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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Entrevista com Pinda Simão: "Triplicou o número de alunos no sistema educativo angolano" Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
16-Ago-2008
O vice Ministro da Educação para a Reforma Educativa, Pinda Simão, falou em entrevista ao Jornal de Angola sobre os sucessos obtidos no sector e revelou que o ensino básico inclui, neste momento, praticamente todas as crianças com a idade adequada a esse grau de ensino. O combate ao analfabetismo é uma prioridade do Governo e peça fundamental para Angola atingir a meta “Educação para Todos”, até ao ano de 2015.
P- O sistema educativo já está estabilizado?

R– Está praticamente estabilizado, até porque mesmo durante os anos difíceis da guerra nunca parámos. A instabilidade política e social resultante do flagelo da guerra afectou muito o sistema educativo, mas nunca desistimos. Quando em 2002 conquistámos a paz, foi possível revitalizar o sistema educativo num ritmo muito acelerado. Nestes seis anos conseguimos a estabilização.

P-Essa estabilização como se traduz em números?

R– De 2002 até este ano lectivo, os efectivos escolares cresceram 124%. No ano da paz, tínhamos 2.558.236 alunos. Este ano lectivo arrancou com 5.736.520 alunos, quase triplicámos os efectivos. Isso só foi possível com a estabilidade política e social.

P– Qual é a dimensão do ensino básico nesse total?

R – Em 2002, tínhamos 1.733.549 alunos no ensino básico. Neste ano lectivo, já temos 3.757.677 alunos, o que equivale a um aumento de 117%. Como se pode ver, o número de crianças no ensino básico mais do que duplicou. A paz teve, sem dúvida, um grande impacto na vida do sistema educativo. Mas no Ensino Superior o salto também foi muito significativo. Passámos de 20.000 alunos, em 2002, para 70.000, em 2008, entre escolas superiores públicas e privadas. Mas o ensino superior público representa quase 70% do total de estudantes.

P – O Ensino Superior público está a crescer?

R – Cresceu de uma forma significativa nos últimos seis anos e continua a crescer. Temos núcleos da Universidade Agostinho Neto em todas as capitais provinciais e criámos novas áreas de formação, como a Escola Superior de Ciência e Tecnologia em Saurimo, que faz formação na área da Engenharia Electromecânica e de Minas e a Escola Superior de Ciência e Tecnologia do Namibe, com cursos na área das Ciências do Mar. Estas escolas são muito recentes, este ano estão a sair os primeiros licenciados.

P – O sistema educativo continua a crescer?

R– Está a crescer. Na Reforma Educativa criámos o grau de bacharelato. No sistema anterior era um patamar, agora é o grau terminal de um nível intermédio. Assim temos mais técnicos e mais cedo no sistema produtivo, o que vai revitalizar vários sectores da economia, sobretudo o industrial. Estamos a crescer mas queremos associar a evolução quantitativa à qualidade.

Inovação no Ensino Básico

P – Vamos regressar ao Ensino Básico. Qual é a situação actual?

R – Neste sector houve uma grande inovação e temos registado êxitos. Quando analisámos o anterior sistema, verificámos que reduzir o ensino básico a quatro classes era insuficiente, havia uma grande disparidade entre os conteúdos dos programas de ensino e o tempo que os alunos tinham para aprender toda a matéria. Havia pouco tempo para aprender muito. Por isso, agora temos a Escola Primária com seis anos de ensino e as crianças têm um único professor. As disciplinas foram reorganizadas, para se consolidar a aprendizagem. Queremos que as nossas crianças adquiram conhecimentos para prosseguirem o Ensino Secundário sem dificuldades.

P– Qual é a base da aprendizagem nas Escolas Primárias?

R– O núcleo central é a aprendizagem da Língua Portuguesa e o exercício de cálculo. O objectivo é melhorar a base da pirâmide educativa, porque havia falta de qualidade nos alunos que seguiam para o Ensino Secundário e depois essa falta de qualidade acabava por chegar ao Ensino Superior. Isso tornava o sistema ineficaz.

P – Já existem resultados dessa reforma?

R – Ainda. Só temos os primeiros indícios dos quatro anos de reforma. Mas há um elemento muito positivo. No antigo sistema tínhamos uma taxa de reprovação na ordem dos 32%. Hoje essa taxa é de 22%. Ganhámos 10 pontos em apenas quatro anos. Na conclusão do ciclo, os números são também significativos. Antes apenas concluíam os quatro anos de escolaridade 46% dos alunos, hoje concluem 57%. Também ganhámos aqui nove pontos. Se continuarmos com esta tendência, atingimos níveis de eficácia e aproveitamento rentáveis e correspondentes às necessidades das populações.

P – Têm algum instrumento para testar a eficácia da escolaridade obrigatória de seis anos?

R– O sistema está constantemente a ser testado, mas no final deste ano lectivo vamos fazer exames de Cálculo e Língua Portuguesa a uma amostra de 10.000 alunos, para fazermos uma aferição concreta dos seus conhecimentos. Escolhemos estas duas disciplinas porque elas são essenciais para o prosseguimento dos estudos e porque no passado era no exercício de cálculo e no Português que se registavam as grandes deficiências de aprendizagem.

P– O Ensino Básico exige muitos professores. Como está a ser resolvido esse problema?

R – Nós temos um programa de formação de professores em todo o país. Nas 18 capitais provinciais existem Institutos Normais de Educação, com núcleos em vários municípios. Temos também as Escolas do Magistério Primário. E num projecto de cooperação com a Acção de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP), uma ONG norueguesa, estamos a formar professores para o ensino rural. Estes técnicos são ao mesmo tempo dinamizadores das comunidades, porque desenvolvem programas nas áreas da saúde, lazer, desporto, cultura, abastecimento de água. Em 2002, tínhamos 83.601 professores no total do sistema educativo. Hoje temos cerca de 180.000 e, destes, mais de 70% são do Ensino Primário.

Explosão do Ensino Básico

P – O número de professores vai crescer nos próximos anos?

R – Claro que sim. Tem de crescer, porque até 2015 queremos vencer um desafio a que nos propusemos: Educação para Todos! A evolução, sobretudo nos últimos quatro anos, leva-nos a concluir que a meta vai ser atingida. E “Educação para Todos” é para as crianças e jovens em idade escolar, mas também para os adultos que não tiveram acesso à educação ou foram forçados a abandonar os estudos. Nestes últimos anos foi feito muito e muito há ainda para fazer.

P – Tem números sobre a taxa de escolarização?

R – A taxa bruta de escolarização é superior a 135.8%, quando em 2002 era de 68.2%. Este número revela-nos que temos no sistema alunos com idade superior àquela que deviam ter. No Ensino Básico, se tivéssemos em linha de conta apenas as crianças dos seis aos 11 anos, a escolarização era já plena. A taxa líquida é superior a 70% e falamos de crianças com a idade requerida para estar na Escola Primária. O ritmo de evolução é muito elevado e vai manter-se, porque o Estado e as famílias estão de mãos dadas na educação das crianças.

P – Tem havido adesão das populações à escolaridade obrigatória?

R– Sim, desde sempre. Depois da paz, em 2002, a província do Bié estava no grupo das províncias com mais dificuldades de escolarização. Num tempo recorde, as escolas triplicaram porque as populações se associaram ao Governo na sua construção. Este fenómeno multiplicou-se por todo o país. Em Angola há uma grande apetência para ir à escola, para aprender. Por isso, não tem sido fácil responder à procura educativa da população. Os alunos duplicam e triplicam. Mas os professores têm um ritmo de crescimento mais lento. Mesmo assim, passámos de 83.000 para 179.000, o que significa um aumento de 96.000 professores em apenas seis anos.

P – E a construção de escolas está a acompanhar esse ritmo acelerado?

R – A construção de escolas também está com uma dinâmica muito forte. Nós decidimos descentralizar e as escolas primárias são da responsabilidade dos Governos Provinciais, foram eles que assumiram integralmente o investimento nas construções e o Ministério da Educação disponibiliza os professores necessários a cada escola.

Ensino Técnico e Profissional

P– E as Escolas Secundárias, que são da responsabilidade do Governo Central?

R – Nós construímos 53 escolas secundárias em apenas dois anos. Só no ano passado foram construídas 20 escolas, das quais 13 na área do ensino técnico-profissional.

Outras 33 escolas estão em conclusão, 11 para o ensino secundário e 22 para o ensino técnico profissional, que engloba o sector agrícola, industrial e da economia. Cada província tem um Instituto Médio Técnico. É claro que as províncias com mais população e mais peso económico são beneficiadas com mais escolas do ensino secundário e técnico profissional. Nesta fase apostámos em grandes cidades como Luanda, Benguela, Lubango e Cabinda. Por exemplo, Luanda tem 12 das 53 novas escolas secundárias.

P – E já têm números dos quadros médios formados?

R – Desde que iniciámos este programa, o sistema educativo registou 151.762 alunos, dos quais 51% nas escolas técnico-profissionais. Esta aposta nas escolas técnicas visa dotar a população de competências para uma mais fácil integração no mercado de trabalho. Do número total de alunos no Ensino Médio, já formámos 71%. O nosso objectivo é impedir que a pirâmide educativa afunile no topo, por isso estamos a incentivar o ensino secundário. 92.000 alunos deste nível, até Outubro, vão ter novas escolas.

P– Como são recrutados os professores para este grau de ensino?

R– A grande fonte são os Institutos Superiores de Ciências de Educação. E também estamos a formar professores para as áreas técnicas, recorrendo à cooperação internacional, sobretudo com Cuba e Brasil. O Ensino Superior, de uma forma geral, fornece muitos professores para o nível secundário. As diferentes escolas de Ciências e Tecnologias também têm dado professores. Em 2009, vamos arrancar com um programa de Língua Portuguesa. Portugal fornece 200 professores especializados para a melhoria do ensino do Português nas nossas escolas.

Professores universitários

P– O Ensino Superior também está em expansão?

R – Temos hoje em Angola 16 instituições de Ensino Superior, a Universidade Agostinho Neto, 13 unidades privadas, o Instituto Superior de Relações Internacionais, mais duas Faculdades de Medicina, uma que vai integrar o núcleo provincial de Benguela da Universidade Agostinho Neto e a outra o núcleo de Cabinda. O Ensino Superior tem uma Secretaria de Estado para o sector e o país ficou dividido em seis zonas, cada uma com uma universidade. As zonas de ensino superior englobam duas ou três províncias. É um sector em franca expansão.

P– E há professores para acompanhar esse crescimento?

R – É difícil encontrar no mercado local professores para o Ensino Superior, mas estamos a dar formação no exterior aos que já temos. E mesmo na Universidade Agostinho Neto existem cursos de Mestrado. Também nesta área estamos a recorrer à assistência técnica externa com Cuba, França e Portugal, sobretudo a Universidade de Coimbra e o Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Desenvolvimento Humano

P – A evolução da Educação teve impacto nos índices de Desenvolvimento Humano?

R – É claro que a expansão em ritmo acelerado do sistema educativo teve um impacto tremendo na melhoria das condições de vida dos angolanos. É por isso que não compreendemos a razão pela qual o PNUD, em 2007, colocou Angola no lugar 162º da lista dos países do mundo em termos de Desenvolvimento Humano. Há ali discrepâncias gritantes. Em primeiro lugar, usam números de 2004 no relatório de 2007.

Isto pode parecer sem importância mas é muito importante, porque em dois anos o país deu um salto de gigante na área da Educação. Num país onde a economia cresce a níveis elevadíssimos, muda tudo muito depressa. Mas o PNUD é que sabe por que razão usou os números de 2004, tanto mais que tem uma agência em Angola com acesso aos números actualizados.

P – O combate ao analfabetismo também tem expressão?

R – Neste aspecto, recordo que tínhamos uma taxa baixa de alfabetização e foi a UNICEF que corrigiu esse número porque chegou à conclusão, através de estudos, que ela era superior. Durante muitos anos, apresentávamos 42% e com a correcção da UNICEF agora temos 67%. Nesta área há um programa de alfabetização de adultos que abarca 502.350 pessoas, o que representa um crescimento de 57% em relação a 2002.

Quando dizemos que em 2015 queremos educação para todos, incluímos também os adultos que na idade própria não foram à escola. Desde 2005, também temos um programa diferenciado de recuperação do atraso escolar, para aqueles que por qualquer razão tiveram de abandonar a escola.

P – Quais são as metas de redução do analfabetismo?

R – Até 2015, queremos reduzir para 16.5%, isto é, vamos fazer descer a taxa actual em mais de 50%. Esta meta, à velocidade actual, está perfeitamente ao nosso alcance. Nesta tarefa, além do Governo, estão empenhadas as confissões religiosas e várias Organizações Não Governamentais. As equipas de alfabetizadores estão descentralizadas e disseminadas por todo o país. O Ministério da Educação, para estimular o trabalho de alfabetização, paga 100 dólares mensais a cada alfabetizador.

P– A nível regional, qual é o lugar de Angola?

R – Eu prefiro fazer comparações, por exemplo, com o Senegal, que consta no lugar 156.º do Índice de Desenvolvimento Humano. Em termos de Produto Interno Bruto (PIB) o Senegal tem 1.792 e Angola oficialmente tem 2.335, mas na realidade tem cerca de 4.000. O Índice de Educação no Senegal é 0.394 e em Angola é 0.535. A taxa global de escolarização no Senegal é de 39.6%. Nós tínhamos uma taxa de 25.6%, em 2004.

Agora é muito mais elevada, muito provavelmente superior à do Senegal. Analisados estes números, não se compreende a classificação de Angola.

Um matemático na Educação

Pinda Simão é vice-ministro da Educação para a Reforma Educativa e antes fez uma carreira de professor universitário de grande sucesso, na Faculdade de Ciências Agrárias, no Huambo, entre 1976 e 1981. Quando o Engenheiro Augusto Lopes Teixeira “Tutu” foi nomeado ministro da Educação, convidou-o para o seu gabinete e desde então nunca mais abandonou o ministério, onde trabalhou sucessivamente no Gabinete do Plano, Gabinete Técnico, Intercâmbio e Gabinete Internacional.

Licenciado em Matemática, Pinda Simão fez um Mestrado em Planificação de Educação, em França, como bolseiro. Desde então tem dedicado toda a sua vida à Educação, como planificador e gestor.

Pinda Simão é natural da cidade de Maquela do Zombo, província do Zaire. Gosta de conversar com amigos – sobretudo quando o tema é Educação – e de ler. A música, sobretudo a angolana, também faz parte da sua vida.


Fonte:JA
Popularidade: 219
Comentários (2)Add Comment
...
escrito por helena fernandes, Outubro 16, 2008
sou professora titular de português no ensino secundário, em Portugal . Leccionei e vivi em Luanda durante vários anos
Como posso concorrer para leccionar de novo em Luanda (ou qualquer outro lugar) ,visto que em 2009 prevêem a contratação de 200 professores de português?
Concurso normal? - em que data,prazos?
Recrutamento ? Nomeação? Gostava muito de saber...
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...
escrito por Robson Coxe dos santos, Outubro 09, 2008
Gostei muito detas respostas. E pude aprender muito Sobre a educação em Angola
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