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Para quem vê no funcionamento de Wall Street os mesmos elementos que compõem a dramaturgia de Shakespeare, as intimidações, remorsos, ameaças e conquistas não passam de naturais reviravoltas do enredo. É assim para Meredith Whitney, a analista do momento na praça norte-americana
"Muito do que se passa [nos mercados financeiros] tem menos a ver com finanças e mais a ver com a tragédia humana. O poder, excesso de confiança, o orgulho... Para perceber o que se passa no mercado, nada melhor do que o teatro de Shakespeare", considera Meredith Whitney , analista especializada em banca, actualmente na Oppenheimer.
Na sua carreira de mais de quinze anos, Meredith Whitney, de 38 anos, já por várias vezes fora reconhecida (pela Forbes ou o Wall Street Journal) como uma das melhores analistas a escolher acções. A analista tinha dado indicações de venda em acções "ameaçadas" como a Enron, Providian, CIT ou Capital One - muito antes de se confirmarem os colapsos dessas companhias. Em 2006, recomendou a compra de títulos da Goldman Sachs ao preço de 130 dólares. As acções viriam mais tarde a escalar até aos 200 dólares (actualmente, a cotação ronda os 207 dólares).
Até que, em Outubro do ano passado, uma arriscada e polémica previsão que fez desmoronar o gigante Citigroup transformou Meredith no novo oráculo de Wall Street.
"Quando Meredith Whitney fala, devemos ouvir. Porquê? Porque ela acertou "na mouche" muito antes de todos os outros. Porque ela teve a coragem de dizer o que os outros não disseram. Porque ela explicou, preto no branco, o que os bancos precisavam de fazer para aguentar a crise do mercado hipotecário - e eles primeiro gozaram-na mas depois fizeram o que ela disse", comenta Noah Rosenblatt, especialista em mercado imobiliário responsável pelo "site" UrbanDigs.com.
Numa nota redigida para sair no dia de Halloween (31 de Outubro), Meredith Whitney chocou a praça americana ao escrever sobre a exposição do Citigroup à falência do mercado do "subprime" - e a sua consequente subcapitalização, que não poderia mais ser disfarçada através do crescimento orgânico. "O Citi tem sérios problemas de capital e está numa posição precária. Não uso a palavra de ânimo leve. Ou o Citi corta no dividendo, ou começa a vender bens para salvaguardar os níveis prudenciais de capital definidos pelas autoridades de regulação. Eles precisam de pelo menos 30 mil milhões de dólares", antecipou.
O relatório fez furor. No dia seguinte, as acções do Citigroup tinham caído sete por cento, com a recomendação de venda de Meredith. Num instante, o banco perdeu 15 mil milhões de dólares do seu valor de mercado. O "Board" reuniu de emergência para responder à crise - três dias depois, o CEO Chuck Prince abandonava a direcção do Citi. E Meredith Whitney recebeu ameaças de morte diárias. Na altura, os investidores reagiram em pânico e os mercados viram evaporar-se 360 mil milhões de dólares em capitalização bolsista, acentuando-se a crise, que ainda permanece, provocada por diversas instituições financeiras. Os problemas no Citi confirmaram-se dias depois, obrigando o banco a fazer uma "injecção" de 7,5 mil milhões de dólares em dinheiro vivo proveniente do fundo soberano Abu Dhabi Investment Authority. No início deste ano, o banco arrecadou mais 12,5 mil milhões de um grupo de investidores que incluía o fundo de investimento do Governo de Singapura, a Autoridade de Investimento do Kuwait e o Príncipe Alwaleed da Arábia Saudita. Mas nem assim evitou confirmar o prognóstico de Meredith: antes do fim de Janeiro, o Citigroup anunciou um corte de 41 por cento no seu dividendo."O meu trabalho foi diligente, cuidadoso e preciso. Fui sempre justa. E além disso, não se trata de ciência de foguetões, é aritmética ao nível mais básico", justificou-se a analista. "Compreendo que nesta altura Chuck Prince não seja um dos meus maiores fãs, mas os meus relatórios obrigaram o banco a encarar a realidade. Agora tenho de trabalhar ainda mais, porque só se é tão bom quanto o nosso próximo palpite", reconheceu. Para já, aquela que é conhecida como sendo a analista mais "pessimista, e realista" do mercado no momento, voltou a causar impactos há cerca de duas semanas quando divulgou uma nota de análise onde sustentava que dois dos maiores bancos do mundo, o Merril Lynch e a UBS (União de Bancos Suíços) iriam reportar prejuízos devido a novos abatimentos de activos ("writedowns") ligados à elevada exposição ao crédito hipotecário de alto risco ("subprime").
História de uma analista
Whitney começou a trabalhar em Wall Street em 1992, como analista-júnior da Oppenheimer, uma subsidiária do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), onde foi encarregada de cobrir a Enron e outras companhias de gás e petróleo. No currículo, tinha apenas uma licenciatura - "cuma sum laude" - em História pela reputada Universidade de Brown. "Quando estava na faculdade, nem sequer sabia o que fazia um analista financeiro", admite. "Mas não é preciso nenhum MBA para fazer o meu trabalho. Aliás, um MBA nem é necessariamente uma vantagem neste campo. A curiosidade é uma vantagem. Saber encontrar e interpretar uma história é uma vantagem. E é isso que os historiadores fazem: tudo o que está a acontecer agora já vimos acontecer antes, só que com outros personagens", reparou, numa entrevista à CNN Money.
Em 2001, Meredith foi trabalhar para um "hedge fund", FrontPoint Partners, sob a supervisão de Steve Eisman, um dos gurus da análise de Wall Street. O especialista tornou-se o seu mentor - e anos depois, só tem elogios para a sua antiga discípula. "Ao contrário de muitos analistas que trabalham do lado das vendas, ela nunca teve dúvidas ou problemas em questionar a informação que é fornecida pelas empresas", comentou à Business Week.
Um ano mais tarde, a analista aceitou um novo posto no First Union National Bank, mas incompatibilidades com os novos chefes do Wachovia, assim que aquele banco tomou conta do seu concorrente, levaram-na a demitir-se. Meredith teve, então, de cumprir um acordo de não-competição que a impedia de trabalhar directamente nos mercados financeiros por um período de três anos: um pouco "por acaso", como recorda, começou a ser convidada para programas televisivos, acabando por conquistar uma posição como comentadora de economia para a cadeia televisiva Fox News.
Foi, aliás, numa dessas aparições televisivas que Meredith conheceu o marido, John "Bradshaw" Layfield, um banqueiro de investimento e autor do livro de planeamento financeiro "Have More Money Now", que se celebrizou na América primeiro como profissional de futebol e depois como lutador do circuito do World Wrestling Entertainment (WWE). Os dois participavam no programa "Bulls and Bears", em 2003, e tiveram uma enorme discussão sobre o Citigroup. "Ela perguntou-me porque é que alguém quereria agarrar-se às acções financeiras em tempos de subida das taxas de juro, e tinha razão. Mas humilhou-me na televisão nacional", lembra Layfield.
Para reparar os danos - e facilitar a gravação dos programas seguintes -, a Fox engendrou um jantar no qual os Whitney e Layfield ficaram sentados na mesma mesa. Casaram dois anos depois: o evento foi descrito em pormenor na secção de "Estilo" do jornal "The New York Times". "Quando a conheci era um campónio, mas ela conseguiu refinar-me. Agora já sei qual é o garfo que devo usar a cada altura da refeição. E já bebo a minha cerveja por um copo", descreveu o noivo a este diário.
Rita Siza, Washington
Publico.
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