|
Sem grande alarido e muitas vezes longe dos holofotes, o líder da UNITA, Isaías Samakuva, aposta na diplomacia como arma para "injectar" a mensagem do seu partido na comunidade angolana no exterior, assim como em influentes círculos da comunidade internacional. A estratégia tem surtido os seus efeitos, pois tem levado a que fora de portas se levante o debate sobre a democracia, corrupção e atropelos aos direitos humanos em Angola
Desde 2006, muito antes de os angolanos tomarem conhecimento da data da realização das eleições legislativas, o presidente da UNITA, Isáias Samakuva, tem se desdobrado em encontros no exterior do país, com particular realce para países europeus e africanos, como parte da sua estratégia de passar a mensagem do seu partido e aglutinar para a sua causa mais militantes.
O mais recente e mais ruidoso passo neste sentido foi dado em Abril deste ano, em Lisboa, onde o líder do "galo negro" manteve encontros com a comunidade angolana radicada naquele país e concedeu uma entrevista ao programa "Sociedade das Nações" da SIC, onde falou da preparação do processo eleitoral em Angola, criticou a composição da Comissão Nacional Eleitoral (CNE) e teve ainda a oportunidade de falar das propostas do seu partido para a nação angolana.
As "bocas" de Samakuva, repetidas diversas vezes na SIC Internacional, tiveram um forte impacto em Angola, já que a audiência deste canal no país é grande (segundo dados fornecidos pela Multichoice, operadora dos canais por satélite, mais de 80.000 pessoas pagam pelos canais fornecidos, 70% dos quais opta pelo pacote em português, entre os quais se inclui o a SIC), isto sem contar com os que apanham uma "boleia" do vizinho. As reacções não se fizeram esperar. Foram publicados na única agência noticiosa do país e no Jornal de Angola textos que desvalorizavam completamente as declarações do líder da UNITA, cujo discurso foi amplamente comentado.
Para além deste efeito, o facto do líder partidário ter driblado o bloqueio silencioso que sofre no único canal televisivo teve o grande mérito de ter levantado em Portugal o debate sobre a situação em Angola, assunto que até aí, pelo menos nos espaços televisivos, tinha uma expressão quase nula.
Na verdade, esta entrevista é apenas a ponta do iceberg da estratégia do actual líder do partido dos "maninhos" para conquistar apoio entre a comunidade angolana residente no estrangeiro e da comunidade internacional, principalmente no círculo europeu. Para entendermos melhor como tudo começou precisamos recuar ao ano de 2006, altura em que Samakuva se deslocou ao Vaticano, onde chegou a ser recebido pelo Papa Joseph Ratzinger. Um ano depois, em Setembro, o diplomata de carreira pela UNITA usou a sua experiência e deslocou-se a Alemanha por altura de uma reunião do G-8 (que reúne os sete países do mundo mais a Rússia). Acabou por chefiar uma delegação de três líderes partidários que mantiveram um encontro com a Chanceler Alemã, Ângela Merkel, outra das oportunidades que teve para dar a sua visão da situação no seu país de origem.
No mesmo ano percorreu vários países africanos como o Mali, África do Sul e Uganda, buscando apoios dentre políticos, sem grande alarido a volta das suas actividades. Nas suas deslocações, Samakuva procurou sempre manter encontros com a comunidade angolana, momentos que aproveitou para apresentar o projecto da UNITA e chamar atenção para os problemas do país.
Estas digressões surtiram o seu efeito, já que associada a constatações feitas pelos angolanos residentes no exterior levou a que a comunidade angolana em países como o Canadá, França e África do Sul fizesse manifestações em locais públicos manifestando repúdio, principalmente, pelo que consideraram na altura de "atropelos á democracia". A organização destes protestos chegou a ser atribuída ao "galo negro", principalmente em França, onde contou com o envolvimento de um familiar de Samakuva, tese que a UNITA negou.
Ainda este ano, em Maio, o presidente do maior partido da oposição no país rumou para a Namíbia onde presidiu a conferência dos Partidos Africanos para a Democracia e Desenvolvimento (ver texto ao lado), onde assumiu grande protagonismo e, mais uma vez, colocou o assunto Angola na pauta de discussão.
As movimentações de Samakuva têm passado despercebidas e, inclusive, têm sido minimizadas pelos seus adversários, mas são acções como estas que permitem aumentar no exterior o leque de informação sobre Angola e, mais importante ainda, faz com que passe a versão dos factos de quem as torna públicas.
As repercussões do esforço diplomático
Ena senda deste debate que surgem figuras como Bob Geldof, que recentemente teceu duras críticas ao governo angolano, tendo rotulado os seus integrantes de "criminosos". Este pronunciamento teve um grande impacto em Angola e nas pessoas visadas. Quem apontou o dedo acusador não é qualquer um. Geldof atingiu a fama na década de 70 através de rock Boomtown Rats. Foi o impulsionador do concerto de caridade “Live Aid”, que angariou fundos consideráveis para África, uma iniciativa na qual se empenhou com afinco. Fruto do seu desempenho foi nomeado para o Prémio Nobel da paz e recebeu o título honorário de cavaleiro, atribuído pela Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, não tendo o título de Sir por ser exclusivo dos britânicos.
Na mesma semana, mais uma vez através da SIC, no programa "Eixo do Mal", quatro comentaristas reforçaram as críticas de Bob Geldof e apelidaram a família de MPLA de "gangsters", tendo lançado críticas contundentes ao Presidente angolano e a sua família, especialmente a Isabel dos Santos, que tem interesses financeiros em Portugal. Jornal Angolense Suzana Mendes
|