que Obama, mas não houve eleitores suficientes que acreditassem nisso também, para que ela conseguisse a nomeação. Certamente nenhum delegado acreditou nisso. Eu acho que o que a veremos fazer a partir de agora será tentar reparar o dano que os comentários podem ter causado. Os republicanos usarão estes comentários, eu posso imaginar anúncios de campanha em que eles simplesmente irão citar Hillary, mostrar ela dizendo que Obama pode não estar pronto para ser presidente. Folha Online - Estes comentários podem ser uma objeção à "chapa dos sonhos", com Hillary como vice-presidente de Obama? | Alex Brandon/AP |  | Obama chega a evento com Hillary; ele precisa dos eleitores dela | Beck - Eu acho que isso será considerado. Mas eu espero que ela seja considerada na lista de vice-presidentes. Eu não estou certo se ela será escolhida no final, porque Obama precisa considerar tanto sua relação com a pessoa quanto o que ela está trazendo para a chapa. As pesquisas mostram que os eleitores de Hillary estão efetivamente voltando para ele, e se Obama sentir que a relação com Hillary não é tão boa quanto ele quer, irá em outra direção. Mas, por outro lado, se eles fizerem campanha junta e realmente criarem uma conexão, e ainda houver relutância da parte dos eleitores Hillary em votar em Obama, ele pode escolhê-la para a vice-Presidência. Folha Online - Com tanta coisa em jogo, haverá uma agenda repleta de eventos conjuntos a partir de agora? Beck - Eu não tenho certeza. Muito disso depende da relação que emergir entre os dois, quão confortável Obama se sentir em dividir o palco com ela durante sua campanha. Esta questão também surge quando se fala em Bill Clinton e na extensão até a qual Obama usará sua imagem. Eu acho que eles claramente usarão os Clinton, provavelmente mais Hillary que Bill, nas áreas e eventos de campanha que atraiam público visto como seguidores fiéis dos Clinton. Do outro lado, o que Obama precisa fazer é alcançar o outro lado do corredor e atrair apoio dos independentes e de alguns republicanos, e os Clinton não são tão atraentes para estes eleitores. Isso provavelmente o fará manter certa distância deles. MÁRCIA SOMAN MORAES colaboração para a Folha Online
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