|
As tropas angolanas estão em melhores condições de garantir a manutenção da paz no Leste da República Democrática do Congo (RDC) do que o efectivo asiático que integra o contingente das Nações Unidas. Esta constatação foi feita ao Jornal de Angola, pelo docente universitário e analista para os assuntos internacionais, Sebastião Isata, quando comentava o desejo manifestado por parlamentares da RDC em ver as tropas angolanas integradas nas forças de manutenção da paz da ONU naquele país dos Grandes Lagos.
Segundo o analista, o Exército angolano conhece melhor o quotidiano do povo congolês do que soldados indianos e paquistaneses, que, actualmente, constituem a maioria dentro das tropas de manutenção da paz das Nações Unidas no Leste da República Democrática do Congo (RDC). “As populações fronteiriças conhecem-se muito bem e, inclusive, falam a mesma língua”, sublinhou Sebastião Isata.
Para além disso, o docente universitário acrescentou que, sem qualquer desprimor para a capacidade do efectivo asiático presente em terras de Joseph Kabila, as Forças Armadas Angolanas (FAA) têm uma maior experiência bélica, fruto dos cerca de 30 anos de conflito interno. “Durante este tempo, ganhámos muita experiência”, disse.
Sebastião Isata lembrou ainda o facto de Angola ja ter jogado papel preponderante na manutenção da paz em países da região dos Grandes Lagos (região que compreende igualmente a RDC) e na zona austral do continente africano.
Em declarações à imprensa à saída de uma audiência com o presidente da Assembleia Nacional de Angola, à margem da 31ª- Conferência da União Parlamentar Africana /UPA), decorrida sábado e domingo últimos na capital ugandesa (Kampala), o chefe da delegação congolesa, Modeste Bahati Lukwrbo disse que as actuais tropas de manutenção de paz da ONU no Leste da RDC, constituídas maioritariamente por soldados indianos e paquistaneses, não se entendem e nem têm sido capazes de travar a deterioração do clima de insegurança na região.
Segundo Modeste Lukwrbo, os desentendimentos existentes no terreno entre as forças do Paquistão e da Índia, países cujas relações políticas têm um histórico de conflito, ajudam a agravar ainda mais o clima de instabilidade no Leste da RDC. Para Sebastião Isata, este quadro pode ser alterado com a entrada em cena das tropas angolanas, que conhecem melhor a realidade congolesa.
O analista considerou, por isso, compreensível o desejo manifestado pelas autoridades congolesas. Por sua vez, acrescentou, a entrada das FAA no Leste da RDC seria, do ponto de vista político, uma mais-valia para Angola, pois o seu nome seria enaltecido.
“Angola é membro de pleno direito da Organização das Nações Unidas. De acordo com a carta dessa organização, todos os Estados membros ao aderirem à mesma devem mostrar-se disponíveis a fazerem parte dos processos para a manutenção da paz (no mundo)”, lembrou o docente, ao apontar as justificações que as autoridades angolanas podem evocar para enviar as suas tropas no Leste da RDC.
Ao defender a integração de tropas angolanas no contingente de capacetes azuis, Sebastião Isata considerou que Angola não pode ficar indiferente à actual situação humanitária “extremamente preocupante” no Leste da RDC, que já provocou cerca de um milhão e 600 mil refugiados e um surto de cólera.
Causas do conflito
As origens do conflito no Leste da RDC remontam à guerra de 1998 a 2002, quando foram recrutados pelo Governo de Kinshasa, para combater os banyamulenges, grupo da etnia tutsi que se envolveu nesses confrontos através do Ruanda, um dos seis países que intervieram no conflito.
O general Laurent Nkunda, ele mesmo um banyamulenge, lidera cerca de quatro mil soldados, na sua maioria membros dessa etnia, e afirma que luta para evitar que a sua comunidade seja massacrada pelas tribos rivais e pelas milícias hutus ruandesas, responsáveis pelo genocídio de 1994 no Ruanda. Essas milícias refugiaram-se no Leste do então Zaire, quando um regime tutsi tomou o controle em Kigali, a capital do Ruanda.
Nkunda, no entanto, parece ter ampliado os seus objetivos e declarou recentemente que o seu objetivo é “libertar o povo congolês”. Ele exige como condição para deter a rebelião que o presidente da RDC, Joseph Kabila, fale directamente com ele, ao que o regime de Kinshasa se nega categoricamente.
A ONU comprometeu-se a defender Goma (capital do Kivu Norte), mas a sua capacidade de resposta perante um eventual ataque frontal dos rebeldes foi limitada pela obrigação de zelar pela segurança dos milhares de civis que se refugiaram na cidade após abandonar as suas comunidades.
Dos cerca de seis milhões de habitantes da província de Kivu Norte, calcula-se que mais de um milhão sejam deslocados que tiveram que deixar as suas casas numa situação de desespero, agravada nas últimas semanas pelos choques entre os rebeldes do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP, de Laurent Kunda) e os soldados governamentais.
Os confrontos paralisaram praticamente todas as entregas de alimentos, remédios e outros elementos essenciais para a sobrevivência das povoações.
Fonte:Jornal de Angola
|