Dito isto, vale a pena fazer uma reflexão sobre o caminho que trouxe a Europa até este beco sem saída. Tenho para mim muito claro que um dos grandes mitos das nossas sociedades democráticas modernas é a ideia de que «mais democracia» e sobretudo «democracia mais directa» são sinónimos de «melhor democracia». Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os founding fathers americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes europeus de hoje, sabiam para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, processo de construção europeia que resista.
Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias.
Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no problem solving concreto. E como coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes europeus de hoje, o mais provável é que os vejamos entretidos por mais uns tempos a tentar interpretar o que, «no fundo no fundo», queriam os irlandeses realmente dizer. E como ninguém se vai entender sobre o assunto, o mais certo é voltarem a perguntar-lhes até os pobres coitados acertarem na resposta conveniente.
2 - Outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia de que a democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias. E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?
Visão: Pedro Norton