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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

"Na batalha do Cuito a Unita desempenhou um papel secundário", João Kanutula Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
23-Mar-2008

Na batalha do Cuito a Unita desempenhou um papel secundário,  Semanário Angolense
Soldado angolano na batalha do Cuito
Em 1988, no pico da Batalha do Cuíto Cuanavale, tinha 26 anos. A sua função era estabelecer a ponte entre as tropas da UNITA e os soldados do exército regular da África do Sul.

Tinha, então, a patente de major. Imediatamente depois da célebre batalha, João Kanutula foi promovido ao grau militar de coronel e nomeado comandante das primeiras unidades anti-tanques das FALA. Em 1991 esteve em Luanda, integrado na delegação da UNITA na Comissão Conjunta Político-Militar.

Depois dos confrontos pós-eleitorais de 1992, ele, como muitos outros companheiros, retomou o caminho da guerra. Para trás deixou a perspectiva de ser integrado nas novas Forças Armadas Angolanas com a patente de general. Mas a nova aventura durou pouco. Algum tempo depois viajou para a África do Sul, onde se formou em Concepção e Gestão de Projectos para a Construção Civil. Em 2000 regressou ao país para obter a sua reforma militar. Hoje é um dos gerentes de uma empresa de construção civil estabelecida no Kuando Kubango.

Sobre o desfecho da Batalha do Cuíto Cuanavale, as palavras de João Kanutula em entrevista ao Semanário Angolense são sintomáticas. «Os sul-africanos não vinham preparados moralmente para enfrentarem o tipo de dificuldade táctica que encontraram. As forças sul-africanas ficaram surpreendidas com a tenacidade das forças governamentais, sobretudo da aviação».

Qual foi o seu papel na batalha do Cuito Cuanavale?

Eu estive em quase todas as batalhas naquele eixo. Na segunda batalha, eu desempenhei o papel de oficial de ligação entre as forças sul-africanas e as nossas tropas da UNITA. Nesta batalha havia o eixo principal das forças sul-africanas e a UNITA estava a desempenhar um papel secundário. Nesta altura eu era major. Fazia parte da equipa que apresentava aos sul-africanos os trabalhos de reconhecimento. Durante os próprios combates, havia necessidade de coordenar as forças da UNITA e sul-africanas e eu ajudava na transmissão de informações. Eu estava ali com o então coronel Vilinga, o coronel Vinama. O Chivukuvuku também estava connosco. Os sul-africanos tinham uma força maciça. Foi certamente a primeira vez que eles fizeram um investimento daquele tamanho em Angola.

Como é que as forças da UNITA e sul-africanas estavam estruturadas?

Na altura nós tínhamos batalhões regulares e semi-regulares. Tínhamos forças especiais – os comandos especiais – que faziam o reconhecimento. O falecido general Ben Ben era o comandante das forças da UNITA. Depois tínhamos unidades que eram a combinação das nossas forças com as forças sul-africanas. Tudo isso era coordenado por uma task force. Os dados do reconhecimento colhidos pelas tropas da Unita. Os sul-africanos estavam mais envolvidos em decisões táctico-operacionais – como atacar, quando, onde, etc. etc. Os sul-africanos eram, na altura, comandados pelo coronel Fourie. Outras figuras da UNITA que estavam lá eram os generais Chilingutila, o general Bock (mais no quadro logístico) o general Sete, o general Kimba, o general Kalipi etc. etc.

Qual era o objectivo estratégico das forças sul-africanas?

O objectivo estratégico era a tomada do Cuito Cuanavale. Depois de Cuito Cuanavale poder-se-ia, então, avançar para a tomada do próprio Menongue. Depois disso as forças progrediriam para os outros eixos. O outro objectivo era impedir que as forças governamentais chegassem a áreas como Mavinga, Likua e Jamba, que, naquele tempo, eram pólos altamente estratégicos para a nossa guerrilha.

E porque é que não se consumou a tomada do Cuíto Cuanavale pelas tropas sul-africanas?

As forças sul-africanas e as forças da UNITA progrediram bem nos primeiros combates. Nessa altura houve mesmo um envolvimento maciço de artilharia e da aviação sul-africanas. Estando nas margens do próprio Cuito Cuanavale (não só do rio mas também das áreas de Chambinga e Cumbia) entrou-se em campos de minas. Os tanques dos sul-africanos começaram a accionar minas e encontramos, também, uma barreira bastante renhida das forças governamentais. Além dessas barreiras, houve, igualmente, uma certa pressão política para que as nossas forças se retirassem.

Pressão política vinda precisamente de quem?

Nós estávamos envolvidos tacticamente no combate com as forças do Governo. Era difícil fazer uma leitura do que estava a acontecer. Só mais tarde é que ficamos a saber que além das barreiras físicas que tínhamos encontrado houve pressões políticas para uma retirada estratégica das tropas.

Parece que muitos dos generais da UNITA que estiveram nessa batalha são falecidos...

Isto não é correcto. Os que faleceram não caíram nesta operação – eles pereceram noutras frentes de combate. A maior parte deles estão hoje integrados nas Forças Armadas Angolanas.

Considera a batalha de Cuito Cuanavale como tendo sido muito importante?

Exactamente. Depois desta batalha houve outras batalhas. Mas a batalha do Cuíto Cuanavale foi a mais importante porque as forças governamentais tiveram muitos êxitos. Seguramente os maiores êxitos no confronto com as forças sul-africanas. As próprias forças sul-africanas ficaram surpreendidas com a tenacidade das forças governamentais, sobretudo da aviação. Quando havia intervenções aéreas, os sul-africanos ficavam mesmo muito admirados com a perícia dos pilotos angolanos. E devo dizer que a artilharia sul-africana não era de brincar. Eles atacavam com uma precisão impressionante.

Para si Cuito Cuanavale foi uma derrota para os sul-africanos e para a Unita?


Os sul-africanos não vinham preparados moralmente para enfrentarem o tipo de dificuldade táctica que encontraram. Devo frisar que os sul-africanos foram para a batalha do Cuíto Cuanavale com os seus interesses muito particulares muito bem definidos. Eles foram lá para travar o que então era chamada a invasão russo-cubana e também para afastar a SWAPO da Namíbia. Nós tínhamos os nossos interesses políticos que são os que nos tinham levado à guerra.

Nesta altura onde é que Savimbi se encontrava?
O Doutor Savimbi nesta altura estava no seu Quartel-General, que era a Jamba.

Depois da retirada das tropas sul-africanas como é que a UNITA ficou? Likua e a Jamba ficaram mais expostas à ameaça das tropas governamentais?


Tivemos que reestruturar as nossas forças e continuar com o nosso combate de guerrilha. Nós tínhamos batalhões regulares naquelas áreas de Mavinga e Cuito Cuanavale. Sabíamos que a guerra iria prolongar-se. Não havia, entre nós, um sentimento de derrota. Na guerrilha não existe este sentimento. Naquele eixo tinha acontecido o que tinha acontecido. Do nosso lado, continuamos com a guerrilha para alcançarmos os nossos objectivos estratégicos.

Tem ideia das baixas sofridas pelas forças da UNITA e sul-africanas?

As forças que estavam no eixo principal eram sul-africanas daí que as nossas perdas não foram enormes. Os sul-africanos tiveram, sim, algumas baixas quando os tanques caíram nos campos de minas nos arredores de Chambinga, muito próximo do Cuíto Cuanavale.


Fonte:Semanário Angolense (Josué Sapalo )

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