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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Cabinda: Ataque de Mankama-Nzila aconteceu há quarenta e sete anos, hist. João C. do Nascimento Gime Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
19-Abr-2008

O historiador João Cláudio do Nascimento Gime disse que o ataque de Mankama-Nzila, levado a cabo por um grupo de 27 aldeões da povoação de Kacata – 50 Km a Nordeste da cidade de Cabinda – a 12 de Abril de 1961, durante o qual foram mortos 56 efectivos das tropas coloniais portuguesas, constitui um marco histórico importante da participação do povo de Cabinda na luta de libertação nacional.

Segundo o historiador, que falava por ocasião da efeméride, entre os 56 mortos do ataque à coluna militar portuguesa estavam o famigerado furriel El Manuel Joaquim, que era o comandante da coluna, e o sargento António Ferreira.
Ocorrido no período da tarde, o ataque, segundo João Gime, foi minuciosamente preparado a partir do então Congo-Léopoldeville, concretamente na aldeia de Yema-Liyanga, onde se encontrava exilado o seu impulsionador, o já falecido pastor da Igreja Evangélica e nacionalista João Baptista Braz (Baza Tchi-Ngunvo), homem supostamente dotado de poderes sobrenaturais.

O ataque de Mankama-Nzila (100 Caminhos, em fiote e kikongo), segundo a fonte que vimos citando, visava, por um lado, reivindicar contra o trabalho escravo a que os aldeões eram submetidos nas roças de café e, por outro, reclamar da administração colonial portuguesa escolas para os seus filhos.



Trabalho escravo

Os aldeões de Kacata, que na altura eram cerca de 250 habitantes, se tanto, trabalhavam dias e noites a fio, recebendo como remuneração valores monetários que apenas serviam para comprar um quilo de açúcar e igual quantidade de café moído.
Outrossim, os habitantes do então posto administrativo de Tando-Zinze, particularmente das aldeias de Kacata, Mankama-Nzila, Ndungo-Buba, Ndjenze, Fubo e Zenze-Lucula, na sua maioria palmadores, conta João Cláudio do Nascimento Gime, eram coagidos a subir diariamente de 15 a 20 palmeiras cada um, para extraírem o dendém destinado à produção de óleo de palma e sabão. Quem se negasse , levava 150 palmatórias.

Na óptica do historiador João Cláudio do Nascimento Gime, o ataque de Makama-Nzila deve ser enquadrado dentro da geopolítica nacional, em virtude de ter sido um dos grandes factores que mobilizou uma grande franja de jovens naturais de Cabinda a juntar-se à luta de libertação nacional e, também, por coincidir com o 4 de Fevereiro de 1961, data em que vários nacionalistas em Luanda atacaram com catanas as cadeias da PIDE/DGS para libertar os presos políticos, dando-se assim início à luta armada de libertação nacional.

O ataque de Mankama-Nzila, ocorrido na aldeia com o mesmo nome, adstrita à comuna de Tando-Zinze, durou cerca de 30 minutos e os seus protagonistas utilizaram na acção espingardas não automáticas, como caçadeiras e canhangulos de fabrico artesanal. Era, dado o potencial armamentista das tropas coloniais, uma luta entre David e Golias.



Aldeões fogem
para o Congo-Leopoldville


Entretanto, após a pesada derrota infringida ao exército colonial português, as populações de Kacata e de Mankama-Nzila, temendo possíveis represálias da parte das forças coloniais, explica o historiador, fugiram horas depois para o então Congo-Leopoldville, actual República Democrática do Congo (RDC).

O seu regresso, depois de longos meses de exílio, só aconteceu porque as autoridades coloniais portuguesas o pediram, através de sucessivas missivas enviadas ao então Congo-Leopoldville.

De regresso a Cabinda e já nas respectivas zonas de origem, afirma João Gime, a administração colonial portuguesa realiza um encontro com as populações regressadas, tendo como objectivo auscultá-las e inteirar-se sobre as razões que estiveram na base do mortífero ataque às tropas de ocupação.

Tudo isso aconteceu, segundo o historiador, numa altura em que a PIDE-DGS, a polícia repressiva portuguesa, actuava de forma atroz contra todos os angolanos que se manifestassem contra o então regime colonial fascista.

Apesar dos métodos repressivos aplicados pela então polícia política portuguesa, os aldeões, conta João Gime, não se deixaram intimidar e disseram, em voz alta e bom tom, que o ataque de Makama-Nzila tinha como finalidade denunciar o trabalho escravo e o não acesso dos indígenas ao ensino, entre outras sevícias a que eram constantemente submetidos.
Esta corajosa resposta, segundo João Gime, custou muito caro às populações de Kacata e Makama-Nzila, porque foi a partir daquele encontro que as autoridades coloniais portuguesas decidiram prender um número considerável de aldeões, tidos então como terroristas. Muitos desses aldeões foram pouco depois transferidos para a cadeia de São Nicolau, hoje Bentiaba, na então província de Moçâmedes, actual Namibe.

Entre outros castigos infringidos aos demais insurrectos, afirma o historiador, foi-lhes vedado o acesso ao ensino, particularmente aos populares da aldeia de Kacata, por, segundo as autoridades coloniais, terem sido estes os principais instigadores da rebelião armada.

A punição, segundo ainda João Gime, forçou alguns aldeões de Kacata a mudarem oficialmente de naturalidade, fazendo um novo registo como sendo naturais da aldeia de Bumbelambuto, para poderem estudar. Quem se identificasse como natural de Kacata não só não tinha acesso ao ensino, como corria sérios riscos de ir parar aos calabouços.



MPLA reconhece heroísmo das populações do enclave

A luta de guerrilha não se faz sem o apoio do povo. Foi com estas palavras que o segundo secretário provincial do MPLA, José Mangovo Tomé, começou a descrever a trajectória militar de cidadãos angolanos naturais de Cabinda durante o processo de libertação nacional.

Para aquele político, a aderência e a contribuição do povo de Cabinda no processo de libertação nacional foi determinante para a independência nacional, já que muitos dos seus filhos, como o comandante Pedro Maria Tonha “Pedalé”, Saidy Vieira Dias Mingas, Nicolau Gomes Spencer, Faty Veneno e tantos outros, deram o seu melhor para que Angola se tornasse em 11 de Novembro de 1975 uma nação soberana e dona do seu próprio destino.

José Mangovo Tomé considerou o 4 de Fevereiro de 1961 e o ataque de Mankama-Nzila de 12 de Abril do mesmo ano como dois importantes marcos políticos que terão motivado os jovens naturais desta parcela do território angolano a aderirem à luta de libertação nacional.

Para aquele dirigente partidário, foi, pois, a partir desses feitos que a repressão colonial se tornou bastante mais contundente, provocando a fuga de muitos compatriotas para o Congo-Léopoldville e Brazzaville, onde cada um ingressou no movimento guerrilheiro que mais lhe convinha.

O MPLA, de acordo com o segundo secretário provincial deste partido, foi o movimento de libertação que teve maior aderência de cidadãos angolanos naturais de Cabinda, porque sempre congregou no seu seio todos os estratos sociais que compõem o grande universo da sociedade angolana.



A contribuição de Cabinda na luta de libertação nacional

A participação do povo de Cabinda na luta de libertação nacional, iniciada a 4 de Fevereiro de 1961, é reconhecida a nível de todo o país, segundo o historiador João Gime, porque foi através do apoio dessa população que os guerrilheiros do MPLA, então movimento de libertação, intensificaram a luta armada contra as forças coloniais portuguesas, estendendo-a para o resto do país.

Aproveitando-se da situação geográfica de Cabinda, que partilha uma longa fronteira com o Congo-Brazzaville, o MPLA, então no exílio neste país, fez do território desta província angolana o seu baluarte na luta contra o regime colonial português, colocando as suas bases militares no interior da densa floresta do Maiombe, especificamente nas áreas de Alto Sundi e Miconje, localidades limítrofes da região congolesa de Dolizie, onde se situava a sua principal base, que albergava na altura quer guerrilheiros deste movimento de libertação, quer milhares de angolanos refugiados que simpatizavam com a sua luta pela dignidade do homem angolano.

De acordo com o historiador João Gime, esta estratégia do MPLA, de concentrar parte do seu efectivo de guerrilha nesta região Norte do país, visando dar um outro impulso e generalizar a luta de libertação nacional, só teve o devido impacto porque o povo, localizado fundamentalmente nas áreas do Maiombe, colaborou.



Colaboração do povo foi total


Esta total colaboração do povo, segundo a fonte que vimos citando, não só permitiu a sua movimentação e instalação no interior de aldeias sem que o exército colonial se apercebesse da sua existência, como também serviu para o reforço das hostes guerrilheiras, com a aderência ao processo de libertação nacional de vários jovens naturais desta parcela do território nacional.

Como exemplo, o interlocutor do “JA” apontou Pedro Maria Tonha “Pedalé”, Domingos Evaristo “Kimba”, Maria Mambo Café, Jorge Barros Tchimpuaty, Santana André Pitra “Petrof”, Faty Veneno, Nicolau Gomes Spencer, Lucas Bayona e muitos outros.
O historiador João Cláudio do Nascimento Gime conta que em 1968, estando ele em Brazzaville a estudar e já como membro da célula do MPLA no bairro Poto-Poto, viu a chegada naquele país de algumas das individualidades acima referenciadas. Foi depois disso que se deu a sua integração no grupo de guerrilheiros liderados pelo então comandante José Mendes de Carvalho “Hoji ya Henda” e Ndunduma we Lepi, grandes estrategos e principais chefes guerrilheiros que iniciaram ataques armados às posições das tropas portuguesas neste período na 2ª Região Político Militar (Cabinda).

“Digo com toda a franqueza que os naturais de Cabinda deram um grande contributo à luta de libertação nacional”, disse, indicando a base militar de Kalunga, situada em Lubomo, concretamente no antigo Centro de Instrução Revolucionária (CIR) no Congo-Brazzaville, como tendo sido o epicentro de partida dos guerrilheiros em direcção ao interior da província de Cabinda para ataques às forças armadas portuguesas.



Cemitério guarda marcas
importantes do passado


João Gime realçou, como prova, a existência no cemitério da Igreja Católica da cidade de Cabinda um espaço onde foram sepultados soldados do exército colonial português tombados durante a primeira acção militar liderada pelo então comandante José Mendes de Carvalho “Hoji ya Henda”, na localidade de Kimongo, comuna de Miconje.
Entre os muitos guerrilheiros que passaram no Centro de Instrução Revolucionária (CIR) de Lubomo, o historiador recorda o comandante Teixeira da Silva “Gika”, natural de Benguela, que veio a tombar já na cidade de Cabinda durante as confrontações militares de 1974 contra a FNLA.

O historiador defendeu, por outro lado, a necessidade de se começarem a registar os factos históricos do passado, para que actos como os de Nkama-Nzila, do 4 de Fevereiro, da Baixa de Cassanje e de várias outras revoltas sejam contadas por pessoas que as viveram e que ainda estão vivas.

Resgatar os valores históricos, sobretudo os que conduziram à libertação e independência nacional, é, para o historiador João Gime, uma tarefa que se impõe, para que as actuais e futuras gerações saibam o que se passou na realidade para que Angola se tornasse hoje uma nação soberana. Falar do passado, segundo aquele historiador, é a melhor forma de um povo construir o presente e perspectivar o futuro. Um povo sem história é um povo sem futuro, disse a rematar.

JA - Bernardo Capita|Cabinda

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Comentários (1)Add Comment
...
escrito por António Duarte, Maio 18, 2008
Acho muito bem explicado.
Embora nascido em Cabinda - Fubo em 1959, não tinha conhecimento da história como está aqui contada.
Muito bem explicado.
Notícias de Cabinda e a sua história são sempre do meu interesse.
Parabéns.
Um abraço deste "Cabinda" a viver em Portugal.
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