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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Memórias de um sobrevivente dos massacres de 27 de Maio de 1977 (II) Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
29-Mai-2008

Nunca é demais repetir! Muitos dos nossos irmãos foram longe demais, pela forma tão cruel e desumana, como nos trataram. Ainda hoje contínuo, perguntando, se de facto tinham consciência no que fizeram-nos e da forma, como o fizeram.

Capítulo II

Interrogatórios da DISA (Carrascos) e Métodos utilizados

 

Não guardo qualquer ódio nem ressentimento, porque ter coragem, para saber perdoar e ser tolerante, são duas grandes virtudes humanas que devemos ter sempre presente, mesmo quando por determinadas razões, a dor ainda vive num dos cantinhos dos nossos corações.

Pois, o ódio e desejo de vingança, deformam a própria personalidade. Aquele que odeia passa o tempo a imaginar como vingar-se julgando que, desse modo, anulará os seus aborrecimentos e encontrará satisfação. Engana-se. O ódio não ajuda a suportar melhor a situação, na medida em que pensar em desforrar-se é antes de mais, pôr sal nas próprias feridas. Quando uma pessoa pensa em desforras, mesmo que não concretize os seus pensamentos, está a queimar-se por dentro. É preciso saber levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima, para que continuemos revelar verdades tão importantes porque finalmente como disse, nunca é tarde. Só assim, saberemos as verdadeiras demissões, atingidas por determinados acontecimentos.


DISA

Escolhiam o silêncio das noites e madrugadas, para trazerem o pânico, medo, terror e levarem muitos dos nossos irmãos feitos escombros e quase cadáveres. Cada um esperava pela sua vez, azar ou sorte pois, tínhamos todos medos de morrer tão jovens que éramos. As listas para a morte ou interrogatórios bárbaros e cruéis, também chegavam pela calada das noites como os furiosos e inclementes, CARLOS JORGE, PITOKO, BONIFÁCIO,PERREIRA, OSVALDO INÁCIO, NELO, MIRANDA, VELOSO, MINGA, TINO-PELIGANGA, (MONTANÉ OFICIAL OPERATIVO da contra-inteligência cubana um dos grandes estratégas da morte lenta em serviço em Angola naquele momento), MIRALES, outro dos vários cubanos que apareciam pelas cadeias para fazerem das suas.

Carlos Jorge, também conhecido (Mariguelas ) era dos mais terríveis e temidos e mesmo até pelos seus colegas, pois era naltura, o patrão e chefe das grandes cadeias como S.Paulo e CR ( casa da reclusão ). Quando este homem entrasse no estabelecimento prisional, a qualquer hora do dia era o pânico total pois ele tinha uma arte e uma engenharia muito própria de como torturar até a morte. Foi um dos grandes improvisadores de vários instrumentos de tortura, como o (enguelelo que era uma autêntica forca). Várias vezes mandava-nos abrir a boca, escarrava-nos e de seguida mandava-nos engolir, são vários os presos, que o tiveram de fazer.

Meus irmãos, não é nada fácil encontrar palavras para descrever este senhor que até fazia alguns interrogatórios, ao som de música, e estou a lembrar-me da música que ele preferia (LONG LIFE AFRICA ), choques eléctricos, alicates para arrancarem unhas, queimaduras com beatas de cigarro, etc. O Bonifácio era mais um lumpem, possuidor de um grande corpo e dono de uma valente forca nos bracos que uma bofetada deste, era quase uma certidão para a surtes. Era um indivíduo muito utilizado para massacres de grande envergadura e diz-se que utilizou várias vezes a baioneta, para mortes de algumas figuras, conhecidas como DAVID-ZÉ e alguma malta do bairro Sambizanga no caso concreto dos manos SIMEÃO E ISAÍAS, jovens muito conhecidos, nos bairros da precol e Sambizanga onde nasceram e praticamente cresceram. Sempre que eram levados, presos para sítios em certos lá estava também Bonifácio a subir na célebre ambulância da morte.

Pereira era um homem alto e magrito, que andava sempre com papeis nas mãos de um lado para outro, e quase sempre acompanhado de um cubano, que usava óculos escuros, o tal ( MONTANÉ ). O mesmo quanto se sabe parava mais na CR e chegou a controlar as várias caves que a DISA tinha improvisada como cadeias, sendo uma delas, a cave do LICEU SALVADOR CORREIA em Luanda.

Osvaldo Inácio, era um dos vários oficiais do CIM (CONTRA -INTELIGÊNCIA-MILITAR), também com a missão de fazer interrogatórios. Quem por ele passou tem muito más recordações, era dos tais que manda assinar documentos, sem que o preso tivesse a possibilidade de ler e deu urina a beber a muitos e até a pessoas que tinham sido, seus colegas no CIM.

Quanto ao Nelo é o homem que prendeu vários jovens do Rangel este surgia sempre na cadeia com uma brilhante Honda que era pertença de um detido. Miranda, Canhagulo tal como o tal Bonifácio eram apenas carcereiros, tendo se destacado, o barbáro Bonifácio e Miranda que era uma espécie de chefe dos carcereiros. Os cubanos Montané e Mirales eram de entre vários, os que mais davam nas vistas talvez, pelo seu grau de responsabilidade e perícia nas artes de matar e massacrar. Do Montané recordo-me palavras que disse ao me amigo de infância (JUNQUEIRA), este depois de interrogado todo rebentado e cheio de sede pediu água. Montané negou dizendo-lhe; ( nó te muevas ni com la boca ante que te passo um proetil). Junqueira regressou a cela, com o carimbo da morte, pois, pela segunda vez não mais voltou.

Depois dos interrogatórios, quem tivesse a sorte de regressar a cela por vezes só tinha mesmo tempo de contar aos colegas, como tudo se passou. Quem tivesse o azar de voltar a ser chamado e encontrar um dos grandes facínoras, cheios de apetite só restava mesmo a morte. Carlos Jorge parecia ter uma grande magia artística, com a sua forma sádica de tratar seres tão humanos como ele.

Foram vários os erros cometidos, por pessoas com grandes responsabilidades em Angola. Estou neste momento a recordar-me, de um grande político, poeta e chefe de estado com uma certa reputação o (saudoso) Dr. Agostinho Neto, que a dado passa da sua vida talvez tenha cometido o maior erro ao dizer (não vamos perder tempo com julgamentos! não haverá perdão! e é preciso agarrá-los Já).
 
Aproveito deixar aqui bem patente, algumas palavras ouvidas antes, depois do 27 de Maio de 1977 e ao longo de alguns interrogatórios

- Dr. Agostinho Neto
 “Não haverá perdão, não vamos perder tempo com julgamentos) 

- Lucio-Lara, antes do 27
“Deixa-los voarem porque quando poisarem jamais se levantarão”

- Carlos Jorge: “seu paralítico de merda, também querias ser ministro?”

- Montané “nó te muevas ni com la boca ante que te passe um proetil”

- Morales “defender Neto é defender lá revolucion angolana”

- Jeny “não te dou água, a água que temos não é para contra-revolucionários como tu”

- Mendes de Carvalho “mandei-te prender, porque no dia 27 de Maio te embebedastes”

- Onambwé  “vais para a cadeia e já mandei matar o cão do teu marido” …onde escondeste o teu irmão

- Carlos Jorge “falas ou não serás na mesma abatida”

Na III parte falarei do campo de concentração do (Tari )-Kibala outros carrascos como Domilde Rangel, Mateta, Lopo Loureiros, torturas e outros, para que todos fiquem a conhecer a verdadeira dimensão daquilo que foram os massacres de 27 de Maio de 1977.

 

Fernando Vumby
em Berlim

Club-K

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