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O professor universitário e mestre em Relações Internacionais Alberto Kizua afirmou que, apesar dos vários problemas que o continente africano ainda enfrenta, existem alguns processos positivos que sinalizam a reafirmação de África na cena internacional. Para o docente, que ocupa, actualmente, as funções de vice-reitor para os Assuntos Científicos da Universidade Privada de Angola (UPRA), embora a situação interna de alguns países seja difícil, especialmente quanto aos problemas sociais que afectam a maioria das populações, a esperança vislumbra-se no continente. Na entrevista que concedeu ao “Dossier”, em torno do 25 de Maio, dia dedicado ao continente berço da humanidade, o também coronel das Forças Armadas Angolanas (FAA), disse, por outro lado, que a precária governabilidade, a alta instabilidade, a corrupção e as tensões étnicas provocaram e continuam a provocar numerosas guerras civis e têm reduzido, sobremaneira, a capacidade de desenvolvimento económico/produtivo do continente. Talvez, por isso, ele acredite que a democratização tem-se mostrado, assim, um processo difícil, lento e árduo para os africanos e, na maioria dos casos, não tem ocorrido de forma pacífica ou não sangrenta.
| Jornal de Angola Professor, que factores objectivos e subjectivos podem concorrer para a industrialização e modernização de África? Alberto Kizua: Antes de tudo, agradeço a oportunidade que me é concedida para tecer algumas considerações, numa altura em que o continente berço da humanidade comemora mais um aniversário, a 25 de Maio. Quanto à questão que me coloca, começo por dizer que são vários os factores objectivos e subjectivos que concorrem para a industrialização e modernização de África. Mas, antes de tudo, é importante sublinhar que a modernidade pode ser entendida como uma conjugação de ideias ou visão de mundo, ou seja, algo relacionado ao projecto de mundo moderno. A industrialização é um conceito que constitui um conjunto de mudanças tecnológicas com impacto no processo produtivo a nível económico e social. Estamos a falar, em última instância, de um longo processo evolutivo que permitiu que a máquina superasse o trabalho do homem e impôs novas relações entre nações. Enfim, estamos a falar de uma transformação que se concretizou devido a combinação de vários factores, como o liberalismo económico, a acumulação de capital e uma variedade de invenções, etc. Ao longo da nossa conversa acabaremos por descrever os potenciais factores que possam concorrer para a industrialização e modernização de África. Porém, podemos, de forma resumida, destacar os seguintes cenários. | | JA: Que cenários? AK: O período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial caracterizou-se, em primeiro lugar, por uma descolonização “sui generis” e tardia. Em alguns casos, o processo de descolonização terá sido conduzido e administrado pelas metrópoles europeias, apesar da eclosão de alguns conflitos graves. As contradições internas ainda não estavam suficientemente amadurecidas, em decorrência da herança do tráfico e do colonialismo sobre as estruturas sociais do continente, bem como pela posição particular das metrópoles europeias e de suas colónias africanas nas relações internacionais logo após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria. O processo de construção do Estado-Nação teve o seu início numa situação de extrema fragilidade. Por outro lado, é forçoso reconhecer que se trata de um processo recente. Ou seja, algumas economias africanas encontram-se ainda a dar os seus primeiros passos. | | JA: O que está na origem do atraso de África, no campo da industrialização? AK: A precária governabilidade, alta instabilidade e corrupção e as tensões étnicas provocaram e continuam a provocar numerosas guerras civis e têm reduzido, sobremaneira, a capacidade de desenvolvimento económico/ produtivo do continente. A democratização tem-se mostrado, assim, um processo difícil, lento e árduo para os africanos e, na maioria dos casos, não tem ocorrido de forma pacífica ou não sangrenta. São vários os exemplos... | | JA: Como encarar o facto de África, um continente com grandes recursos naturais, alguns dos quais inesgotáveis, ainda não ter entrado para a era da industrialização, concorrendo, por exemplo, com o continente europeu? AK: Existe no continente uma variedade de condicionantes que afectam e condicionam o desenvolvimento económico. Eu sou apologista de que nem tudo que vem da Europa é ouro. Logo, penso que a questão da industrialização no continente africano não deve cingir-se na óptica da concorrência com a Europa, mas sim na criação de condições e/ou de infra-estruturas que possam permitir com que os países africanos consigam desenvolver as suas economias numa base de estabilidade interna para poderem enfrentar o actual sistema económico baseado na oferta imposta segundo a vontade do monopólio sobre os mercados cativos. | | JA: Mas, doutor, será possível concorrer nestas condições? AK: Hoje, o sistema funciona, praticamente, em função das trocas. Vivemos numa economia de informação e de inteligência. A fibra óptica substituiu o cobre. Face ao capitalismo deste género, não podemos falar de concorrência industrial no verdadeiro sentido da palavra, para os próximos anos. Isto passa necessariamente pela criação de condições que permitam o equilíbrio entre a estabilidade económica e a estabilidade social. África precisa de encontrar as vias escapatórias que possam conduzir para as transformações importantes na economia, capazes de gerar maiores atractivos para o investimento e promover a exportação. E por que não a criação de uma verdadeira burguesia nacional nos países africanos? | | JA: Ainda pode ser entendido que o atraso de África se deve à colonização do continente? AK: Não tenha dúvidas. Se recorrermos à história vamos constatar que o continente africano teve a sua evolução como todos os outros povos do mundo até ao século XVI, através das chefias dos reinos, dos impérios que não foram menos importantes. O período chamado das “grandes descobertas” que implicou o tráfico de negros foi por si só de uma inversão, de um retrocesso da história de África. Veja que, durante o período colonial, as sociedades africanas eram marcadas por um certo equilíbrio de rendimentos, do nível de vida e do poder de compra dos diferentes segmentos da população. Na era moderna, fruto das causas conhecidas, o continente dividiu-se entre uma corrente de Estados conservadores e outra de progressistas, no plano interno e externo, com projectos político-económicos e alianças internacionais antagónicos. Esta rivalidade, entretanto, foi mantida dentro de certos limites - devido aos interesses comuns de consolidação nacional, articulação de relações inter-africanas - nos padrões da antiga OUA (Organização de Unidade Africana), e a afirmação de uma certa margem de manobra internacional pelos novos países, dentro das estreitas margens possibilitadas pela ascendência europeia sobre o continente. | | JA: Esta questão da colonização não pode, também, ser entendido como um falso argumento, sabendo-se que o continente está descolonizado há mais de 40 anos? AK: A abordagem sobre o continente africano, sobre as suas regiões naturais ou políticas, inclusive as heranças em relação ao passado colonial, em termos de Estado a Estado envolve, obrigatoriamente, o recurso à história, à religião e à sociedade, nas suas conexões com o sistema político-económico e social. Sobre isso não restam dúvidas. No contexto internacional presente, quando as abrangências de natureza global cedem lugar ao regionalismo, o momento é extremamente propício à questão africana. Reconhecendo a debilidade de África e dos seus vários Estados considerados pobres, hoje, em pleno século XXI, surge a indagação de como o continente africano poderia enfrentar os cenários dos novos ventos, onde o processo de globalização se evidencia de forma tão marcante e que está mudar dramaticamente a sociedade contemporânea. | | JA: Doutor, até que ponto a má governação e a falta de transparência na gestão dos fundos públicos concorrem para o atraso industrial do continente africano? AK: Ora bem, eu julgo que a adequação de África aos parâmetros da chamada “nova ordem mundial” não significou a solução dos problemas existentes. O fim da bipolaridade e do próprio conflito Leste-Oeste, agravado pelo desmoronamento da União Soviética, em 1991, fizeram com que o continente africano perdesse a sua importância estratégica e capacidade de barganha, às quais se acrescentava a própria perda da sua importância económica. Se reparar, a Guerra do Golfo, por sua vez, reforçara esta tendência. | | JA: Qual foi o resultado? AK: O resultado foi a marginalização de África no sistema internacional. Os conflitos deixaram de ser estratégicos e tornaram-se tribais. Entende? Estes conflitos persistiram até como forma de sobrevivência de elites e populações nas áreas mais afectadas. O resultado é a existência de grupos armados que vão criando aqui e acolá situações de instabilidade a nível do continente. | | JA: Que África temos hoje do ponto de vista de desenvolvimento industrial? AK: Apesar destes problemas, existem alguns processos positivos que sinalizam a reafirmação de África na cena internacional. É o caso da África Austral, outra região considerada estratégica para a "nova ordem mundial", devido as suas reservas minerais e a sua importante posição geopolítica. Embora a situação interna de alguns países seja difícil, especialmente quanto aos problemas sociais que afectam a maioria das populações, a esperança vislumbra-se no continente. | | JA: Isso significa que existem boas perspectivas para o continente? AK: Bem, como africano, tenho de reconhecer que, não obstante algumas inquietações de carácter endógeno, o continente tem várias perspectivas de evoluir positivamente, mas precisa, em primeira instância, que os Estados africanos e os seus líderes respeitem o bem comum, a partilha do poder e a solidariedade. Em suma, que sejam respeitados os pressupostos universais da democracia. Temos que repensar o continente nos moldes aceites universalmente. Tal como já referi: a abordagem sobre o continente africano envolve, obrigatoriamente, o recurso à história, à religião e à sociedade, nas suas conexões com o sistema político-económico e social. | | JA: De que forma podemos concorrer com outros continentes? AK: É preciso que se crie uma burguesia nacional, aquela que vai controlar de facto e de jure o bolo económico e não algumas migalhas, como acontece hoje, deixando a maior fatia para os europeus e americanos. | JA: Outro grande problema que o continente enfrenta é a fuga de quadros para outras partes do mundo. Como esbater este fenómeno da fuga de cérebros do continente, que também está na origem do subdesenvolvimento económico e industrial do continente africano? AK: No final do século passado, importância fundamental era atribuída ao comércio internacional como motor do crescimento. Hoje, as mudanças substanciais dos valores que permeiam as análises da realidade mundial e o impacto da tecnologia e das movimentações financeiras e monetárias que se verificam no desempenho das nações dominam o cenário económico. Diante disto, as sociedades desenvolvem um processo de dualização dinâmica e estrutural: os incluídos e os excluídos. A população de África mostra-se excluída não só da economia global, mas também dentro das respectivas sociedades, com índices gritantes de baixo bem-estar humano. Logo, não se poderia esperar outra coisa senão a migração. A migração é um dos fenómenos marcantes da actualidade, e a procura das melhores alternativas propicia este fenómeno. A solução deste problema passa, quanto a mim, pela criação de condições de habitabilidade, de emprego e, como é óbvio, pelo aproveitamento racional e melhor gestão dos recursos humanos. JA
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