|
O sucesso das eleições legislativas de Setembro em Angola é importante para dar o exemplo em África, afirmam especialistas britânicos reunidos em Londres, acreditando que a vitória do MPLA, partido do Governo, na votação é um dado adquirido. "A realização de eleições livres e justas em Angola é importante para o país, mas ainda mais para África, tendo em conta o que observámos este ano no Quénia e no Zimbabué", nota Alex Vines, responsável pelo departamento África do instituto de estudos britânicos Chatham House.
O escrutínio é um passo essencial no "processo de normalização do país pós-conflito desde que a guerra terminou, em 2002", defendeu Vines, em declarações à agência Lusa. As eleições, acrescentou, vão "ajudar à reconstrução do país e a desenvolver mais responsabilidade local", a reforçar nas "eleições presidenciais no próximo ano e nas eleições locais no ano seguinte". Estas foram algumas das conclusões retiradas de uma conferência à porta fechada de especialistas em política angolana organizada pela britânico Chatham House na sexta-feira, a menos de dois meses do primeiro escrutínio popular em Angola desde 1992. A ex-representante do secretário-geral da ONU para Angola (1992-93), Margaret Anstee, o embaixador britânico em Luanda, Pat Phillips, e vários académicos europeus foram alguns dos intervenientes convidados, entre os quais predomina a noção de que o partido do Governo vai continuar no poder. "Ninguém tem dúvidas sobre os resultados das eleições em Angola, ou seja, que o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) vai conseguir um bom desempenho", diz Vines. Uma nota dissonante do resto do país, especifica, poderá ser registada "nas áreas urbanas, em especial em Luanda", onde existe " maior frustração" e "historicamente [o sentido de voto] tem sido diferente do resto do país". Esta questão será importante na determinação da dimensão da maioria, que, foi sugerido durante o encontro, poderá chegar aos 60 por cento. É também de esperar "violência localizada, mas será contida". A preocupação mais séria manifestada pelos especialistas presentes no encontro teve a ver com a separação entre o Governo e o seu partido e a possibilidade de essa relação interferir no processo eleitoral. "Vimos fotografias e informação de como a lei restringe a campanha para as eleições nos 31 dias anteriores à data, mas o MPLA realizou grandes festivais populares e concertos de música gratuitos, o que é fazer indirectamente fazer campanha [eleitoral]", relatou Vines. "Houve também", acrescentou, "alguma discussão sobre a eficácia da Comissão Nacional de Eleições e da comissão independente de monitorização, criada para observar as eleições, e para o eventual conflito de interesses tendo em conta que é presidida pelo vice-presidente do Supremo Tribunal, que é de certa forma nomeado pelo Governo". O igual acesso dos partidos da oposição, nomeadamente da UNITA, à comunicação social é também motivo de apreensão. ^ Como aspectos positivos, foram salientados o "recenseamento recorde" e a integração nas listas do MPLA de 40 por cento de mulheres. A relevância de Angola na África subsaariana, onde é actualmente o maior produtor de petróleo, torna mais importante o "envolvimento da comunidade internacional" nas eleições, afirma Alex Vines, que tem uma extensa obra publicada sobre o país. "Angola não tem recebido tanta atenção como merece", reconheceu. O evento na Chatham House serviu também para o lançamento de uma edição especial sobre Angola da revista francesa "Politique Africaine", na qual são aprofundades temas políticos e económicos do país menos abordados na conferência da Chatam House. BM Lusa/fim
|