Angola continua a registar uma das taxas de mortalidade materna mais altas do mundo, apesar dos esforços que o Governo leva a cabo e dos progressos que tem alcançado desde 1989, disse ao «Jornal de Angola» a especialista em saúde pública e chefe de Secção dos Cuidados Primários da Direcção Provincial de Saúde, Isabel Massocolo.
De acordo com a médica, desde 2002 até à presente data, morrem, anualmente, em Luanda, 300 mulheres por causas directamente relacionadas com a gravidez.
“Em 1989, duas mil mulheres perderam a vida pelas mesmas razões. Para inverter este quadro, as autoridades sanitárias estenderam a oferta de serviços maternos às periferias com a agregação de salas de parto aos centros municipais de saúde”, informou Isabel Massocolo.
Até 1989, Luanda contava apenas com duas maternidades: Lucrécia Paím e Ngangula. A partir de 2002, cada um dos nove municípios passou a dispor, pelo menos, de uma sala de partos, que funciona 24 horas por dia. Cazenga tem cinco e Cacuaco três. No total, o Governo abriu 27 novas salas de parto, para atender as mulheres grávidas na periferia de Luanda.
Outras unidades sanitárias, recentemente construídas, que oferecem assistência materna, são os hospitais dos Cajueiros, do Kilamba Kiaxi e do Camama.
Além das infra-estruturas, as autoridades governamentais investiram, também, no recrutamento e na formação de pessoal, no equipamento e nos medicamentos.
Graças a este esforço, as autoridades conseguiram reduzir, paulatinamente, o índice de mortalidade materna até atingir, em 2002, 300 casos.
“De 2002 em diante”, acrescentou a especialista, “a taxa mantém-se: não regredimos nem avançamos, é certo. Mas, ainda assim, é preciso trabalhar mais, a fim de impedirmos que este triste espectáculo se repita ano após ano”.
De acordo com dados oficiais, Luanda registou 106 mil partos nas unidades sanitárias públicas, dos quais 50 por cento foram efectuados nas salas de parto situadas nas zonas periféricas.
Neste momento, a maior preocupação das autoridades sanitárias prende-se com o controlo e a institucionalização ou normalização dos partos que ocorrem fora das unidades sanitárias.
“Geralmente”, explica a médica, “as mulheres fazem as consultas de seguimento pré-natal nas instituições sanitárias, mas a maior parte dos partos ainda ocor-rem nas comunidades”.
Pesquisas de antropologia médica efectuadas recentemente em várias comunidades periféricas, dentro e fora de Luanda, permitiram identificar as razões mais importantes por que muitas mulheres continuam a dar à luz o bebé em parto não-institucionalizado, apesar de fazerem as consultas de seguimento nas unidades sanitárias.
Partos comunitários são mais frequentes
Em todo o país, os partos que se realizam nas comunidades ou, como se lhes chamam tecnicamente, não-institucionais ou não-institucionalizados, representam 65 por cento do total dos partos que se registam. Alguns dos motivos que concorrem para isso, de acordo com a pesquisa, são as longas distâncias que as grávidas têm que percorrer até chegar às unidades sanitárias mais próximas e a qualidade do serviço que recebem, gravemente prejudicada, pela constante falta de entrega profissional e simpatia.
Mas, segundo a Dra. Teresa Pereira, assistente técnica do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva, as causas de maior importância são de índole cultural. Para ela, o facto de as mulheres grávidas fazerem as consultas de seguimento pressupõe, desde logo, que a distância física que as separa das unidades sanitárias mais próximas não se coloca com tanto peso e tanta frequência no volume de partos institucionais.
“O que, verdadeiramente, dita uma maior ocorrência de partos comunitários, sobretudo nas zonas periféricas”, afirma, “é a predominância de mitos”.
A seguir, a Dra. Teresa Pereira argumenta que “a maioria dessas mulheres, apesar de apresentarem um nível razoável de educação e fazerem as consultas de seguimento pré-natal, não realiza o parto nas unidades sanitárias, porque, na comunidade, onde a figura e a imagem da sogra são muito fortes, predomina a ideia de que dar à luz na unidade sanitária tira à mulher a capacidade de gerar mais filhos e que só lá vai com o objectivo de realizar o parto a mulher infiel ao marido”.
Embora não disponha de provas, a Dra. Isabel Massocolo crê que a taxa de mortalidade materna, ao contrário do que dizem os dados oficiais, seja (muito) superior aos 300 casos anuais. A especialista afirma que a Direcção Provincial de Saúde, conjuntamente com os comités de prevenção de morte materna, está a certificar-se do volume real e da qualidade técnica dos partos que têm lugar fora das unidades sanitárias.
“Só quando tivermos o controlo global dos partos, saberemos ao certo, por um lado, quantas mulheres e quais, por que motivos específicos e em que localidade perdem a vida em virtude da gravidez e, por outro, qual é a expressão absoluta e percentual individual dos partos institucionais e comunitários na taxa de mortalidade materna em Luanda”.
Os comités de prevenção de mortes maternas são instâncias criadas pela Direcção Provincial de Saúde, funcionam, em Luanda, desde 9 de Dezembro de 2005 e integram, entre outros, os coordenadores dos bairros, os líderes comunitários e as parteiras tradicionais.
A Dra. Isabel Massocolo aconselha as mulheres grávidas a fazerem as consultas de seguimento pré-natal e o parto nas unidades sanitárias mais próximas das suas residências e alerta que os cuidados durante a gravidez são uma responsabilidade não apenas da mulher, mas de toda a família.
“É necessário informar, educar e sensibilizar as pessoas disso. Quando escrevemos no caderno da grávida a data provável, a mãe e a família inteira devem preocupar-se, para, no dia certo, a grávida ir à consulta e quando sentir alguma dor do início do trabalho de parto ir logo para a unidade sanitária”, concluiu.
Fonte:Jornal de Angola
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