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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Música: Entrevista a Barcelo de Carvalho "Bonga", sua vida, juventude, carreira musical, e projectos Imprimir e-mail
Escrito por .oO( Cfr. no fim da página )Oo.   
21-Abr-2008

Barcelo de Carvalho "Bonga", músico angolano nascido em Kipiri, norte de Luanda, concedeu uma longa e pormenorizada entrevista ao Jornal Regional, aonde entre os vários temas realçou a sua experiencia em terras Holandesa durante a década dos 70.

Obs: Trazemos esta entrevista por questões de curiosidade e informação.

 

Jornal do Seixal: Bonga começamos pelas origens?
Bonga:
Pergunta tudo o que você quiser

Image

 

 

 

 

 

 

 


Bonga

J.S.: Onde nasceu?
Bonga:
Nasci e fiz a minha infância em Kipiri, uma pequena localidade a norte de Luanda. Depois os meus pais vieram para Luanda e eu cresci com aquela desenvoltura toda dos africanos daquela época, em que a gente tinha que dar o corpo ao manifesto, jogar à bola, correr e ao mesmo tempo estudar. Isto foi uma juventude muito turbulenta.

J.S.: Começou então a praticar desporto e afirmou-se em alguma modalidade?
Bonga:
Pratiquei várias modalidades, mas comecei a afirmar-me no atletismo. Aliás foi por essa razão que vim para a metrópole.

J.S.: Como?
Bonga:
Vim oficialmente para o Sport de Lisboa e Benfica e para a selecção nacional de atletismo. Aliás como outros amigos meus daquela época. Não vim para conhecer Portugal propriamente dito, mas vim para participar numa prova.

J.S.: E Esteve a praticar atletismo no SLB quanto tempo?
Bonga:
Oh! Seis anos, de 1966 a 72.

J.S.: Como foi a integração aqui?
Bonga:
Foi um bocado problemática, até na convivência de uns com os outros e o povo português naquela altura vivia com muita pobreza, não era só em Angola que se vivia mal. Era uma situação complicada que eu não entendia muito bem, mas finalmente cheguei á conclusão que os tipos que nos discriminavam e tinham aquela autoridade lá fora, eram os mesmos que estavam aqui a mandar e tinham o mesmo tipo de comportamento que tinham connosco lá em baixo (em África). Nessa ocasião comecei a absorver muitas coisas que para mim foram importantes, em termos de informação e depois a fazer amigos. Mas também havia cá uma comunidade africana muitíssimo grande. Já naquela altura a gente ia ali para o piquenique do Rossio, onde se encontravam os atletas todos, principalmente os futebolistas. Aí as amizades com o Eusébio, o Mário Coluna, o Santana, todos. E depois havia os marítimos, o pessoal que andava nos barcos e com quem aqui nos encontrávamos. Fazíamos as tais festas onde nós conseguíamos matar as saudades que tinha-mos de Angola.

J.S.: Mas depois foi para a Holanda, porquê?
Bonga:
Estava informado das situações da nossa terra, sabia que havia reivindicações a fazer e uma opinião vale mais quando a gente é conhecido. Daí que fiz várias participações que faziam parte da minha consciência muito importantes e algumas delas com pessoas que já haviam estado presas. Então tive que abalar daqui para fora, por razões políticas claro.

J.S.: Foi então uma emigração política?
Bonga:
Exclusivamente política. Se continuasse aqui a vida não me ia correr nada bem.

J.S.: E como foi essa integração na Holanda?
Bonga:
Muito difícil. Primeiro por causa do clima, aquilo é muito mais frio que aqui, o que para um africano já é difícil, então imagina lá. Depois a língua, que eu não falava e não entendia. Aí foram os cabo-verdianos que me ajudaram a integrar.

J.S.: Mas foi na Holanda que gravou o primeiro disco!?
Bonga:
Foi na Holanda em 1972 que gravei o meu primeiro disco que foi o princípio de tudo e o que me lançou para aquilo que sou hoje.

J.S.: Como foi que isso aconteceu e em que contexto?
Bonga:
Eu já trazia formação musical desde Angola e havia aquelas coisas que eu já cantava nas festas que a gente dava e a malta dizia porque é que não cantas esse sentimento que tu tens, essas coisas que tens acumuladas, porque é que não gravas? Foi então que experimentei com a ajuda do Humbertone e do Mário Rui de Angola e com numa editora de Cabo Verde que já gravava os músicos caboverdianos. Então chegou a minha vez. Gravou-me a mim também, mas não me dei conta que ia ter aquele impacto todo. Primeiro aquela voz rouca que eu não achava que tivesse aceitação, depois o publico que eu não sabia se existia.

J.S.: Quem é que compôs as músicas e as letras para o primeiro disco?
Bonga:
Fui eu claro! Pois em Angola eu já tinha tido uma iniciação artística, mas sem cantar. Nós participámos numa corrente informativa para dar divulgação das músicas, do folclore da nossa terra. Sim porque os colonos não faziam nada daquilo, nem queriam saber da música folclórica de Angola, até passavam outra música como um Estado colonizado. Mas nós organizávamos as nossas músicas, organizávamos os nossos grupos e tinham muita aceitação popular. Ora como eu já tinha participado nisso, já cantava as nossas músicas e fazia as nossas letras, poesias e não sei quê, estando cá fora passei a fazer aquilo que não tinha sido possível fazer lá. Depois com aquela voz rouca que eu também não acreditava muito e por isso não me atrevera. As músicas tinham a ver com revolução e eram músicas de intervenção.

J.S.: Quais eram as músicas dessa altura?
Bonga:
Olha era “aquela mona qui guinchiça”, era o “balunguqueno” , o “baxinungongo”, uma data de músicas que foram as primeiras, mas eram essencialmente politicas. Foram essas músicas que fizeram de mim o homem que sou, porque logo a seguir essas músicas tiveram um impacto tal que foram usadas por todos os partidos políticos de Angola, como por todos os nacionalistas da minha terra.

J.S.: Mas manteve sempre alguma distância dos partidos políticos!?
Bonga:
Há sim! Porque cheguei logo à conclusão que não dava, não podia estar a militar num partido, quando estava a cantar para todos os angolanos, não é verdade!? Assim como para toda diáspora e para toda uma população negra de expressão portuguesa. A partir daí tomei uma posição sempre coerente, muito embora tivesse alguma simpatia por este ou por aquele. Porque a Democracia é isso. Ai de nós se fechamos as portas e só comunicamos com este ou com aquele, que foi o que acabou por acontecer um pouco por toda a África. A África viveu as guerras, por falta de visão democrática e de respeito pela opinião das pessoas.

J.S.: Porque é que nunca regressou para Angola?
Bonga:
Não dava, fica esquisito. Então tornei-me profissional nesta actividade de cantar, vou com 35 anos de carreira profissional, a trabalhar sempre, com 35 discos editados. Tenho um empresário na França, tenho o meu editor na França, patrocínios na França. A situação aqui está muito difícil, mesmo para os portugueses. Vivemos condicionados na RTP África, os portugueses nem aqui passam na FM. Então eu o que seria de mim. Voltar para Angola, por amor de Deus, mesmo que eu não vivesse só da música, e por muito que eu goste da minha terra não podia voltar para um País onde faltam ainda muita coisa e limar muitas arestas.

J.S.: Mas é recebido em ombros quando lá vai!?
Bonga:
Por aquele Povo! Eu canto o sentimento daquele Povo, eu sou uma parte, do que se diz da coerência do “Sempa”, que é a música da nossa terra mais propagada. Sou sempre bem-vindo e bem recebido, gostariam de me ter lá todos os dias. E eu pelo Povo seria capaz de pensar duas vezes em me lá fixar. Sabe que eu já fui proibido em Angola mesmo pelo governo de Angola. Proibido pelas televisões a não representar, pela minha posição.

J.S.: E porquê?
Bonga:
Naquela altura eram marxistas e leninistas, complicavam um bocadinho, os comunismos da vida, não é verdade! Eu quero dizer que tudo isso mudou, felizmente para mim, porque eu fui daqueles que sentiu na pele uma tal mudança radical.

J.S.: Não tem um posicionamento político definido?
Bonga:
Eu tenho um posicionamento político definido que é aquele em prol desse grande Povo e o Povo o que é que quer? O Povo quer liberdade, democracia, quer comer quer encher a barriga, assistência médica e quer sobretudo que os filhos evoluam na vida. Essa é a minha posição politica, agora se houver partidos que defendam isso, eu estou com eles.

J.S.: E da classe politica de Angola, que opinião é que tem?
Bonga:
Eu dos políticos tenho as minhas reticências e as minhas dúvidas, os políticos africanos deram muito pontapé no charco. Por vezes a falta de liberdade e de democracia faz com que não estejamos bem uns com os outros. Foi triste, foi triste demais, vivemos a guerra de uma forma sangrenta e terrível, fizemos mal, mesmo aqueles que fizeram a guerra hoje estão arrependidos. Quanta gente morreu, os estragos que a gente causou à nossa terra de origem e hoje estamos aí, todos, porque todos somos culpados.

J.S.: Mas com a Paz virou-se uma nova página!

-Virou-se uma nova página, mas também a gente hoje precisa que as pessoas que tenham fome comam, que as crianças que andam na rua estudem, tenham comida e tenham assistência medicamentosa. Parece pedir de mais, mas não é sobretudo quando se trata de um País como Angola que tem ouro, diamantes, petróleo etc., etc. Espera aí! A gente tem onde ir buscar. Se não tivesse eu dizia, a comunidade internacional deve ajudar, a gente aqui tem de apoiar, mas não é o caso. Se tem onde ir buscar a prioridade têm que ser os filhos de Angola, como fazem os europeus. A Europa está-se a organizar para que os europeus vivam melhor, sejam mais felizes. Porque é que Angola não faz o mesmo?

J.S.: Então, mas acredita no futuro de Angola?
Bonga:
Eu acredito no futuro de Angola, principalmente com essa juventude, com esse sangue novo que está aí a chegar e que já teve uma grande experiência com outros países, porque eles já provaram a democracia, já provaram a liberdade, eles já se manifestaram cá fora. É essa juventude que tem que nos dar a certeza de que são capazes de ir para a “frentex” nesse clima que a gente precisa para que o nosso povo seja feliz.

J.S.: Voltando à música, dos 35 álbuns já gravados qual foi para si o mais importante?
Bonga:
Há foi o primeiro! O primeiro é que definiu tudo. Se não fosse esse primeiro hoje eu não sou artista, seria outra coisa.

J.S.: O que é que contribuiu mais para essa afirmação artística?
Bonga:
Não sei, mas acho que acima de tudo é o temperamento que eu tenho. A partir daí sinto que tudo se realiza, tudo se junta, eu sou muito claro com as pessoas, não gosto de evasivas, falo com elas directamente. Acho que transporto também isso para o palco e quando estou a cantar faço disso uma festa. Reunir pessoas, diminuir os preconceitos que possam ainda existir e a partir daí, o meu canto, sinto que entra nos ouvidos das pessoas, na vida das pessoas, vai a casa das pessoas. Dançam comigo, cantam comigo. É uma comparticipação muito boa. Tenho hoje consciência disso e também que estou a dar um tributo à afirmação de Angola.

J.S.: Mas não é só para os Angolanos que canta. Nos espectáculos faz também apelos às outras comunidades de África?
Bonga:
Desgraçado de mim se cantasse só para os Angolanos! Nos meus espectáculos eu procuro em primeiro lugar representar Angola e a sua música específica e depois quero evocar essa África para dizer que não é só de tristeza que vivem os homens africanos que há algo que cada um traz consigo para confraternizar com as pessoas. Depois estando em Portugal, principalmente neste lugar que também me acolheu lhe faço também uma ovação. Porque, eu reconheço ter recebido de Portugal e do Povo Português este abraço e este carinho como desportista e como músico.

J.S.: Em jeito de antevisão, o que é que vamos ter logo à noite?
Bonga:
Oh! Logo á noite vamos ter festa. A gente chega e vê o público, apalpa, e esse primeiro impacto é fundamental, mas isso tem que ver com o carisma do artista. Eles chegam e começam logo a gritar “o corrumba”, “a lágrima no canto do olho”, “a Mariquinha” e a gente canta porque canta o que eles gostam. Eu sou um privilegiado porque tenho um conjunto de músicas que as pessoas pedem sempre. Posso ter um disco novo que acaba de sair, mas quando chego na praça eles pedem as que já conhecem e eu canto com todo o gosto porque as pessoas me acarinham. Portanto eu vou fazer uma festa como faço em todos os espectáculos, as pessoas cantam, bebem, dançam, quero mais é que isso aconteça porque o espectáculo é isso também!

J.S.: Uma última mensagem, sobre estas festas e o momento que estamos a viver nesta altura do ano?
Bonga:
Eu acho que a melhor coisa que Portugal faz é quando se reencontram as pessoas e não apenas nesta altura das férias e com os emigrantes, o turismo e tal… Portugal tem umas festas muito particulares que não há noutros países da Europa e isso é muito bom. A gente chega e encontra sardinha assada, os chouriços, a dobradazinha, a água-pé etc. etc. essa particularidade portuguesa é que é a felicidade de Portugal e dar continuidade a isso é fundamental, quer seja organizado pela Junta de Freguesia ou não… Eu lamento é ver outras festas organizadas de maneira tão formal e até com estrangeiros que não têm nada a ver com Portugal, se gastam ás vezes até milhões e acabam por não ser, ou ser muito pouco vividas pelo povo português. Aquelas festas populares que até têm aquele definição prejurativa de aldeia e tal, têm para mim muito mais significado e importância que algumas festas no “musicoll internacional”. Lamento porém que muitas vezes para se fazer um espectáculo completo com uma orquestra e todos os músicos em palco, não se consiga (como é o caso) porque as organizações não têm verbas para o suportar nessas condições. Horas mais tarde Bomga subiu ao palco das festas de Paio Pires e a professia concretizou-se em toda a sua plenitude. Com banda sonora gravada, as coreografias de duas excelentes bailarinas. O espectáculo foi pleno e interactivo do principio ao fim. Lá vieram a pedido do publico o “Corrumba”, a “lágrima no canto do olho”, a “Mariquinha” etc. mas também outras canções marcadas com muito sentimento, emoção e arrepio que relatam sonhos, angústias e quimeras de um povo fustigado pela guerra, que nunca perdeu a esperança de ser feliz. No final fomos aos bastidores e registámos o contingente do costume, pessoas oriundas de vários locais para ali no final dar “aquele abraço” ao Bonga, falar da terra ou de outros encontros.

F: Jornal Regional,
Obs: Trazemos esta entrevista por questões de curiosidade e informação.

Popularidade: 387
Comentários (1)Add Comment
...
escrito por BAPTISTA LEONEL FARIA, Julho 09, 2008
EU SOU ANGOLANO E CONSIDERO O BONGA UM DOS MELHORES CANTOR DO MUSICOOL ANGOLANO E NÃO SÓ E QUIÇA EM AFRICA E POR ISSO,E E UM ORGULHO PARA TODO O POVO ANGOLANO
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