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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Teta Lando um toque de alma coração e voz, por José Luís Mendonça Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
29-Jul-2008
Teta Lando é daqueles homens cuja biografia é a própria obra. Por isso, não se torna necessário privar com ele. Basta inclinarmos o ouvido para “Um assobio meu”, basta apreciar uma kalumba a bailar “Tata Nketu” ou deixarmo-nos sentar à sombra dessa mulemba chamada “Reunir”, enquanto Avó Marica nos trança a carapinha dura, depois do funje de domingo, para senti-lo perto, entrar em comunicação directa com aquele que é um dos maiores astros da música angolana, no panteão onde já pontificam Liceu Vieira Dias, Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Artur Nunes, Luís Visconde, David Zé e outros que tomaram tão a peito a música de raiz angolana que a colocaram no pedestal internacional.

Teta Lando partiu, mas ficou. A sua viagem é uma viagem ao interior de cada um de nós, ali onde o doce timbre da sua voz deixa um canto que pulsa o coração da terra e toca a alma do povo. Ainda o vemos actuar em público: a sua aura romântica deixa um vinco de porcelana róseo sobre as luzes do palco.

O espírito que o protege canta-lhe na alma melodias dos tempos idos que ele tonificou com o sol da modernidade. Por isso, “Um assobio meu” era já, nos anos 70, o prelúdio da libertação definitiva de Angola do jugo colonial. A melancólica meditação sobre a existência presente nessa música é também um hermético canto de acusação, expresso em linguagem sentimental.

O mesmo se diga de “Negra de Carapinha Dura”, que enaltece a herança biológico-cultural negra. O romantismo de Teta Lando transparecia uma tomada de posição firme perante uma Globalização cultural iniciada quinhentos anos atrás, com a chegada de Diogo Cão à foz do Rio Zaire.
Cantor é o arauto que vaticina o que o tempo leva tempo a acontecer.


Foi com Teta Lando que aprendemos a bater um funge chamado esperança. Desde 1989, guardamos com a sua canção “Reunir” a fuba, a jimboa, os quiabos, a kizaca, o óleo de palma, o bagre fumado e o cacusso seco mais a quissângua no buraco da mulembeira mais alta do musseque. Chegado o ano de 2002, nos sentamos com ele num domingo, batemos o funge e cantamos de novo, com uma voz verdadeiramente nacional, que “Reunir” é vital.

Um dia, surgiu ali no rés-do-chão do edifício do INALD uma discoteca nova com a assinatura altruísta do cantor, o projecto “Reviver” que relançou no mercado o canto imortal dos que haviam feito a história do Semba.
Num outro dia, Teta Lando, incansável como o fluir metálico do Rio Zaire, era escolhido para dirigir os destinos da UNAC, ali na esquina da Mutamba, onde os candongueiros fazem fila à espera que o cantor lhes dedicasse uma canção deste tempo.

E a sua obra, neste outro leme social, foi tão meritória que praticamente todas as vozes que ilustram o período da doença e a derradeira viagem de Teta Lando destacam o trabalho enquanto presidente da UNAC. Sucede, porém que a História de Angola e Enciclopédia Universal da Música guardará escassa memória dessa gestão da casa dos artistas e compositores. A Teta Lando basta ter marcado o nosso tempo e a nossa vida com o tacto luminoso desse toque de alma, coração e voz.

Enquanto membro do júri do Prémio Nacional de Cultura e Artes (PNCA) e que, no ano de 2007, fez justiça ao Rei Elias diá Kimuezu, tivemos acesos debates nas reuniões de composição da acta final. Nesses encontros, comemos sempre um funge novo, no sentido de comunhão espiritual à maneira angolana, que Teta Lando soube imprimir a esta iguaria nossa.

Amigo e irmão: neste preciso momento em que te sentas ao meu lado e me olhas com essa tua mosca estilizada sobre o queixo humilde, enquanto petiscas esta escrita de pedaços de kitaba, cola e gengibre, resta-me assinalar, inconformado, que já era tempo de se restabelecer a pena capital para doença e a própria morte.


Porque me ouves, irmão de arte e de alma, deixo-te este recado da Avó Ximinha: ela manda dizer que sempre que passares pelos lados da nossa mulemba, aproxima-te e senta-te à sombra onde já estão à tua espera os nossos antepassados e uma boa quissângua para apreciares enquanto lhes contas os “mambos” da independência.

JA - José Luís Mendonça
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