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O poder não se quer, e quando se quer alguma coisa está errada. São lições que quando se aprendem aos 15 anos não se esquecem.
No fim da semana passada morreram Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana.
Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana (com Mário Pinto de Andrade) foram, nos meus 15 anos, referências incontornáveis: ambos exemplo de serenidade no meio de aliás compreensível tempestade; de resistência ao poder; ao que é vão, ao que é imediato, em nome de... Valores. Foram fundadores do movimento Revolta Activa, lutaram pela democratização do regime no pós-independência e reclamaram a independência dos blocos então em confronto em Angola.
Tiveram como prémio imediato o sofrimento, a prisão e a acusação daqueles que sempre são incapazes de reconhecer o que é verdadeiramente grande.
Há acontecimentos que só é possível compreender com conhecimento e distância e a história da vida desses Homens e da Angola que respeitaram far-se-á.
Mas o que os fazia diferentes? O que os levou a resistir para lá de tudo o que é conveniência, conforto, facilidade, no fundo, as coisas que no mundo ocidental são, só por si, objectivos e que ambos poderiam ter tido na medida em que apenas o tivessem consentido?
O que os fazia tão diferentes? Tinham sonhos – de que não desistiram –, valores e força imensa, mas também exigência para com eles próprios.
Amei com a força dos 15 anos o que significavam. Chorei com a revolta dos 15 anos o exílio.
Ambos me deram uma lição de vida, provavelmente antes do tempo: ambos foram exemplo integral do ser para além do estar. Representam o que de mais nobre e desinteressado se pode ser.
Percebi em ambos a relação entre o poder e a realidade e por que razão o poder contra a realidade resulta em desgraça. Talvez ambos percebessem demasiadamente bem a natureza humana para quererem o poder. O poder não se quer, e quando se quer alguma coisa está errada. São lições que quando se aprendem aos 15 anos não se esquecem.
Ambos morreram no mesmo dia, de ‘doença prolongada’, um em Luanda e o outro em Lisboa: se ao menos pudermos ler nesses factos, no nosso imaginário, um sinal...
A presença do presidente da República de Angola no velório de Joaquim Pinto de Andrade e a mensagem que deixou no livro das condolências foram fortíssimos e importantes sinais: Joaquim Pinto de Andrade, também na morte, serve Angola.
Gentil Viana, em Lisboa, voltou à Casa de Angola. Onde quase tudo começou...
F: Correio da Manha - Paula Teixeira da Cruz
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