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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Angola vs Xenofobia: A nossa panela de pressão também já está a ferver Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
26-Mai-2008
Pior é que em Angola, no caso da tampa saltar, a violência pode vir a não ter como destinatários predilectos apenas os estrangeiros Não há notícia de que a onda de violência xenófoba que sacudiu a África do Sul nos últimos dias tenha devastado a comunidade angolana. No entanto, não será por isso que as autoridades nacionais deverão cruzar os braços, assobiando para o lado, convencidas de que o nosso país é imune a eventos do género. Não.

Os acontecimentos da África do Sul têm, na sua génese, um problema made in África: o enorme fosso entre pobres e ricos. Deste ponto de vista, Angola está, por conseguinte, no mesmo barco que a África do Sul, não adiantando, assim, pensarmos que é coisa que só acontece aos outros.

As similitudes com o nosso país começam, desde logo, na má redistribuição da renda nacional. As fontes de riqueza repousam nas mãos de uma minúscula elite. Este é o traço comum em ambos os países, mas no caso da África do Sul, o que parece estar a descarrilar mesmo é, essencialmente, o programa designado por black empowerment. Lançado pelo ANC após a extinção do apartheid, o programa tinha por objectivo, pela via da criação de uma classe relativamente numerosa de negros ricos, diminuir rapidamente o desnível social que os separa dos brancos.

Os anos estão a passar e o que se tem visto, na realidade, na África do Sul é que a montanha está a parir uma ratazana daquelas. O black empowerment gerou magnatas negros como Tokio Sexuale e pouco mais, o que não passa de uma gota no oceano. A emancipação económica que se esperava, com o fim do sistema de segregação racial, tarda a chegar à grande maioria de sul-africanos negros.

Somado ao desemprego que continua a galopar na África do Sul, isto está a tomar a forma de um autêntico «cocktaill molotov», acabando por desembocar na situação de violência que o mundo tem vindo a assistir.

Quando a tampa da panela de pressão saltou, na África do Sul, os negros que estão no fim da linha não foram «descontar» imediatamente sobre os ricos do país. A sua raiva caiu sobre os estrangeiros com os quais têm disputado os poucos empregos existentes, gente que está igualmente no limiar da miséria, mas que vivem com eles. Foi isso, no fundo, que se passou na África do Sul: uma crescente pobreza que afecta a maioria, enquanto uns poucos vivem que nem nababos.

O que se passa em Angola tem sido a mesmíssima coisa. Os novo-ricos do país constituem uma fracção ínfima de cidadãos, que fazem o seu pé-de-meia através de um esquema de favorecimentos institucionais e depredação do erário a que não têm acesso a esmagadora maioria dos angolanos. Nos últimos tempos, o crescimento económico do país passou a ser elogiado, mas apenas pelos estrangeiros, que ao lado dos pouquíssimos potentados angolanos são os únicos que têm colhido benefícios dessa bolha de enriquecimento nacional.

A imagem da árvore das patacas adequa-se ao nosso país, para onde são crescentemente atraídos estrangeiros de diversas nacionalidades que montam toda a sorte de negócios, do grande ao de simples quinquilharias, mas todos conseguem furar e facturar, até os malianos e senegaleses que estão no fundo da pirâmide da babel em que Angola se transformou. Todos têm o seu quinhão de riqueza, enquanto a maioria dos angolanos fica a ver a banda a passar.

O temor de que a injustiça social não tenha travão em Angola já levou, inclusivamente, o mais aclamado escritor angolano, Pepetela, a chamar atenção para a possibilidade de emergirem novos cenários de violência. «O circo poderá pegar fogo», disse o escritor em recente entrevista que concedeu ao Novo Jornal. No fundo, o autor de «Mayombe» e «Geração da Utopia» não está a profetizar a desgraça, mas apenas a ver, «com olhos de ver», os problemas que os governantes angolanos tardam a solucionar.

Pior é que em Angola, no caso da tampa saltar, a violência pode vir a não ter como destinatários predilectos os estrangeiros como está a suceder na África do Sul. Entre nós, a raiva surda que reina iria direitinha para os detentores de riqueza de um modo geral. Ou seja, um levantamento em Angola pode não escolher rostos, atingindo indistintamente novos-ricos e até simples cidadãos «remediados».

Este é um problema que apenas se resolve colocando-se, rapidamente, em prática um projecto de governação investido de fortes e genuínas preocupações sociais. Mas que isso tenha um conteúdo prático e não se fique apenas pelo papel. O Governo pode ir a tempo de evitar o pior, se tirar as devidas lições dos acontecimentos que estão a ter lugar na África do Sul.



Fonte:Semanário Angolense
Popularidade: 187
Comentários (1)Add Comment
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escrito por Anna, Setembro 03, 2008
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