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Com uma votação tranquila e pacífica após uma campanha eleitoral irrepreensível, Angola terá assim lançado a primeira pedra da sua anunciada determinação para contrariar a tendência antidemocrática dos processos eleitorais em África, sobretudo depois do fenómeno Quénia-Zimbabwe. Para muitos, salvar a honra nacional manchada pela tragédia pós-eleitoral de 1992 e a imagem continental mutilada por escrutínios mal sucedidos impôs-se como o desafio incontornável neste novo escrutínio de 5 de Setembro de 2008 em Angola, o segundo na história do país após a independência em 1975.
De um universo de quase 16 milhões de habitantes, foram chamados às urnas cerca de oito milhões e 300 mil eleitores para escolherem os 220 representantes do povo no Parlamento, pondo assim termo a 16 anos de letargia democrática.
E isto, depois de os políticos exercitarem a sua caça ao voto de forma civilizada, tendo a campanha passado quase despercebida nalguns momentos em que um aparente défice de entusiasmo popular parecia confundir-se com a indiferença.
Salvo pequenos "acidentes de percurso" ocorridos isoladamente em algumas partes do país, esteve patente, ao longo dos 30 dias de campanha, uma certa convergência das várias forças políticas em liça para a necessidade de se incutir nos seus militantes o espírito de tolerância e do respeito pela diferença.
Como resultado, assistiu-se a uma campanha eleitoral completamente diferente da de 1992, sem discursos incendiários nem incitações ao ódio e à vingança. De resto, foi como que a confirmar que, na generalidade das formações políticas, foi bem acolhido o convite formulado nesse sentido pelo Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, na véspera do início da campanha.
Na altura, o chefe de Estado angolano exortou os seus concidadãos a tudo fazerem para dar um exemplo a África e ao mundo em geral "sobre a forma de realizar eleições democráticas, livres e transparentes" e frustrar as previsões pessimistas de insegurança e desestabilização ante ou pós- eleitorais.
Numa mensagem conciliadora que dirigiu à nação, Dos Santos declarou-se contra todas as formas de violência, intimidação, insulto, violação de direitos e desestabilização política, lembrando que, nesta competição, "não há inimigos, há somente adversários com programas e propostas políticas diferentes".
"Não há razões para alimentarmos qualquer pensamento pessimista ou derrotista. Somos um povo pacífico e amante da liberdade", disse, manifestando a sua convicção de que "Angola vai vencer" se os partidos políticos respeitarem as normas legais em vigor na sua actividade eleitoral.
Com efeito, para confirmar essa determinação triunfal, a bola está agora, como sempre esteve, na baliza dos políticos que, depois do descalabro pós-eleitoral de Setembro de 1992, estão desta vez condenados a não falhar, honrando as suas promessas de respeitar, em vez de trair, a vontade popular expressa nas urnas.
Isto porque a população angolana já não tem mais nada a provar ao mundo sobre o civismo da sua conduta, depois do seu comportamento exemplar demonstrado nas eleições de 1992, amplamente aplaudido no exterior, e agora confirmado durante a campanha e o novo acto eleitoral propriamente dito.
Na verdade, as hipóteses de alguma semelhança com 1992 ou com o Quénia e com o Zimbabwe afiguram-se muito precárias, porque as premissas históricas da realidade angolana actual em nada se assimilam a estes três cenários.
Os Angolanos conhecem perfeitamente a factura a pagar pela irresponsabilidade de reivindicar direitos políticos por métodos violentos, e não parecem dispostos a consentir novos sacrifícios em aventuras militares, além de que o cenário que favoreceu o recurso à guerra após as eleições de 1992 deixou de existir.
Em 1992, Angola partiu para as eleições despida das suas forças armadas que acabavam de ser quase completamente desmobilizadas em virtude do Acordo de Paz de Bicesse, de Maio de 1991, para a formação de um Exército nacional único e novo que integrasse também efectivos do então movimento rebelde, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).
Este vazio desinibidor acabou por "encorajar" esta última a ensaiar uma agenda estranha ao processo depois de se furtar à sua obrigação de se transformar num verdadeiro partido político e fintar as Nações Unidas, que supervisonavam o seu desarmamento, até chegar às eleições com o seu arsenal bélico quase intacto.
Daí até impor um novo ciclo de confrontações armadas foi apenas um passo, o que obrigou as autoridades governamentais então instaladas a reabilitar de forma extraordinária as unidades militares antes desmanteladas e a armar parte da população civil para ajudar a fazer face a esta nova realidade.
Porém, desta vez, as eleições foram disputadas por partidos políticos e coligações de partidos completamente desarmados, incluindo a própria UNITA, e numa altura em que as forças armadas nacionais, já recompostas e consolidadas, garantem ter o controlo total da situação em toda a extensão do país.
Por outro lado, o Governo aplicou um programa de desarmamento da população civil antes das eleições, com vista a criar as condições para a realização do escrutínio de forma pacífica e ordeira.
Aliás, as duas principais formações políticas concorrentes, o MPLA e a UNITA, comprometeram-se publicamente a aceitar os resultados eleitorais e prometeram nunca mais permitir o retorno à guerra que, nas últimas três décadas, provocou ao país danos materiais e humanos incalculáveis.
Esta é, sem dúvida, a conduta que agora o povo espera dos políticos na ânsia de se afastar definitivamente da moda das crises eleitorais ou pós-eleitorais e constituir-se assim numa verdadeira excepção à regra.
Panapress/Por Fred Cawanda, Jornalista da PANA
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