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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

China: Governo tenta barrar formação de elites entre minorias étnicas, Jean-Philippe Béja Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
10-Jun-2008

Em meio aos esforços para manter a unidade nacional, a China tenta evitar o surgimento de elites entre as minorias étnicas. Para Jean-Philippe Béja, diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) e do CEFT (Centro Francês para a China Contemporânea), as autoridades chinesas temem a formação de uma elite local, que poderia dar início a movimentos nacionalistas.

Em entrevista à Folha Online, o francês afirmou que a estratégia usada para evitar a ascensão econômica das minorias é simples e antiga --a concentração do poder econômico nas mãos da maioria han, encorajada a migrar a diferentes regiões do país.

"É uma velha estratégia do Império Chinês", disse o especialista. "A maioria do algodão em Xinjiang [Região autônoma da minoria uigur, muçulmana] é produzida pela CCPX (responsável por cultivar e proteger as áreas de fronteira) e esses são todos han", explica Béja, usando como exemplo o território no noroeste do país, onde há movimentos separatistas.

Arte Folha Online

Para o francês, essa é uma forma de controlar a terra e a economia. "O ocorre com o petróleo em Tarin e em Xinjiang. São em sua maioria administrados pelos han. É uma forma de controlar a população."

Em abril, durante os protestos dos tibetanos em Lhasa, capital da região autônoma do Tibete, várias lojas de han foram incendiadas pelos manifestantes.

Béja explica a emergência de uma nova elite da minoria. "No começo dos anos 1990 o governo chinês percebeu que essas pessoas queriam mais autonomia e espaço para suas culturas originais", diz o pesquisador, atualmente em Hong Kong. " Então houve uma repressão em Xinjiang no início dos anos 90 e no Tibete, um pouco antes, em 89."

De acordo com o francês, as duas nacionalidades que causam problemas à China são os uigurs --minoria muçulmana-- e os tibetanos. Os uigurs, com o suposto terrorismo alegado pelas autoridades chinesas e pelas relações com países e grupos do Paquistão e do Afeganistão. "Mas o problema com o movimento uigur é a falta de uma liderança como os tibetanos têm", diz.

"Apesar de estrategicamente e militarmente não ser uma ameaça real, como há o apoio internacional em jogo, o Tibete é perigoso devido à audiência do dalai-lama," explica o francês.

No entanto, para Béja, nenhum dos dois grupos étnicos representa uma ameaça estratégica-militar à China. Leia a seguir a íntegra da entrevista dada à Folha Online:

*

Folha Online - Atualmente, tibetanos, taiwaneses, uigurs e mongóis querem ser independentes da China ou ter maior autonomia. Algum desses grupos, ou todos eles, constituem uma ameaça ao governo chinês e à unidade nacional?

Jean-Philippe Béja - É muito mais complicado. A situação em Taiwan é completamente diferente. A região está fora do controle do continente desde 1949, dominado pelo Kuomintang. É uma entidade independente "de fato", o que é bem diferente dos outros movimentos. Os mongóis já são uma minoria na região autônoma da Mongólia Interior, e não sabemos de um movimento separatista forte na área. Há pessoas baseadas na Mongólia que pedem a independência da Mongólia interior. É muito difícil dizer qual é o apoio que encontram na Mongólia Interior. De todo modo, é muito pequeno, nunca houve um movimento social na Mongólia Interior desde 1949.

As duas nacionalidades que causam problemas à China são os uigurs e os tibetanos. Se é realmente um desafio à unidade nacional? Como você sabe, há 2,5 milhões de tibetanos na região autônoma do Tibete, e como um todo são 5 milhões. Apesar de ocuparem uma grande porção do território, eles não são realmente perigosos para a unidade da China. Há movimentos periódicos em Lhasa, e o Partido Comunista os reprime. Mas, até agora, no que diz respeito à relação de forças, eles não impõem uma ameaça estratégica.

Os uigurs são um pouco diferentes. Porque, segundo as autoridades chinesas, há um terrorismo por parte dos separatistas uigurs. Como você sabe, eles são muçulmanos da Ásia Central, e há povos semelhantes na ex-União Soviética --Cazaquistão e Quirguistão-- e alguns uigurs estiveram em campos de treinamento da milícia Taleban no Afeganistão. Eles também têm relações com o Paquistão. Estrategicamente, um movimento pela independência do Turquestão, que poderia se beneficiar de apoio externo, pode ser mais perigoso para os chineses. Ao menos é o que eles (chineses) dizem e são capazes de convencer o mundo ocidental --que tem muito medo do islamismo e do fundamentalismo-- que o perigo é real.

Houve alguns ataques a bomba em Urumqi e, recentemente em Xangai e em Wenzhou, houve duas explosões sobre as quais o governo chinês não falou muito, mas algumas pessoas acham que podem estar relacionadas aos uigurs. Mas o problema com o movimento uigur é a falta de uma liderança, como a que os tibetanos têm. Os tibetanos têm o dalai-lama, que pode sair pelo mundo em busca de apoio. Por isso, o Tibete representa alguma forma de perigo. Apesar de estrategicamente e militarmente não ser uma ameaça real, como há o apoio internacional em jogo, o Tibete é perigoso devido à audiência do dalai-lama.

Já os uigurs não têm um movimento unido. Há fundamentalistas islâmicos, de quem não sabemos muito, o único do qual sabemos um pouco é do Movimento pela Independência do Turquestão Oriental, que os EUA classificam como terroristas. Mas os outros movimentos etno-nacionalistas não são fortes. Um é baseado em Istambul, na Turquia, e o outro em Munique, na Alemanha. É difícil avaliar o apoio real que eles têm em Xinjiang.

Folha Online - Então nenhum deles oferece uma ameaça séria ao governo chinês?

Béja - Não. Como eu disse, eles não impõem uma ameaça estratégica-militar. O colapso da ex-União Soviética deixa os comunistas chineses muito apreensivos com o separatismo.

Porém, Xinjiang tem uma maioria Han (principal etnia da China) agora, 50% a 50%. O Tibete também tem muitos han, especialmente nas cidades e na fronteira. Nesse sentido, é muito diferente do que era a ex-União Soviética. Na ex-URSS, há população de minorias étnicas compunha 30% a 40% da população. Na China, é apenas 6%, 94% são han.

Nesse sentido, não é uma ameaça estratégica, a questão é ser um fator de instabilidade. Como o Partido Comunista da China tem de enfrentar outras fontes de instabilidade --como a polarização da sociedade, a resistência dos camponeses contra o confisco de terras-- há algumas fontes de instabilidade social. Então os governantes chineses estão ansiosos para que as minorias étnicas não criem mais uma ameaça ou se aproveitem dos fatores de instabilidade para conseguir suas demandas.

Folha Online - Como o senhor avalia a estratégia chinesa de espalhar a maioria han por territórios como Xinjiang e Tibete?

Béja - Isso remonta, por exemplo em Xinjiang, extremo oeste da Muralha, ao imperador, que já havia enviado cidadãos camponeses, que cuidavam tanto da terra quanto das fronteiras. É uma velha estratégia do Império Chinês. O Corpo de Construção e Produção de Xinjiang (CCPX, responsável por cultivar e proteger as áreas de fronteira) é uma organização militar. A maioria do algodão em Xinjiang é produzida pela CCPX e esses são todos han. Essa é uma forma de controlar a terra e a economia. A mesma coisa com o petróleo em Tarin e em Xinjiang. São em sua maioria administrados pelos han. É uma forma de controle da população.

A China diz ainda estar modernizando a parte oeste da China. Desde 2000, (o ex-presidente) Jiang Zemin (1993-2003) lançou um movimento de desenvolvimento do oeste. Nesse contexto, a China deu início a grandes projetos de infra-estrutura para desenvolver a economia, como trens, por exemplo --o trem para Lhasa, para Kashga.

Isso facilitou a migração dos han, mas os chineses dizem que é uma forma de desenclavar essas regiões sem relações com o resto do país. A fim de desenvolver a economia, eles dizem que é preciso construir linhas de comunicação, e é o que fazem. Claro que é uma faca de dois gumes --é um movimento pela modernização, mas por outro lado permite aos han migrar a essas regiões, fazendo a população original se tornar uma minoria em sua própria terra.

Folha Online - Mas essa presença e controle dos han não pode aumentar o sentimento das minorias de serem cidadãos de segunda classe?

Béja - Sim. Eles costumavam dizer, "se fizermos a torta crescer, todos terão um pedaço, mesmo os pobres". Essa é mais ou menos a estratégia. Conforme a população das minorias tem menor acesso à educação, sua prática da língua chinesa não é tão boa quanto à dos han, se você desenvolve a economia todos tirarão vantagem disso. O que ocorre é que também desenvolve a frustração das minorias, ao verem que os chineses estão recebendo a maioria das riquezas. Aumenta a contradição entre minorias locais e os chineses han.

Houve a emergência de uma nova elite da minoria, principalmente nos anos 1980 e 1990. Em Xinjiang, pessoas que faziam negócios com a países da ex-União Soviética. O que aconteceu foi que no começo dos anos 1990 o governo chinês percebeu que essas pessoas queriam mais autonomia e espaço para suas culturas originais. Então houve uma repressão em Xinjiang no início dos anos 90 e no Tibete, um pouco antes, em 89.

Então as autoridades chinesas têm receio do desenvolvimento de uma elite local, que pode se tornar a vanguarda de movimentos nacionalistas. Por isso que o ensino de línguas de minorias foi limitado às escolas primárias, não mais no ensino fundamental, médio e na universidade.

Folha Online - Sobre a língua, como o senhor avalia a unidade lingüistica da China? A unificação lingüistica ainda é vista como um problema?

Béja - Com as reformas, houve uma abertura aos dialetos locais. Há uma diferença entre dialetos chineses e línguas das minorias, como o uigur, que não tem nada a ver com o chinês, é uma língua de origem turca. Muitas pessoas, principalmente nas áreas rurais, não falam chinês, e não têm a prática do chinês. Nas cidades, eles têm que (falar chinês). As pessoas vão à escola e tem de aprender chinês. Há resistência, mas as pessoas tem de falar chinês se quiserem ser parte da administração ou ter um bom emprego em uma empresa. O chinês está se desenvolvendo e se tornando mais popular, mesmo em áreas de minorias.

Nas áreas rurais é completamente diferente, as pessoas falam suas próprias línguas, então eles têm muito mais dificuldade em ascender socialmente. Nas áreas han, desde o início das reformas, houve um renascimento dos dialetos, por exemplo o cantonês perto de Hong Kong é cada vez mais usado, há canais de TV em cantonês. Apesar de o ensino ser apenas em mandarin, com a urbanização, as pessoas estão mais literadas em mandarin. No interior e no sul você tem o renascimento de línguas locais, então há um tipo de bilinguísmo em Províncias com forte identidade como Guangdong ou Fujian.

Folha Online - Qual é a sua opinião sobre o conceito de sociedade harmoniosa e as promessas do governo de diminuir a disparidade de renda entre áreas urbanas e rurais?

Béja - Quanto mais os líderes falam sobre harmonia, menos há. Se falam sobre harmonia é porque a sociedade não é harmoniosa. Eles estão muito preocupados com o desenvolvimento da desigualdade e polarização da sociedade. Essa é uma grande preocupação para os líderes chineses. Nesse caso, desde que a nova liderança assumiu, eles perceberam que devem fazer algo sobre essa polarização crescente. Eles têm --principalmente em seus discursos-- atendido reivindicações dos mingong, que são os trabalhadores migrantes que vão do campo às cidades e costumavam sofrer grande discriminação.

O discurso agora é que os mingong são o principal da classe trabalhadora. Ao menos simbolicamente, eles têm desfrutado uma posição melhor. Eles também tentaram melhorar suas condições ao adotar uma nova lei trabalhista em janeiro deste ano, que fornece proteção aos trabalhadores migrantes nos contratos com os empregadores. Mas ainda é uma situação difícil devido à permissão de moradia. Os trabalhadores migrantes ainda precisam uma permissão para trabalhar na cidade, e apenas uma minoria têm. E os que não têm, não têm acesso aos novos direitos concedidos aos mingong.

Agora, há ao menos três grupos na China urbana: há os trabalhadores urbanos, com documentos da cidade, há os trabalhadores migrantes mingong legais, que desfrutam de certas vantagens sociais, e no pé da escala, os mingong "underground", que não tem a documentação, e que são os mais explorados.

Quanto à parte rural, a alta dos preços dos grãos e produtos agrícolas ajude a melhorar a situação rural, mas as pessoas ainda saem do campo em grandes números, e você vê cada vez mais mulheres e pessoas velhas no campo. A lacuna está crescendo, apesar da chamada "nova política" do campo comunista, especialmente no que diz respeito à educação e à saúde, a situação no interior é muito pior que nas áreas urbanas.

 

FERNANDO SERPONE
da Folha Online

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