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Foi para Angola com oito meses e por lá viveu enquanto pôde. Regressou assim que teve oportunidade. Hoje, Helder Bataglia lidera o braço do Grupo Espírito Santo em Angola e é um dos portugueses mais influentes em Luanda e em toda a África. O presidente da Escom fala sobre as eleições do próximo dia 5, explica o que é preciso para ter sucesso e conta a longa história – sua e do grupo. E diz que Portugal tem obrigação de apoiar investimentos como os da Sonangol no BCP e na Galp. “As empresas que estão a investir em Portugal são sérias, geridas por gente séria”, diz.
O que mudou em Angola nos últimos três anos? O que mudou foi sobretudo a percepção da realidade angolana e é isso que leva a que haja esta onda de investimento, porque os agentes económicos portugueses e internacionais tomaram boa nota do esforço do Governo angolano. Não podemos esquecer que tínhamos cerca de 700% de inflação há menos de seis anos e hoje temos 11%, nem que a economia angolana cresce às taxas que conhecemos. Isso resultou de um grande esforço do Governo, dos angolanos de uma forma geral e dos investidores. Hoje, na Ásia, EUA, Brasil, o reconhecimento do caso angolano e da percepção desta nova realidade é um facto. Angola tem eleições a 5 de Setembro. Irá finalmente libertar-se do estigma de país não-democrático? O estigma do que se diz ser um país não-democrático resulta de uma guerra imposta durante 35 anos. É muito difícil ter instituições a funcionar quando há guerra. Hoje, Angola está em paz, é um país independente e tenho a certeza que, a partir de 5 de Setembro, vai mostrar que é um país onde essas instituições funcionam. Angola já está mesmo em paz? Os ódios que alimentaram a guerra estão apaziguados? As coisas não se resolvem num dia, ou por se assinar um acordo. Mas as pessoas estão num processo de resolução muito acelerado. Sinto que esse assunto está a ser ultrapassado. Hoje viaja-se em paz por qualquer parte do país, a qualquer hora. Eu próprio o faço. E só não vão mais porque ainda há estradas a ser reabilitadas, mas quando terminarem esses trabalhos qualquer cidadão pode ir a qualquer parte do país, que está numa fase de franca estabilidade. Os seus quadros sentem essa segurança? Temos centenas de quadros que viajam pelo país quando lhes apetece, sem restrições. Como vê a relação de forças entre os partidos políticos angolanos? Os partidos são um espelho do país e da evolução que está a tomar. No fundo vemos os dois grandes partidos numa consolidação da sua presença nacional. Sobretudo o MPLA, mas a UNITA também tem feito um grande esforço nesse sentido. Tem alguma dúvida sobre quem vencerá? Só podemos saber depois das eleições, mas a minha convicção é que o MPLA, por essa consolidação da presença por todo o país, terá um certo avanço sobre os outros partidos. Nesta altura há uma febre de Angola em Portugal. As empresas estão a ter as cautelas necessárias ou há algum excesso de entusiasmo? Há empresas com excesso de entusiasmo e há empresas que estão as fazer as coisas bem estruturadas e com as maiores cautelas. E ter as maiores cautelas é ter a noção de que estão a investir em África; e que mesmo em Angola, um mercado cultural comum, é fundamental conhecer-se o mercado, os agentes económicos e a realidade. Isso leva o seu tempo. Há grupos que estão a fazer as coisas com os ‘timings’ correctos e há outros que vão com grande entusiasmo e vontade de crescer – para estes as coisas muitas vezes são mais difíceis. É fundamental que se vá com alguma cautela, inicialmente, porque é fundamental definir uma boa estratégia, estabelecer parcerias e ter uma ideia certa do que se quer fazer. Há casos de mentalidade “neo-colonialista”? Angola é um país independente, talvez um dos países africanos onde de facto a soberania é exercida pelos angolanos – e estas coisas por vezes não são compreendidas. Portanto, quem não conhece bem a realidade social, política e económica, muitas vezes tem dificuldades. No caso das empresas portuguesas, em geral o problema não existe, já que há um conhecimento profundo, pela herança comum. Há quem veja a ameaça de um colonialismo de sentido inverso na entrada da Sonangol em empresas portuguesas como o BCP e a Galp. Há riscos nessa enxurrada de investimentos? Não vejo que haja. Para Portugal, só é benéfico. E hoje em dia esse cruzamento de participações de grupos angolanos em Portugal e de grupos portugueses em Angola só reforça a consolidação do relacionamento bilateral – e, no fundo, o desenvolvimento de ambas as economias. A preocupação tem a ver com a transparência das empresas, por não estarem obrigadas às mesmas regras de transparência do que as portuguesas. Angola está num processo de reconstrução e de consolidação da economia. O mínimo que podemos fazer é dar-lhes o benefício da dúvida sobre a boa vontade e a boa fé relativamente aos investimentos que estamos a receber. Acho que temos o dever e a obrigação de os apoiar e ajudar no momento que estão a atravessar. As empresas que investem em Portugal são sérias, geridas por gente séria e preocupadas em diversificar investimentos. Como é que vê a relação entre Portugal e Angola dentro de cinco anos? Vejo uma relação com muito maior maturidade, uma consolidação do relacionamento. Para a economia portuguesa, vejo a presença em Angola como um passo para uma grande consolidação em África. E espero que, para os angolanos, Portugal seja também uma plataforma para os seus investimentos na Europa e no mundo. Em que áreas vê maior potencial para as empresas portuguesas? Em Angola todas as áreas têm enorme potencial. A construção, a área agrícola, é fundamental criar um parque de pequena e média indústria. As águas, a energia... Que conselhos daria a empresas que queiram ser as novas Escom? Que tenham bom conhecimento do mercado, uma perspectiva de futuro e preocupação de contribuir para a sustentabilidade da economia. Diversificar parcerias também é muito importante. Há razões para temer a concorrência da China? A economia angolana abre oportunidades para todos aqueles que querem ter uma visão de Angola de longo prazo. Abre menos oportunidades para quem tem uma visão de curto-prazo. A Escom usou Angola como base para entrar nos países vizinhos. As empresas portuguesas devem olhar para além do território angolano? Angola é uma plataforma natural para os outros países africanos, nos aspectos logísticos, nos transportes, É fulcral em toda a zona central de África. E vai funcionar cada vez mais como plataforma, sobretudo com os enormes investimentos que estão a ser feitos no restabelecimento das ligações rodoviárias e ferroviárias com esses países. As empresas portuguesas têm a grande oportunidade de usar esta plataforma: produzir em Angola, exportar e projectarem-se para esses países. Como está a ser o ‘roll-out’ do plano de investimento em infra-estruturas anunciado há alguns meses? O plano é gigantesco e oferece grandes oportunidades às empresas do sector e a todas as que se queiram instalar por essas áreas. Começam a haver concursos, grande parte para empresas portuguesas – outros para chinesas. E uma coisa impressionante é que mesmo durante a noite se trabalha nessas obras; é perfeitamente normal andar por Angola a qualquer hora da noite e encontrar obras em funcionamento, tal é a velocidade que está a ser imprimida a esse programa de reconstrução. Em Portugal também é normal em vésperas de eleições… Isto já dura há mais tempo e vai durar muito para além das eleições porque as empresas têm prazos apertados para cumprir e querem cumpri-los porque há mais trabalho à frente e disso depende o seu posicionamento no mercado. Vão ter que fazer isso para além da campanha eleitoral, disso não tenho dúvidas. Para quem não conhece o seu percurso, pode explicar-nos como chegou até aqui? Os meus pais viviam em Angola, na pequena vila de Baía Farta, na província de Benguela. Eu nasci em Portugal e quando tinha oito meses fui para Angola e foi aí que fiz toda a minha instrução primária e secundária, fiz o serviço militar em Angola e vinha a Portugal com regularidade – de dois em dois anos, ou de três em três. Gostava de vir a Portugal? Não muito. Estava habituado à vida de liberdade e praia que na adolescência se tem em África; estive em Angola até 1975, até à independência. Mas manteve a ligação a Angola? Uma ligação fortíssima. Angola era o nosso país, a nossa terra, onde cresci e tinha muitos amigos. As minhas referências eram muito africanas, por essa ligação profunda a Angola. Que tipo de relacionamento manteve durante esses anos que se seguiram à independência? Era um relacionamento de alguma intensidade porque tinha muitos amigos com quem me relacionava frequentemente. Entre 1975 e 1085 não fui a Angola e foram eles que mantiveram essa ligação. E como é que se iniciou no mundo dos negócios? Foi em Angola, aos 24 anos, quando terminei o serviço militar. Fiz um projecto, revolucionário para a altura, no sector das pescas: uma fábrica de secagem artificial de bacalhau. Angola era um grande importador de bacalhau seco; eu passei a importá-lo fresco e a fazer a secagem na Baía Farta – um grande centro piscatório em Angola. Foi um investimento que era uma referência em África, mesmo em termos de tecnologia. Como retomou os negócios? Quando vim para Portugal em 1975, encontrei uma situação difícil em termos económicos e políticos e decidi viajar para o Médio Oriente. O petróleo estava na altura num certo ‘boom’ e em 1977 fui para a região do Golfo, Arábia Saudita, Koweit, Iraque e Irão. Eu representava empresas portuguesas que queriam vender naqueles países – com grande sucesso porque os árabes tinham grande interesse por produtos portugueses. Que tipo de produtos? Industriais, alimentares e casas pré-fabricadas. Na altura estavam a instalar-se as primeiras grandes cadeias de distribuição e, dado o grande desenvolvimento, precisavam de instalar rapidamente estrangeiros, expatriados que iam fazer a reconstrução e reconversão desses países, pelo que havia grande procura para casas pré-fabricadas e construção ligeira. No fundo estavam numa situação semelhante à actual em Angola... Não era uma situação de pós-conflito, mas no resto era muito semelhante: grande desenvolvimento, grandes investimentos e grandes projectos de infra-estruturas… Foi o meu primeiro grande contacto com os mercados externos e importadores do mundo. Era uma zona em grande ebulição e desenvolvimento. Quando é que regressou a Angola em força? Foi já através do GES, em 1991. Na altura fui convidado, através do Luís Horta e Costa (que não conhecia) para desenvolver um projecto em Angola. Aceitei e de 1991 a 1992 fizemos essencialmente prospecção de mercado. Em 1992 decidiu fazer-se a Escom. Estávamos num período eleitoral que desembocou numa guerra em Luanda e que se generalizou a outras partes do país. O que resultou em dez anos de grandes dificuldades. Nós passámos por grandes dificuldades, nesse período. O facto de terem permanecido durante esse período também abriu portas? Abriu, claro. Fundamentalmente, deu uma grande confiança aos angolanos do nosso propósito de estar no país, investir ali. Depois, em 1995, decidimos investir e lançar a African Markets Development Ltd (AMDL) – um conjunto de três empresas: era a grande accionista da Air Gemini, da Starfish e de uma área de distribuição que montámos e descontinuámos mais tarde. Foi o primeiro grande projecto de investimento que fizemos em Angola. Como alargaram as áreas de negócio? Entre 1997 e 1998 decidimos investir noutros sectores, incluindo a mineração e, fundamentalmente, os diamantes. Havia uma enorme campanha internacional contra Angola por causa dos diamantes de sangue e da guerra. Eu queria mostrar que era possível uma empresa de nome internacional investir de forma séria e transparente no sector. Começámos com um projecto de aluvião e passados dois anos solicitámos uma concessão numa área mais complexa, a quimberlítica. Depois de muitos meses foi-nos concedido o quimberlito do Camatchia-Camagico, no Luó. Iniciámos os investimentos em 1998-1999 e está hoje entre os dez maiores projectos de mineração do mundo. Anos depois o Governo angolano concedeu-nos mais 14 concessões que estão na fase final de prospecção. Isto deu-nos alguma dimensão e grande experiência em termos de parcerias e deu-nos a possibilidade de investir no interior de Angola, que era uma área muito necessitada. Hoje a mineração representa para nós cerca de 1100 postos de trabalho no interior – chegará aos 1400 empregos quando o Luó estiver em velocidade de cruzeiro. É um sector em franco desenvolvimento. Mas já não é a principal área de negócio… É uma das principais. Hoje temos um sector muito importante que é a área imobiliária, onde entrámos em 2001, com o Edifício Espírito Santo – que é o edifício mais alto de Luanda. O objectivo era fazer uma grande construção que fosse uma referência do nosso posicionamento em Angola. Que outros investimentos têm nessa área? Com o sucesso desse projecto lançámo-nos de imediato noutros e hoje temos projectos em carteira e em construção em Luanda, Benguela, Lobito e Soyo que nos dão uma grande responsabilidade. Temos uma parceria com a Camargo Corrêa, um grupo brasileiro, que muito nos honra. Também estão no sector energético… Foram-nos entregues pelo Governo três barragens na província de Lunda Norte [Luó, Luapasso e Camanenga] que estão em construção. É um projecto muito importante porque fornece energia às nossas áreas de mineração e abastece as populações. E depois tem a parte de ‘trading’... É um eixo fundamental do abastecimento dos diversos projectos que temos em Angola. A logística é um factor muito importante em Angola e ter essa componente dá-nos uma grande segurança relativamente às restantes operações. Em que novas áreas pretende entrar? Assinámos recentemente um acordo com o grupo angolano Gema e com a Camargo Corrêa para fazer uma fábrica de cimento em Lobito, a Palanca, que estará pronta dentro de 30 meses e irá produzir 1.250 toneladas de cimento. É um projecto muito importante porque nos permite entrar numa zona muito importante: Lobito e Benguela. E é um negócio muito interessante porque Angola esgotou a capacidade de fornecimento de cimento, dado o crescimento da construção e da economia. Porque é que Benguela e Lobito são importantes? Além dos investimentos na área imobiliária, estamos a ultimar o arranque do projecto das bananas com a Chiquita, uma parceria com um grupo americano em que vamos fazer 3000 hectares de bananas, maioritariamente para exportação. Entrámos por aqui no sector agrícola, que a Escom também quer desenvolver porque é importante para a economia. Queremos contribuir para a sustentabilidade da economia angolana. O grupo funciona muito como uma plataforma para parcerias... Áreas como a mineração, energia, imobiliário, infra-estruturas e agricultura são, para nós, vitais e é aqui que desenvolvemos parcerias. Temos a vantagem de poder ter parcerias com parceiros internacionais de grande dimensão e com angolanos, que serão os nossos principais parceiros no futuro. Vê-se como um gestor ou mais como um diplomata, um ‘power-broker’? É uma pergunta difícil. Vejo-me como um gestor que tenta contribuir da melhor forma para o investimento e desenvolvimento de Angola. “Gostaríamos que o presidente continuasse” Acha que o presidente José Eduardo dos Santos vai concluir o mandato ou passar o testemunho a meio, como fez Tony Blair com Gordon Brown? Não sei qual é a intenção do presidente José Eduardo dos Santos. O que nós gostaríamos, como empresários e investidores, era que o presidente, como factor de estabilidade em Angola, pudesse continuar por mais algum tempo, para poder consolidar aquilo que iniciou. Se ele abandonar, a sociedade angolana tem maturidade para assegurar uma transição tranquila? A sociedade não evoluiu só no sector económico, no político também e tem hoje uma maturidade que se revela em todas as áreas da sociedade. E acho que vai encontrar soluções para o futuro político e para o pós-José Eduardo dos Santos. “Os recursos humanos são um factor decisivo” É fácil hoje convencer pessoas a trabalhar em Angola? Felizmente hoje é muito fácil. Nós temos duas vertentes, uma, a dos quadros angolanos, a quem damos formação integral nas nossas empresas. Devido ao enorme crescimento, temos necessidade também de ter quadros estrangeiros, essencialmente portugueses, e hoje em dia a facilidade é muito grande. Como tem sido a evolução do número de quadros da Escom? Nos últimos dez anos, tem sido geométrica. Com todas as nossas actividades e este nível de investimento, os recursos humanos são um factor decisivo. Quantos quadros contratam por ano? Em Portugal poucos – hoje contratamos cada vez mais quadros em Angola. Apostamos mais em dar-lhes formação e em integrá-los na empresa, porque consideramos os recursos humanos locais um factor muito importante para a estabilidade da empresa. “Tempo livre é para caminhar” Quais são os seus ‘hobbies’ preferidos? Tenho pouco tempo livre, mas o que pouco tempo livre é para caminhar, para ler. Gosta de andar a pé? Por onde? Sim, caminho muito; o que eu gosto é de caminhar. Para onde? Caminho muito por Luanda, pela marginal, perfeitamente tranquilo, sozinho, caminho muito também pela ilha do Mussulo, onde tenho uma belíssima casa. E que tipo de livros prefere? Gosto de ler ficção sobre África. Agora estou a ler um livro que ajudámos a editar, da história de Angola no século XVII, que é muito interessante e recomendo. Desporto, pratica? Só ou em grupo? Gosto de jogar ténis. Em Angola não jogo com nenhum membro do Governo. Só com colegas e amigos. E também gosta de pescar... Gosto muito de pescar, gosto muito de pesca desportiva – quando tenho tempo, ao fim-de-semana. Escreve muito? Pensa em escrever um livro, um dia? Livro de memórias, estou a tentar começar a escrevê-lo, dar início a isso. Estive a recolher documentação e vou escrever, com certeza, dentro dos dois ou três próximos anos. Perfil: Helder Bataglia Nasceu há 61 anos em Benguela e era o único branco na sua escola. Durante o serviço militar em Cabinda, onde se especializou em acção psicológica – convencer o inimigo a mudar de campo – era o único branco num batalhão negro. Nunca o incomodou. Mesmo porque não há quem não o reconheça como um dos portugueses que mais entende o espírito africano. Casado, de espírito reservado e ideias fixas, tirou engenharia industrial no ISEL e rapidamente voltou para Benguela, onde inaugurou a Soseca, a sua primeira empresa, em 1972. A independência de Angola, em 1975, impôs a nacionalização do negócio e o regresso do empresário a Portugal. Não ficou. Rapidamente partiu para o Médio Oriente, ligado a empresas exportadoras portuguesas com negócios naquela região. Voltou a casa – é assim que sente Angola – em 1992, para responder a um convite do Grupo Espírito Santo: criar a Escom, que transformou no maior investidor português em Angola. Lusa
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