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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Emílio de Carvalho: As eleições não mudarão a realidade do povo angolano Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
09-Jul-2008
Emílio de Carvalho: As eleições não mudarão a realidade do povo angolano Autor, tradutor e escritor, o Bispo Emílio de Carvalho (na foto) dá a sua opinião sobre a Política em Angola e fala sobre a Igreja que dirigiu ao longo de mais de 28 anos. Hoje aposentado, ainda marca a sua influência nas tarefas religiosa e social.

P – Como é que caracteriza a influência do Cristianismo na sociedade angolana actualmente?

R - Deve ser mais acutilante. Depois de mais de 500 anos de presença em Angola, o Cristianismo ainda não conseguiu sair vencedor das fraquezas, que continuam a atingir a sociedade e a desorientar a juventude, e do pecado, que ainda leva homens e mulheres à corrupção e à devastação pessoal. Contudo, o Cristianismo é um paradoxo: tão fraco para não conseguir renovar o ser humano, tão forte que prosseguirá com o seu ministério tendente a influenciar o homem e a mulher, ao ponto de levá-los ao caminho da paz, da justiça e da reconciliação.
P – Qual a sua opinião sobre a expansão do Islamismo em Angola?

R – Já respondi a essa pergunta numa entrevista anterior. Nunca me alarmei com a presença do Islamismo ou de qualquer outra religião viva não cristã em Angola. Qualquer religião viva tende a expandir-se, como faz o Cristianismo. Angola está no mundo e temos de enfrentar essa realidade. Disse também nessa entrevista acreditar que competirá aos cristãos e a todos quantos têm a responsabilidade de zelar pelo bem estar das populações na sociedade, contraporem à expansão do Islamismo no País, acções concretas de evangelização, de serviço e de integração social, para não sermos apanhados a dormir.

P – A primeira estrutura de realce, construída pela Igreja Metodista (salvo erro), é a faculdade. A que se deve isso? Visto que outras Igrejas mais recentes têm várias estruturas de apoio, inclusive condomínios residenciais.

R - Concordo em que a Igreja Metodista Unida tenha uma instituição de ensino universitário. Só não concordo, designadamente com os moldes em que a mesma foi estabelecida. Sem uma discussão profunda, sem concepção e planificação. A falta de uma parceria com a Junta Geral de Ensino Superior e Ministérios, da Igreja Metodista Unida, também é um erro imperdoável. Eu estaria de pleno acordo se essa instituição de ensino universitário fosse realmente “metodista” e pertencesse realmente à Igreja Metodista Unida!

Quanto à segunda parte da questão, também é normal que instituições religiosas tenham outras fontes de rendimento, além das contribuições financeiras dos seus membros. Por isso não me perturba ver que outras igrejas mais recentes construam condomínios residenciais, cujos proventos irão certamente apoiar os programas das respectivas comunidades. Mas tudo tem o seu tempo determinado, porque a igreja, enquanto igreja, é antes de mais nada, uma comunidade de fieis que está consciente das suas responsabilidades de missão para a salvação do mundo e que contribui com o sacrifício das suas vidas para o seu sustento e o seu ministério pastoral e social. Talvez tenhamos que rever o ponto de partida da missão da igreja: se é a conversão a Cristo e o testemunho da fé, ou se é a construção de condomínios para fins lucrativos. Estas são coisas secundárias. Repito, a Igreja é fundamentalmente uma comunidade sem fins lucrativos!

P – Em 123 anos de Metodismo em Angola, qual é para si o seu maior feito?

R - É quase impossível dizer qual foi “o maior feito” do Metodismo em Angola nos seus 123 anos de existência, pois cada etapa constituiu um tijolo na grande obra que se erguia. Porém posso resumir o que, na sua totalidade, foi “o maior feito” da Igreja Metodista Unida em Angola: no tempo do colonialismo a igreja estabeleceu como prioridade tirar o povo da ignorância, alfabetizando, estabelecendo escolas e clínicas urbanas e rurais, cursos profissionais básicos e práticos de agricultura, saúde e artes, instruindo a uma franja de angolanos e angolanas aos quais deu oportunidade de educação e aquisição de conhecimentos bíblicos e académicos para a sua valorização pessoal e colectiva como um povo soberano. Depois da Independência Nacional, a igreja estabeleceu programas sociais com os mais desfavorecidos, principalmente com crianças, mulheres e pessoas deslocadas de guerra, criando centros sociais que serviram de paradigmas a outras iniciativas paralelas e que surgiram mais tarde na nossa sociedade. Estas posições e iniciativas levaram à continuação do programa de formação de quadros no país, no Brasil, em Portugal e nos EUA, à elevação da consciência do povo para a aquisição e expressão de sua identidade, soberania, liberdade individual e colectiva e à valorização do ser humano. Tudo isso constituiu um desafio frontal à acção do colonialismo e aos desafios do período pós-independência e alguns dos feitos, senão os maiores, da epopeia do Metodismo em Angola!

P – Segundo o Jornal Poder “online”, mais de 600 milhões de dólares serão aplicados em projectos em Angola. Em seu entender para que áreas deveria ser dirigido este valor?

R - Há que fazer um esclarecimento. Tudo não passou de uma deturpação da parte do jornalista que veiculou esta informação. Os $641,897,000 constantes do Orçamento Geral da Igreja Metodista Unida e que o bispo Gaspar divulgou ao público em geral, não “serão aplicados em projectos em Angola”, mas representam o orçamento aprovado pela Conferência Geral para o quadriénio 2009-2012, e financiará os programas das agências e das juntas gerais e de outras rubricas gerais da Igreja. Este orçamento geral tem o contributo, na sua totalidade, das conferências anuais norte-americanas e destina-se ao Serviço Mundial, à Educação Teológica em África, à Universidade África no Zimbabwe, ao Fundo dos Colégios Negros nos EUA, à Administração Geral da Igreja Metodista Unida, ao Fundo Episcopal, ao Fundo de Cooperação Interdenominacional, ao Ensino Ministerial e, como disse, suporta ainda outras rubricas gerais aprovadas pela Conferência Geral. Entretanto, independentemente desse orçamento geral, cada área ou (Conferência Anual) no mundo (Angola incluída), aprova e faz também o seu próprio orçamento, a partir do qual são lançados os tais projectos locais.

P – Estando na reforma, que influências tem tido dentro da Igreja Metodista?

R - Estou aposentado do serviço activo desde o ano de 2000. Claro que me interesso profundamente pelos assuntos da Igreja e das igrejas em Angola. Sou o editor para a língua portuguesa em África do No Cenáculo, guia devocional diário, publicado de dois em dois meses, prego, de vez em quando, em igrejas e conclaves da Igreja a convite dos pastores e pastoras, dirijo palestras a vários grupos da Igreja, dou entrevistas à rádio, à televisão, a jornais e a revistas diversas, escrevo alguns artigos para jornais e revistas locais, assisto a cerimónias públicas sempre que convidado, aconselho as pessoas e as igrejas que vêm à minha casa em busca de orientações para as suas vidas e oriento também estudantes universitários na feitura de suas teses de formatura. Como membro do Concílio dos Bispos da Igreja Metodista Unida, participo de suas reuniões bi-anuais e estou disponível para o desempenho de quaisquer tarefas ao nível da Igreja em geral. Ainda sou uma pessoa influente dentro da Igreja Metodista Unida, embora minha acção esteja agora limitada. Na sociedade angolana, e não só, sou uma pessoa muito conhecida e respeitada, em virtude do passado que me granjeou esse conhecimento e simpatia da parte de toda a gente. Não cesso de agradecer a todos por esta deferência.

P – Pela sua experiência, quais são os maiores desafios do Metodismo em Angola?

R - Acredito que os maiores desafios do Metodismo são sempre a definição de uma comunidade de crentes em Cristo cujo objectivo é o de levar o Evangelho a toda a criatura, a formação da mulher e do homem íntegros na sociedade, a preparação de líderes cristãos que dirijam as multidões de crentes ávidos de liderança por esta Angola fora, a elevação do fraco nível financeiro das igrejas locais e o consequente sustento do seu ministério pastoral e a formação de quadros (mulheres e homens) com visão, que ajudem a projectar para o presente e o futuro uma Igreja actual e actualizada, com uma mensagem evangélica, bíblica e integral para todos os estratos da Sociedade. Estes são, a meu ver, os maiores desafios para o Metodismo em Angola hoje.

P – No âmbito social, o que é que precisa mudar em Angola?

R - A sociedade angolana, como todas as outras sociedades no mundo, passa e passará por constantes e inevitáveis mutações (positivas e negativas), pois essa é a dinâmica da vida. Mudança nas pessoas e das mentes, nas estruturas sociais e políticas dos países, nas instituições religiosas e sociais, nos sistemas educacionais e económicos, tudo isso acompanhará o crescimento de Angola através dos tempos. Mudanças serão sempre necessárias, provocadas e às vezes imprevisíveis, se tivermos que ser uma sociedade dinâmica, produtiva e progressiva. Também não estaremos livres de mudanças regressivas.

P – Acredita que as eleições mudarão consideravelmente a realidade do povo angolano?

R - A realidade do povo angolano não mudará com as eleições. As eleições serão consideradas como uma etapa na vida do país, enquanto que a realidade permanecerá. Ela poderá mudar sempre que as condições e as circunstâncias geográficas, políticas, económicas, sociais e religiosas do país o exijam. Mas seremos sempre os mesmos povos.

P – Como fazer a escolha certa?

R – Escolhendo o melhor programa, as melhores pessoas para governarem, a melhor oferta de condições de vida, a melhor forma de governação do povo, a melhor estrutura que garanta o futuro e o presente do povo angolano. Claro que só depois da escolha feita, saberemos se ela foi certa ou foi errada. De qualquer maneira, esses são critérios que na minha opinião vaticinam uma escolha certa.

P – O Presidente da República é Metodista?

R – O Presidente da República é neto de um pastor metodista. A sua mãe era filha de um pastor metodista. Ele estudou numa escola metodista sob os cuidados de uma professora metodista. Frequentou a Igreja Metodista e praticou desporto com um grupo de jovens metodistas. O que e que ele é hoje, só ao Presidente compete responder.

P – Esta sua aproximação com o Metodismo tem ajudado de certa forma à credibilidade da Igreja Metodista?

R - Pode ser que a ligação umbilical com a Igreja Metodista Unida tenha forjado nele uma certa aproximação a esta igreja. Porém, a credibilidade de uma igreja depende do testemunho diário dos membros que a compõem. A credibilidade da Igreja Metodista Unida não depende da posição social e política que alguns dos seus membros assumiram no passado ou assumem no presente, nem do facto dos mesmos terem sido, serem ou não filhos de metodistas. Repito, a credibilidade da Igreja Metodista Unida depende, fundamentalmente, do testemunho dos seus membros, no passado e no presente, desde ao menor e mais humilde, até ao mais idoso.

P – Sabemos que ele ajudou na reconstrução da Igreja Central, além disso o que mais foi feito pelo Presidente a favor da Igreja Metodista?

R - Sim, a reconstrução do templo da Igreja Central em Luanda foi feita graças à intervenção do Presidente da República. Ele quis ajudar mais, porém sua acção foi ofuscada por elementos estranhos à Igreja Central. Mas será necessário mencionar todas as ajudas recebidas de alguém cuja responsabilidade é zelar pelo bem-estar do seu povo? Quantas outras igrejas, missões, indivíduos, instituições sociais, governos provinciais, governos municipais e comunais, grupos de activistas, organizações filantrópicas em Angola – receberam e continuarão a receber, directa ou indirectamente, benefícios dessa mão generosa e altruísta?

P – Há tempos reclamou sobre a maior atenção dada pelo Governo à igreja Católica em detrimento a que é dada à Igreja Metodista. Como caracteriza a relação entre o Governo e a Igreja Metodista actualmente?

R - Mantenho as palavras ditas naquela altura. Desde que as pronunciei, alguma coisa mudou, porém muito ainda está para ser feito. A relação entre o Governo e a Igreja Metodista Unida certamente que nunca dependeu de uma “maior ou menor” atenção que aquele dispensou ou dispensa a esta. Actualmente é boa. Os membros da Igreja são uma parte integrante do povo angolano. Assim, seguindo a orientação bíblica, nada temos contra um governo que seja do povo, pelo povo e para o povo.

P - Segundo o site “metodistasonline” do Brasil, influenciou na tomada de posição política pela Igreja Metodista Unida a favor do MPLA. Acredita que a Igreja Metodista continua a identificar-se com este partido político?

R - Não existe nisso nada de extraordinário. O Estado angolano nunca teve uma igreja e a Igreja Metodista Unida nunca foi a Igreja do Estado angolano, como outras igrejas a consideraram (segundo o site). Em 1976 estávamos perante um facto consumado e a maior força política no país tinha tomado o poder em Angola. Quando a Conferência Anual de Angola tomou essa posição política a que se refere, fê-lo de consciência própria, sem quaisquer pressões externas e todos foram unânimes em aprovar essa decisão. No tempo da guerra em Angola, a Igreja Metodista Unida foi fiel aos princípios que advogava para o povo, mantendo-se firme de sua identidade contra os poderes externos. Foi a única voz em todo o Protestantismo em Angola a aceitar o desafio que a orientação ideológica do partido no poder representava, buscando, pela reflexão teológica, “um relacionamento entre o Cristianismo e o Socialismo Científico, que não fosse a rejeição global do partido no poder,” conforme diz o site a que se refere. Naquele tempo e ainda hoje, todos os partidos políticos em Angola estavam e estão presentes na Igreja Metodista Unida. Isto é, a Igreja Metodista congregava e ainda congrega no seu seio um mosaico de militantes de todos os partidos políticos em Angola.

E ninguém foi ou é obrigado a aceitar posições. Quem decidia e quem decide é a maioria. Debaixo dessa posição acoitavam-se outras Igrejas Protestantes, por uma questão de sobrevivência. Hoje, a Igreja Metodista Unida em Angola mantém-se fiel aos seus princípios sociais e políticos que sempre caracterizaram as posições da maioria de seus membros. Como um dos Bispos aposentados, aconselho a que os metodistas se mantenham vigilantes, a fim de não serem desviados das posições políticas que sempre defenderam e pelas quais milhares de membros deram as suas vidas. É uma questão preponderante para os Metodistas!

P – Como foi a sua experiência como assessor do Presidente da República?

R - Nunca exerci tal cargo.

P – Em que partido irá votar?

R - O voto é secreto.

P – Seria capaz de influenciar os seus membros a votarem em certo partido político ou em certo candidato?

R - Como dirigente da Igreja sinto-me na obrigação de dar orientação aos que dela precisem sobre o desafio eleitoral que se avizinha e sobre os candidatos em quem eles e elas devem votar. É um trabalho pastoral de grande actualidade. Já o fiz num artigo publicado no Jornal de Angola sobre “O Registo Eleitoral na Perspectiva Bíblica” e estou pronto a voltar a fazê-lo antes das eleições. “Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14)

P – Qual considera ter sido a maior falha durante o seu mandato?

R - Reconheço o ser humano como pecador e, portanto, susceptível a fraquezas. Assim, o meu mandato não esteve isento dessas fraquezas humanas. Confessei sempre a Deus as minhas fraquezas e tentei corrigi-las no tempo próprio. Acredito que Deus já me perdoou essas fraquezas e capacitou-me a ultrapassá-las para realizações maiores ainda do que as minhas fraquezas.

P – Qual foi o seu maior orgulho, relativamente ao trabalho que realizou até aqui?

R - Foi o de ter realizado o meu trabalho com aprumo, respeito, dedicação e sentido de responsabilidade, granjeando admiração e consideração por onde quer que andei, a nível local, regional em internacional. Procurei sempre “remir o tempo.” A minha esposa tem sido o elemento imprescindível no meu trabalho. Educámos os nossos três filhos com muito sacrifício e sentido inclusivo, tendo os mesmos correspondido sempre com aplicação e dedicação aos estudos, dos quais saíram vitoriosos. Hoje estão todos formados superiormente e dando humildemente o seu contributo ao desenvolvimento do país em várias esferas do saber. O nosso orgulho não poderia ter sido maior.


Fonte:Novo Jornal
Popularidade: 170
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