Em Angola vive-se pela primeira vez no post independência, um momento em que se pode iniciar a projecção futura da evolução da identidade nacional. A nível externo, por um lado, Angola ainda não se enquadrou devidamente nos planos das vastas regiões como o Golfo da Guiné, da África Central e da África Austral, por outro, a ausência de tiros abre a possibilidade de estabelecer estratégias, das quais hoje se podem fazer incubar os embriões.
A nível interno, o triângulo estratégico que tem o litoral como base e vértice na Região Central das Grandes Nascentes, foi desde a independência e apesar das sucessivas convulsões, decisivo para o movimento de libertação garantir não só a soberania nacional, mas dar resposta às ameaças que partiram não só do regime do “apartheid”, mas também daqueles regimes como o de Mobutu no então Zaire, que foram exemplo de neocolonialismo, essencialmente incentivados por interesses corporativos Norte Americanos e associados, no período final da Guerra Fria.
Perante o modelo de globalização eminentemente neoliberal, que tem impactos profundos no actual quadro económico, sociopolítico e cultural em Angola, como a identidade nacional, moderno fruto das resistências derivadas do movimento de libertação, irá evoluir? Que respostas e expectativas podem ser equacionadas, num quadro desta natureza, que visem fortalecer a construção consolidada da identidade nacional? Com a globalização neoliberal que tem sido imposta a partir do final da Guerra Fria e explorando o colapso do socialismo na Europa e na Ásia, nas três regiões da África Subsaariana acima enumeradas, os Norte Americanos e os projectos a eles associados, levam vantagem em suas influências e sobre as possibilidades de gestação de novas estratégias, o que se reflecte e reflectir-se-á inexoravelmente na construção da identidade nacional angolana.
O petróleo “offshore” angolano, sobre o qual os Estados Unidos e a Europa possuem vantagens incomensuráveis em termos de influências de ordem política, económica, financeira e geoestratégica, determinam para Angola um papel importante, senão crucial, no Golfo da Guiné, se tivermos em conta a posição geográfica dos dois minúsculos países insulares de colonização latina – São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial, com os quais Angola se relaciona comparativamente a outros com relativas vantagens (não é por acaso que a Guiné Equatorial pretende fazer parte da CPLP).
Esse agrupamento é geoestrategicamente mais determinante para o “offshore” ocidental africano que a Nigéria, ou os países francófonos da região, apesar dos suportes que possuem e os Norte Americanos dão indicativos, inclusive com a AFRICOM, de procurarem valorizar isso em benefício de sua própria estratégia, mesmo que façam esforços com uma cosmética de “integração”.
Angola contudo não possui tradição marítima e as suas estruturas navais são incipientes, em terra e no mar.
Durante o colonialismo e apesar de Angola possuir um mar muito rico (beneficiando da fauna e flora subaquática característica da corrente fria de Benguela e da água dos rios que flui para o mar ao longo de praticamente toda a sua costa), nem sequer nas pescas os portugueses dinamizaram medidas que causassem impactos de desenvolvimento sustentável na sociedade angolana: os angolanos serviam de mão-de-obra para a faina das pescas, em terra e no mar, sendo muito difícil ultrapassar esse “estágio”.
Só agora com a ausência de tiros, o estado angolano está a adoptar e disseminar planos mais ambiciosos e alargados para que as comunidades vocacionadas para o mar se lancem em actividades muito melhor estruturadas e dinamizadas num quadro de progresso, em termos de desenvolvimento sustentável.
O que os Estados Unidos estendem apelativamente à identidade nacional nesse sentido (tendo em conta as características da distribuição da população e a ocupação do território), para lá dos relacionamentos políticos, económicos e financeiros para com o estado e com impactos na nova elite em gestação, merece reserva, por que Angola, para lá de não possuir tradição marítima apesar do rico mar que banha a sua costa, encarou por um lado e durante muitos anos, as estratégias Norte Americanas no continente africano como contraditórias aos interesses eminentemente nacionais na continuidade do movimento de libertação (mesmo que as multinacionais do petróleo tivessem relacionamentos abonatórios), por outro, perante o caos gerado pela administração Bush no Médio Oriente e a iniciativa recente do AFRICOM, a presença no mar de potências como os Estados Unidos e a França, os angolanos sabem que determina mais dependência que “integração”.
A essa reserva, juntam-se factores de ordem psicológica e socioculturais de parte a parte, em função dos relacionamentos históricos existentes entre as nações de traço latino, perante as de traço anglo-saxónico.
Os relacionamentos estimulados a partir do processo de identidade nacional com a África Central, para além do papel dos Estados Unidos sempre a ter em conta, não possuem ainda factores suficientes que dinamizem incrementos que levem a uma maior afirmação angolana e, a título de exemplo, Angola atrai muito mais migrantes provenientes da África Central, do que fornece fluxo migratório para com eles (incluindo no que toca a relacionamentos com vizinhos como a República do Congo e a RDC).
Desse modo, continuando com os exemplos, o francês é a segunda língua europeia mais falada a norte de Angola, por influência dos contínuos fluxos migratórios provenientes dos países da África Subsaariana, quando a língua portuguesa é um factor externo, resultante do tipo de colonização a que Angola foi sujeita, que muito se distingue no processo de formulação da identidade nacional.
Os conflitos crónicos que têm afectado vastas regiões na África Central e Grandes Lagos, assim como o grau de subdesenvolvimento que afecta duma forma geral as populações, são factores não estimulantes à migração de angolanos para essas paragens, apesar de haver muito comércio nas fronteiras com o Congo e a RDC.
Para uma identidade que persegue bastante homogeneidade, com traços atlânticos, a via de sua afirmação a longo prazo, não é feita nos campos de batalha, nem em regiões carentes de infra-estruturas, de estruturas e com dificuldades de implementação de suas próprias estratégias nacionais.
A identidade nacional angolana, para se poder melhor afirmar, possui essencialmente, perante o quadro africano, duas opções:
- No plano nacional, sem prejuízo de mais dinamismo em termos de suportes de desenvolvimento sustentável no litoral, a possibilidade de consolidar a sua afirmação e vontade estratégica ofensiva sobre as regiões “de intervenção”, onde são escassas as infra-estruturas e estruturas, onde a população é reduzida e rarefeita a malha político-administrativa (triângulos com base nas fronteiras norte, leste e sul e com vértice confluente na Região Central das Grandes Nascentes).
- No plano internacional, a vocação de relacionamentos com sociedades apesar de tudo (estou a recordar os múltiplos rescaldos do “apartheid” e do tribalismo), mais estruturadas e cosmopolitas, especialmente situadas a sul (linha Namíbia-Botswana-África do Sul).
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