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O líder cubano Fidel Castro renunciou ontem à presidência do seu país, após quase cinco décadas no poder. O anúncio foi feito pelo próprio, numa mensagem divulgada pelo jornal Granma, a cinco dias do Parlamento definir a nova cúpula do Governo.
“Não aspirarei nem aceitarei - repito - não aspirarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-Em-Chefe”, afirmou o líder cubano na carta.
No entanto, nada mencionou sobre o cargo de primeiro secretário do Partido Comunista (PCC), que ocupa desde 1965.
Último líder histórico do comunismo, Fidel Castro, de 81 anos, anunciou a renúncia após quase 19 meses de convalescença de uma grave doença - de origem intestinal - que o levou a ceder o comando do país, em carácter provisório, ao irmão Raúl Castro, ministro da Defesa, de 76 anos.
Fidel anunciou a renúncia a cinco dias da sessão do Parlamento na qual deveria ser candidato à própria reeleição para um mandato presidencial de cinco anos.
Com a sua renúncia, deixa o caminho livre para Raúl ser eleito, no próximo domingo, presidente do Conselho de Estado, sem que se descarte uma eventual surpresa com uma possível eleição do vice-presidente Carlos Lage, de 56 anos, o que levaria ao poder uma nova geração.
“Felizmente o nosso processo ainda conta com quadros da velha guarda, junto de outros que eram muito jovens quando se iniciou a primeira etapa da revolução”, destacou Fidel Castro.
“Contam com a autoridade e a experiência para garantir a substituição. Dispõe, igualmente, o nosso processo, da geração intermediária que aprendeu, connosco, os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução”, acrescentou.
Em Dezembro do ano passado, o comandante cubano havia expressado, numa mensagem escrita, que não estava agarrado ao poder, nem obstruiria a passagem das novas gerações. Mas em Janeiro foi eleito deputado e ficou, tecnicamente, habilitado para uma reeleição no próximo domingo.
“Trairia (...) a minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Explico isto sem dramaticidade”, completou na carta publicada pelo Granma.
Desde Março de 2007 afastado do cenário público, sendo visto apenas em vídeos e fotos, Fidel Castro dedicava-se a escrever artigos para a imprensa sob o título de “Reflexões do Comandante-Em-Chefe”.
“Não me despeço de vocês. Desejo apenas combater como um soldado das ideias. Continuarei a escrever sob o título "Reflexões do Camarada Fidel". Será uma arma a mais no arsenal com o qual se poderá contar. Talvez a minha voz seja ouvida. Serei cuidadoso”.
Fidel advertiu os cubanos que “o caminho será sempre difícil e requererá o esforço inteligente de todos”. “Desconfio dos caminhos aparentemente fáceis da apologética, ou a auto-flagelação como antítese”.
“Preparar-se sempre para a pior das variantes. Ser tão prudentes no êxito como firmes na adversidade é um princípio que não pode ser esquecido. O adversário a derrotar é extremamente forte, mas têmo-lo mantido na raia durante meio século”, expressou.
Na mensagem, Fidel destaca que nunca deixou de lembrar que seguia uma recuperação “não isenta de riscos”.
“O meu desejo foi sempre o dever até ao último alento. É o que posso oferecer”, ressaltou.
No artigo, Fidel Castro afirmou que não regressará à Presidência do país e que o seu irmão Raúl será o novo presidente.
A nova Assembleia Nacional, eleita no fim de Janeiro, tem até 45 dias para escolher o chefe do Governo do país. Desde 1976, Fidel vinha sendo eleito e ratificado em todas as eleições, que se realizam de cinco em cinco anos.
Toda uma vida dedicada ao país
Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu no dia 13 de Agosto de 1926, no povoado cubano de Birán (província de Holguín). O pai, Ângel Castro Argiz, era um agricultor.
Fidel Castro é presidente de Cuba desde a Revolução Cubana (1958-1959), que derrubou o Governo pró-americano do general Fulgêncio Batista. Esta revolução tinha um carácter nacionalista e socialista.
Após a revolução, Fidel implantou um sistema socialista na ilha, acabando com a desigualdade social entre os cidadãos cubanos. Implantou uma economia planificada, que contou com o apoio soviético durante a Guerra Fria. Após a queda do muro de Berlim e o fim dos regimes socialistas na Europa Oriental, Cuba passou a ter dificuldades, já que não podia contar com os investimentos soviéticos. Actualmente, embora possua bons sistemas educacional e de saúde, os cubanos sofrem com as dificuldades financeiras.
Castro ocupou o cargo de primeiro-ministro da República de Cuba de 1959 até 1976. Em 2 de Dezembro de 1976 passou a ser o presidente do Conselho de Estado (chefe do Estado) presidente do Conselho de Ministros (chefe de Governo). Além de todos os cargos que acumula no Governo, é o primeiro secretário do Partido Comunista Cubano desde a sua fundação, em 1965.
O anúncio de que vai abandonar a presidência de Cuba simboliza o fim de uma era marcada por confrontos com o país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos da América.
No longo período em que esteve à frente do país, tido como o bastião do comunismo na América Latina, Fidel Castro sobreviveu a nove diferentes governos americanos e a várias tentativas de assassinato.
Para os Estados Unidos, ele vinha representando uma lembrança constante e incómoda das ideias comunistas que, apesar de praticamente abandonadas no resto do mundo, permaneceram vivas a nada menos do que 144 quilómetros de distância da sua costa.
E essas ideias foram adoptadas com uma interpretação própria, por um filho de latifundiários ricos. Ciente dos grandes contrastes entre o seu confortável quotidiano e a pobreza de muitos cubanos, Fidel tornou-se um revolucionário.
Desde o início, Fidel insistiu que a sua ideologia era, acima de tudo, cubana. “Não há comunismo nem marxismo nas nossas ideias, só democracia representativa e justiça social”, dizia.
Criticado pelos Estados Unidos pela nacionalização de empresas de americanos, foi alvo do embargo comercial que vigora até hoje.
Os Estados Unidos tentaram derrubar o Governo de Fidel em Abril de 1961, apoiando um grupo de exilados cubanos numa desastrosa invasão à praia de Girón, na baía dos Porcos.
A CIA foi acusada pelo líder cubano de tentar assassiná-lo várias vezes, inclusive com um charuto explosivo.
Entre os bons resultados domésticos de Fidel Castro está o serviço de saúde cubano, considerado um dos melhores da região, e o baixo índice de mortalidade infantil, comparável ao dos países mais desenvolvidos.
Pensamentos e frases do Comandante
O emblemático, quase lendário, dirigente cubano era (é) bastante conhecido pela sua retórica. Os seus discursos públicos, normalmente feitos de improviso, raramente duravam menos de duas horas. Algumas das suas frases constituem verdadeiras pérolas. Eis algumas delas:
- “Em vez de nos agredirem como nos agridem, porque é que não fazem simplesmente uma pergunta: como é possível que Cuba em 30 anos tenha feito o que a América Latina não fez em 200 anos?”.
- “Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana”.
- “Um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral”.
- “A história me absolverá”.
- “Viver acorrentado é viver na vergonha”.
Partido Comunista russo considera-o “político genial”
O líder do Partido Comunista russo, Guennadi Ziuganov, afirmou ontem que Fidel Castro renunciou à presidência de Cuba como um “político genial”, guiado pelos interesses do país.
“É uma decisão corajosa e estou convencido de que ao tomá-la, Fidel Castro foi guiado pelos interesses do seu país e do seu povo”, declarou Ziuganov, citado pela agência Interfax.
Segundo o líder comunista russo, candidato à presidência nas eleições de 2 de Março, Castro é “um responsável político genial que hasteou muito alto a bandeira da liberdade”.
Cuba manteve uma estreita relação com Moscovo até a dissolução da União Soviética em 1991. Desde o desaparecimento do bloco do Leste europeu Cuba é o único país comunista do hemisfério ocidental.
Entretanto, a França e Espanha reagiram ao anúncio da renúncia de Fidel Castro à presidência de Cuba com a esperança de que, a partir da agora, a ilha passe por um processo de mudanças, com mais democracia.
“A França espera que a decisão de Fidel Castro de renunciar à presidência de Cuba abra um novo caminho e que exista mais democracia neste país”, afirmou o secretário de Estado francês para os Assuntos Europeus, Jean-Pierre Jouyet.
Para o ministro francês, a era Fidel caracterizou-se pela falta de reformas. “Não entendeu (Fidel) as evoluções que surgiram sobretudo no fim dos anos 70 e início dos 80, não entendeu as evoluções que surgiram após a queda do Muro de Berlim e da União Soviética”.
O governo da Espanha, por seu turno, espera que a saída de Fidel Castro reforce a capacidade do seu irmão, Raúl Castro, de impulsionar reformas, segundo a secretária de Estado para a Ibero-América, Trinidad Jiménez.
“É o momento no qual Raúl Castro vai poder assumir com maior capacidade, solidez e confiança este projecto de reformas”, declarou Jiménez.
Raúl Castro, o provável sucessor
Aos 75 anos de idade, quase 48 deles como o número dois de Cuba, Raúl Castro assumiu, provisoriamente, plenos poderes na ilha, delegados pelo irmão Fidel, que se recupera de uma complicada operação intestinal.
Raúl Castro nasceu no dia 3 de Junho de 1931 em Birán, actual província de Holguín (Leste), e dedicou quase toda a vida, desde a escola, a apoiar o irmão Fidel.
Eventual e mais do que provável sucessor de Fidel, na percepção dos seus partidários, Raúl Castro não tem problemas quanto a ser o número um de Cuba, pois, as suas duas grandes paixões na vida são a revolução que começou em 1959 e o seu irmão Fidel.
Ministro das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), segundo secretário do Partido Comunista (PCC), primeiro vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, Raúl é o substituto designado pelo irmão, por quem professa uma ilimitada admiração e respeito.
Estudante de economia, afiliado à Juventude Comunista, uniu-se a Fidel no assalto ao Quartel Moncada, em 1953, uma tentativa frustrada de derrubar o ditador Fulgêncio Batista.
Ao lado de Fidel foi para a prisão na Ilha de Pinos (hoje Ilha da Juventude, ao Sul de Havana). Seguiu o irmão ao México para preparar a expedição do iate Granma e foi um dos primeiros rebeldes de Sierra Maestra.
Em janeiro de 1959, mês de triunfo da revolução, foi nomeado segundo comandante do Movimento a 26 de Julho. Desde então é o número dois do país.
As forças rebeldes que combateram na Sierra Maestra transformaram-se, sob o seu comando, num Exército moderno.
Raúl Castro teve muitas vezes que exercer o papel de fiscal político em problemas internos. Por isso tem uma imagem de homem duro.
Geralmente considerado mais pragmático, às vezes atribui-se a Raúl Castro uma vontade de reforma inspirada nas experiências chinesa e vietnamita, nas quais parece muito interessado em virtude das frequentes visitas a Pequim e Hanói.
Os que o conhecem de perto classificam-no de dirigente rígido e enérgico, tal como o pai dedicado de quatro filhos, com bom senso de humor, que gosta de camping e de escalar montanhas.
UE diz estar pronta para retomar laços com Cuba
A União Europeia afirmou ontem que está pronta para procurar formas de retomar os laços com Cuba, interrompidos sob a liderança de Fidel Castro, que anunciou a sua retirada do poder.
“Reiteramos o nosso desejo comprometemo-nos com Cuba sobre um diálogo construtivo”, disse um porta-voz do Comissário de Desenvolvimento da UE, Louis Michel, que disse planear visitar a ilha a 6 e 7 de Março.
O porta-voz afirmou ainda que a UE preferiu não comentar a decisão de Fidel.
À parte, uma porta-voz da Eslovénia, que ocupa a presidência rotativa da UE, disse que o bloco continua a querer “sondar possibilidades para retomar o diálogo político com Cuba”.
As relações entre a UE e Cuba romperam-se em 2003, quando Bruxelas congelou contactos diplomáticos depois de Havana prender 75 dissidentes, entre os quais muitos dos que tinham sido convidados para recepções em embaixadas europeias para comemorar o Dia Nacional.
Amnistia Internacional pede libertação de prisioneiros
A organização humanitária Amnistia Internacional pediu ontem que o sucessor de Fidel Castro liberte “incondicionalmente” os prisioneiros políticos opositores do regime cubano.
Num comunicado emitido em reacção ao anúncio de que Fidel Castro não voltará a assumir o cargo de Presidente do país, a organização atacou também medidas económicas restritivas impostas à ilha, como o embargo americano que vigora desde 1962.
“A nova liderança cubana deve aproveitar esta mudança para introduzir reformas há muito tempo necessárias para garantir a protecção dos direitos humanos”, afirmou no texto o conselheiro especial da ONG, Javier Zuñiga.
“As reformas em Cuba devem começar com a libertação incondicional de todos os prisioneiros de consciência, a revisão judicial de todas as sentenças ditadas por julgamentos ilegítimos, a abolição da pena de morte, e a introdução de medidas para assegurar o respeito às liberdades fundamentais e à independência do Judiciário.”
A Amnistia pediu que o novo Governo cubano abra o país à inspecções de órgãos de direitos humanos, tanto da ONU como independentes.
Entidades internacionais e multilaterais criticam Cuba pela situação dos presos políticos no país. Mas a Amnistia afirmou que medidas de restrição económica, como o embargo americano, “também impingem (danos) aos direitos humanos de cubanos”.
No comunicado, a ONG pede que os Estados Unidos e a comunidade internacional levantem essas medidas.
F: Jornal de Angola
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