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Cardeal Dom Alexamdre do Nascimento concedeu uma demorada entrevista à Ecclesia por ocasião dos 25 anos do seu magistério, que completou a 13 de Fevereiro de 2008. A emissora aproveitou a oportunidade para uma incursão no percurso desta eminência da Igreja Católica, a jusante da curiosidade de muitos leitores. Da chamamento para o sacerdócio, o bispado de Lubango, o mandato da Caritas Internacional, as relações com o poder marxista, o Papa João Paulo II, os políticos, etc. não prolongamos mais a entrada.
Ecclesia: Sua Eminência quer contar-nos um bocadinho da sua infância de como é que começa essa vontade de ser padre?
- Dom Alexamdre Cardeal do Nascimento: Parece-me que a minha vocação foi um bocado repentina. Não sou daqueles que começaram pouco a pouco. Foi questão de poucas semanas que me decidi. Tinha terminado o ensino primário, em Malange. Ainda não havia liceu, estava para ser criado e era difícil, até tinha posto a hipótese de estar a aprender um oficio. Quando menos esperava, vem um dia alguém me disse: Alexandre, meu colega, vamos para seminário. Devo dizer que já escrevi em meu livro: a palavra seminário não me atrai muito. Primeiramente por causa da situação real. Era dos Bangalas. Ora naquele tempo, nós, os citadinos, não gostávamos muito de deixar a cidade. E, por outro lado, também, a maior parte dos alunos que ia para o seminário pertencia digamos assim à outra faixa social. Mas, quando Deus quer, as coisas acontecem e, então, num belo dia, lembro-me um dia de nevoeiro, parti com mais uns oito. Nós chegamos às Bangalas. E eu e devo dizer que foram os dias mais abençoados que passei: desde 12 de Abril de 1939 até 1943. Era um lugar de grande solidão. Éramos muitos rapazes, uns 50, é uma vida muito sadia, dedicada aos estudos e à piedade. Tenho boas recordações sobretudo da natureza e só tenho a agradecer as pessoas que me rodearam, a começar pelos professores. Nesse tempo conheci um padre. P.e. Rodrigues Cosme, lisboeta da Congregação do Espírito Santo. É das pessoas a quem mais devo.
Ecclésia: Terá sido esse ambiente, esse clima que incentivou Dom Alexandre a permanecer no seminário?
- Cardeal: Eu digo que tenho sentido muito a mão da Providência. Ainda quando tivesse dificuldades creio que haviam de ser superadas. Dizia Rosário Neto, olhando para mim, que o lembrava aquelas ovelhas que os pastores levam pelo carreiro com a mão direita e mão esquerda e não deixa desviar...
Ecclesia: Apesar de ter começado em Malange, depois teve que vir em Luanda continuar os estudos. Também, foi aqui onde foi ordenado sacerdote, foi aqui onde cuidou da primeira paróquia como pároco?
- Cardeal: Eu não fui ordenado sacerdote em Luanda, fui ordenado sacerdote em Roma, fim de Dezembro de 1952, Praticamente nunca fui pároco, fui sempre professor, assistente de grupos de casais. Até, queria ser pároco mas, não tive essa chance, tive outros serviços. A minha vocação digamos assim foi mais de trabalhos intelectuais.
Ecclesia: Na altura digamos que Angola numa maneira muito genérica não tinha muitos padres?
- Cardeal: Éramos poucos. No centro de Angola, no Huambo tudo mais, tinha mais sacerdotes do que nós, mas mesmo assim não eram muito numerosos. Nesse tempo tanto os padres como as freiras religiosas, a vocação custava muito. Não era fácil porque entende-se.
Ecclesia: E a Arquidiocese do Lubango?
- Cardeal: Fui para lá, estive 9 anos. Antes estive dois anos em Malange. Sou de Malange e, naturalmente, não pago renda porque as casas são nossas (breve riso espontâneo) ... Mas, sobre Lubango, foi Jeovane de Andrea, que era o delegado apostólico, que me anunciou isso. Fiz lá nove anos. Foi dos lugares que mais me custaram porque a altitude é grande e eu estava muito ligado à Caritas Internacional. Tinha que viajar muito e sempre que voltasse ao Lubango, tinha de me readaptar. Mas mesmo assim o coração humano deita sempre algumas raízes na terra onde se encontra.
Ecclesia: E esta ligação do Cardeal à Caritas foi numa altura em que Angola bem precisava de ajuda humanitária?
- Cardeal: Quando me fizeram Cardeal, o Santo Padre tinha pensado antes me chamar para lá junto dele. Mas, sei que o Cardeal Casaroli chamou atenção à Sua Santidade dizendo que eu seria mais útil para o meu país, que sendo eu cardeal. presidente da Caritas Internacional, eu continuasse em Angola para poder ajudar mais e melhor o meu povo. Foi o que fiz porque senão, estaria na Cúria Romana.
Ecclesia: E ajudar as populações durante os tempos que Angola passou também por conflitos. Como é que foi essa experiência na vida religiosa de Sua Eminência?
- Cardeal: Olha, devo dizer o seguinte: devo ter aprendido isto um bocado da minha mãe e, também, a questão da graça do Senhor. Estou aberto ao momento, eu não faço programa. Dou primeiro ao que me pede se tenho. Eu como cardeal tinha amplas facilidades para ajudar o meu país e viajava para o mundo inteiro, onde, também havia muita pobreza. Quando estive na Índia em Bombaim , Calcuta, havia lugares em que sofria mais porque a nossa pobreza em Angola às vezes não é tão desesperada como nos outros países que encontrei na Ásia. Vi muita coisa durante nove anos quando fui Presidente da Caritas Internacional. Uma das viagens que mais me marcou foi a minha ida à Etiópia, onde havia uma fome tremenda. O Santo Padre quando ele foi informado deu-me muitos dólares, muitos tanto quanto era possível e além disso eu fiz em Paris e em Madrid conferências para obter mais dinheiro. Ainda hoje, quem me contou isto foi o nosso bispo, Dom Cahango, que encontrou há pouco tempo mulheres etíopes que ainda se lembravam da ajuda que eu tinha conseguido para elas. Foi lá, também, encontrei um exemplo belíssimo de que nunca me esqueci. Eu estava lá no meio daquele povo que sofria imenso. Encontrei duas Irlandesas brancas, louras. Estava uma delas com uma criança ao peito a aquecê-la. A criança estava quase a morrer. Eram quatro. Era um caso verdadeiramente estranho e extremamente belo. Ela que não era mãe dava aí o seu calor, o seu carinho e aquela criança de certo não morreu. Foram coisas gigantescas, belas que nunca vi. E vi que apesar de tudo no nosso mundo mesmo aqueles que mais ou menos blasfemam, não querem saber, mas no fundo há bastante caridade, isso vai salvar o mundo. O dar do nosso pão, o dar do nosso carinho e perdoar isso é caridade.
Ecclesia: África infelizmente continua a albergar os piores dramas e a zona de Darfur tem sido muito citada pela imprensa e por vários organismos internacionais. Hoje, olhando um bocado mais para casa, quando Sua Eminência o Cardeal liga a TV ou a rádio e fica atento a essas notícias todas o que é que pensa?
- Cardeal: Um homem de fé não significa que nós facilmente nos consolemos, a fé vive-se, a fé é um mistério também. Sofro naturalmente quando vêm me bater a porta e é bastante gente que vem bater a porta da minha casa. Isto deve chamar a nossa atenção para uma coisa que é real, que significa a grandeza do homem, a sua responsabilidade. Deus não se vai pôr no meu lugar, nem no lugar de um de nós; cada um de nós é obrigado a cumprir o seu dever e não estejamos a culpar Deus. É por isso que repito aquilo que Paulo VI dizia: homens sede homens.
Ecclesia: E também já passou pela Universidade Católica, que está a crescer bastante. Tem uma nova estrutura, há planos de estender-se para o país todo. Sua Eminência o Cardeal olha estes planos, estes projectos com satisfação?
- Cardeal: Eu fui também chanceler e acho que o actual Presidente Perfeito da Sagrada Congregação dos Estudos definiu bem o meu papel. Disse-me que fui o valioso pioneiro. É só isto, valioso pioneiro. Pois claro, quando nós ajudamos nascer uma criança, estamos sempre ligados. Eu dou meus parabéns ao actual reitor sobretudo pelas estruturas materiais que está a fazer. É claro que nós temos ambições. A Universidade Católica em Angola é dos instrumentos mais importantes que a evangelização tem no nosso país. Tudo que se fizer por ela é bem vindo e como diz deve sempre ser muito acarinhada essa nossa universidade.
Ecclesia: E neste aspecto como é que olha para o ensino superior no nosso país hoje?
- Cardeal: Temos que melhorar muito. Quando anos atrás fui convidado pelo governo dos Estados Unidos a visitar a nação yankee, a coisa que mais me interessou foi estudar, ver de perto como é que funcionavam as grandes universidades norte-americanas. Quer dizer, sempre me preocupei com o ensino universitário. Uma vez aqui, já há muito tempo, no jornal “o apostolado” havia uma discussão. Não se queria que se criasse uma Universidade Católica em Angola. Eu escrevi qualquer coisa no jornal “o apostolado” a dizer pelo contrario que se fizesse Universidade Católica. Havia o padre Da Conceição, um intelectual de grande calibro que eu admirava muito, era do parecer que devíamos alargar antes o ensino primário, alargar o liceal. Achei que não; não devemos começar pelos catequistas; temos que começar pelos bispos; é o que fez Cristo. Universidade que forma verdadeiros homens porque quando nós tivermos aqui gente verdadeiramente preparada muitos problemas que nós temos vão desaparecer.
Apostolado
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