| Eduardo Galeano: "O mundo foi povoado por africanos emigrados" |
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| Escrito por : Cfr. no fim da pág | |
| 18-Jun-2008 | |
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No seu novo livro "Espelhos: uma história quase universal", o escritor Eduardo Galeano conta 600 histórias curtas, "que recolhem uma experiência de toda a vida, muitas leituras e muitas perguntas". Relatos que falam dos esquecidos pela história oficial, uma história, diz Galeano, que sacrificou e mutilou o arco-íris terrestre. Relatos de um mundo que está a enlouquecer. Aos 63 anos, Eduardo Galeano dedica-se diariamente a tentar resolver o maior desafio da linguagem, sabendo que isso é "impossível": utilizar nos seus textos apenas palavras que sejam melhores do que o silêncio. Foi com esse desejo de depuração do idioma que o escritor uruguaio escreveu o seu livro mais recente, "Espelhos: uma história quase universal", no qual, por meio de 600 histórias breves, oferece um panorama inquietante sobre o devir do mundo e da história da humanidade. Em entrevista a La Jornada, Galeano levanta a voz frente ao "sistema mundial de dominação que está a levar todos nós para o matadouro ou para o hospício". E critica a obstinação do ser humano em "mutilar" o arco-íris terrestre com "o racismo, o machismo, o elitismo e o militarismo". Dá a impressão que com este livro esvaziou-se, que colocou nele o conhecimento, as leituras e as aprendizagens acumuladas ao longo da sua vida. Acho que sim. A ideia era reunir num único livro estas 600 histórias ou relatos, que viajam pelo mundo e pelo tempo, sem limites, sem fronteiras. E eles vão e vêm pelo mapa do mundo e do tempo. E é verdade que recolhem uma experiência de toda a vida, muitas leituras e muitas perguntas. Sobretudo recolhe as perguntas que me tenho feito ao longo da minha própria vida. Desde que eu era pequenino e ia para a escola e a professora me dizia que o basco Núñez de Balboa foi o primeiro homem que viu os dois oceanos, do alto de um monte do Panamá. E eu levantava a mão e dizia: ‘Senhorita, senhorita, então os que viviam lá eram cegos'. E ela me expulsava da aula por ser atrevido. E as perguntas que depois me fui fazendo, foram ficando à espera de respostas que fossem, por sua vez, novas perguntas. Por exemplo, esta outra, que abre o livro, quando pergunto se Adão e Eva eram negros, porque se a viagem humana começou na África, de lá partiram os nossos avós para a conquista do planeta e foi o Sol que distribuiu todas as cores, porque somos todos africanos e somos todos emigrados. É bom lembrar agora que todos somos africanos emigrados, diante de tanta demonização que se faz da emigração, como se fosse um crime. Mas sim, também é um livro de perguntas incómodas. Eu sempre digo que uma boa resposta é uma fonte de novas perguntas, ou seja que o livro está escrito por um 'perguntão', por um curioso que quer despertar a curiosidade de quem ler. Essas 600 histórias, contadas assim, de maneira aparentemente desconexa, são porque também pretendia chamar a atenção para a anarquia que há no mundo e na história da própria humanidade? Sim, mas que estão atadas por fios invisíveis, que fazem com que essa aparente desconexão não seja mais do que uma expressão da diversidade da vida humana, da história e da presença dominante, nessa diversidade, dos esquecidos pela história oficial. Que é uma história que sacrificou, que mutilou o arco-íris terrestre. Sempre digo que o arco-íris terrestre tem mais cores do que o celeste. É muito mais belo, mais fulgurante, mas tem sido mutilado pelo racismo, pelo machismo, o elitismo, o militarismo... Não somos capazes de nos vermos a nós mesmos em toda a nossa plenitude assombrosa, em toda a nossa prodigiosa capacidade de beleza. O livro rende homenagem à diversidade humana e à diversidade da natureza, da qual também fazemos parte. Na aparência pode parecer desconexo, mas quando a gente entra para lê-lo está armado de tal maneira que há muitíssimo trabalho por trás. É como um rio que às vezes corre por baixo da terra, outras por cima, mas que nunca deixa de correr. É um único fluxo de um rio, de muitos rios. Como uma sinfonia. A literatura e a música são muito parecidas. Por isso é bom ler em voz alta. Quando escrevemos, quando terminamos um texto, lemos em voz alta, porque essa leitura nos dá a música das palavras. E a música manda. Tem de haver uma continuidade da música. Depois de tantos livros e, principalmente, aprendizagens, acha que chegou ao máximo de depuração da sua própria linguagem literária? Acho que sim. A linguagem que eu utilizo, não quero que apareça, mas cada um destes relatos teve 15 ou 20 tentativas. Como dizia um escritor chileno quando reeditava os seus contos: edição corrigida e diminuída. Eu também vou diminuindo; é um trabalho de tirar a gordura, para que só fique a carne e o osso daquilo que se quer contar. É um trabalho de despir e purificar a linguagem. Uma linguagem pouco frequente nas letras latino-americanas, que às vezes tendem a exagerar na verborreia, não acha? Pode ser, mas eu não acho que a literatura latino-americana deva ser isto ou aquilo, porque o melhor desta nossa região é que ela é tão diversa. Ou seja, que contém todas as cores, os cheiros, os sabores do mundo. Se o melhor que o mundo tem está na quantidade de mundos que o mundo contém, poucas regiões do mundo contêm tantos mundos como a nossa. E, portanto, há uma diversidade de linguagens e essa é a nossa riqueza. Eu escrevo da minha maneira, o que sinto e como sai, mas há muitas outras formas de escrever. Toda linguagem é legítima, na medida em que as palavras nasçam da necessidade de dizer. Mas há influências, gerações literárias. Sim, eu escrevo do meu jeito, que por sua vez é um jeito muito influenciado pelo meu mestre Juan Rulfo. Numa entrevista, já faz algum tempo, pediram que escolhesse os escritores mais importantes na minha formação literária. Eu respondi: Juan Rulfo, Juan Rulfo e Juan Rulfo. Na sua busca por novas linguagens, suponho que também está à par da evolução do nosso idioma na sociedade actual. Sim, é um aprendizagem quotidiana. Recebo muitas vozes da rua, que são as que mais me alimentam. E é um trabalho de recriação das vozes que a gente recebe. Quando Rulfo me dizia que se escreve mais com a borracha do que com o lápis, isso é verdade, mas não toda. Porque também é preciso ver quais são as palavras. Outro de meus mestres, Juan Carlos Onetti, com quem compartilhei poucas palavras e muitos silêncios, sempre dizia que havia um provérbio chinês que dizia que as únicas palavras que merecem existir são as palavras melhores que o silêncio. É uma ideia muito linda, porque o silêncio é uma linguagem muito funda e profunda; então, é muito difícil que as palavras sejam melhores que o silêncio. Na verdade, isso é impossível, mas a gente tem que tentar esses impossíveis. É o maior desafio da linguagem. Justamente. Seu livro "Espelhos" tem muitos silêncios e muita calma na sua leitura. O livro pede lentidão, como o amor. E silêncio, para que as palavras tenham sonoridade realmente. Também assume a literatura como esse saltimbanco que vai de vilarejo em vilarejo contando histórias, declamando, lendo em voz alta essas histórias? Sim, mas se são só conhecimentos, ou seja, mensagens da razão, terão curto percurso. Precisam ser histórias sentipensantes, para que cheguem a quem as lê; elas têm que vir da razão e do coração. Têm de unir o que foi desvinculado pela cultura do desvínculo, que é a cultura dominante. Que, entre outras coisas, desvinculou a razão da emoção, assim como desvinculou o passado do presente. Por isso, no livro misturo muitíssimo o passado e o presente; o extermínio do Iraque pelas mãos de um senhor que acredita que a escrita foi inventada no Texas e, ao mesmo tempo, o nascimento do primeiro poema de amor da história humana, que é um poema escrito no Iraque, quando ainda não tinha esse nome, em língua suméria e em tabuletas de barro. Uma dessas linhas invisíveis que dão sentido às 600 histórias de "Espelhos" é a vocação do homem pela guerra, por essa tendência de destruir a si mesmo? Acho que aqueles que acreditaram que a contradição é o motor da vida humana não erraram. Somos uma contradição incessante. E isso ajuda a sobreviver num mundo difícil; a certeza de que não existe horror que não implique alguma maravilha. A certeza de que somos metade lixo e metade beleza. Então, o livro alimenta-se dessa contradição incessantemente. Não só do horror, mas também do amor. Com especial foco nas guerras, não acha? Sim, porque a guerra é parte do horror. Não penso que a guerra seja um destino humano, mas é verdade que continua a ser uma realidade do nosso tempo. A cada minuto morrem de fome ou de doença curável 10 crianças no mundo. A cada minuto! E a cada minuto os Estados Unidos gastam meio milhão de dólares matando inocentes no Iraque! Também o machismo é uma constante da história da humanidade... Sim, por isso menciono o paradoxo das vidas de Santa Teresa e de Joana Inés de la Cruz. As duas perseguidas pela Inquisição, pelos sectores mais dogmáticos e ferozes da Igreja católica e as suas verdades únicas. Suspeitas por serem mulheres inteligentes, criativas, por terem tanto ou mais talento que os homens. E, portanto, culpadas do imperdoável delito de serem elas mesmas. O caso de Santa Teresa é o mais trágico. Penso que um braço de Santa Teresa acompanha Francisco Franco na sua longuíssima agonia, porque foi esquartejada e mandaram os pedaços para todas partes; e o braço incorruptível - como é chamado -, na mesinha de cabeceira de Franco. É uma piada de mau gosto da história. Ela, que tinha sido vítima dos equivalentes de Franco do seu tempo. Como Eduardo Galeano vê o que ocorreu recentemente na África do Sul, que desconcertou o mundo: a explosão xenófoba no país que sofreu durante tantas décadas com o apartheid? Acho que há um sistema mundial de dominação que está a transformar o mundo num matadouro, e também num manicómio. Está enlouquecendo a todos nós e a prova de que isto está se transformando numa loucura total é que esse sistema de dominação mundial conseguiu que os negros se matem entre si, como está a ocorrer na África do Sul, ou que os iraquianos se matem entre si, como ocorre no Iraque, ou que os palestinos se matem entre si. Enlouquecem-nos. Já não sabemos quem é quem, nem por quê, nem para quê. Agora o mundo entrou num período de crise muito perigoso e isto vai gerar explosões de racismo por todas partes. O imigrante, o que vem de fora, principalmente se for de pele escura, será o bode expiatório do desemprego. Dá a impressão que o mundo não pensa nem guarda silêncio para analisar isto desse jeito, como podemos fazer com seu livro, por exemplo... Sim, porque vivemos numa vertigem incessante. Somos presos. Instrumentos dos nossos instrumentos. Máquinas das nossas máquinas. E a vertigem da vida urbana impede que disponhamos do tempo necessário para recuperar a memória perdida e para lembrar das coisas mais óbvias: que ninguém pediu passaporte para Colombo, que ninguém exigiu contrato de trabalho para Hernán Cortés, que ninguém exigiu certificado de boa conduta para Francisco Pizarro -que, por outro lado, ele não teria obtido, porque era um fulano com péssimos antecedentes. Como dizia no começo, somos todos africanos emigrados. São coisas elementares que esquecemos completamente e que devemos recuperar para fazer perguntas como as seguintes: este mundo é um destino? Será que ele não está grávido de outro? No livro também reflecte sobre a conquista, depois de cinco séculos. Como vê a situação dos povos indígenas? Acho admirável a capacidade que tiveram os indígenas das Américas de perpetuar uma memória que foi queimada, castigada, enforcada, desprezada durante cinco séculos. E a humanidade inteira tem de estar muito agradecida a eles, porque graças a essa obstinada memória sabemos que a terra pode ser sagrada, que somos parte da natureza, que a natureza não termina em nós. Que há possibilidades de organizar a vida colectiva, formas comunitárias que não estão baseadas no dinheiro. Que competir com o próximo não é inevitável e que o próximo pode ser algo muito mais do que um competidor. Todas estas coisas que foram herdadas das culturas originais e que tiveram uma persistência admirável, porque sobreviveram a tudo, e que agora se manifestam. Por exemplo, a nova Constituição do Equador, que tem nome indígena, pela primeira vez na história da humanidade consagra a natureza como sujeito de direito. Nunca ninguém tinha pensado nisso. No Equador, apesar de ser um país muito infectado pelo racismo, como o México e todos na América Latina, conseguiu perpetuar-se uma memória subterrânea que torna possível esta recuperação de verdades pronunciadas por vozes do passado mais remoto, mas que falam para o futuro. E o fato de que agora estejamos em plena "comemoração" do bicentenário das independências, o que acha disso? As independências foram, em geral, as certidões de nascimento das nações, mentira nestas que vivemos. Porque todas as constituições das nossas repúblicas independentes negaram os direitos para aqueles que derramaram o seu sangue para conseguir essas independências. Foram emboscadas feitas contra os filhos mais pobres das Américas. Isso foi unânime e sempre foi assim. Foram repúblicas nascidas para a negação de direitos, para a maldição e para o desprezo da maioria dos seus habitantes, muitos dos quais passaram a ter uma vida pior da que tinham sob a dominação colonial. Ou, em todo caso, limitaram-se a trocar de senhores. Como dizia uma pintura anónima numa parede de Quito, quando foi promulgada a independência do Equador: ‘Último dia do despotismo e primeiro da mesma coisa'. Tradução: Naila Freitas/Verso Tradutores para a Agência Carta Maior . Adaptação para Portugal de Luis Leiria Marque como favorito Bookmark
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