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Angola Xyami - Notícias de Angola, de África e do Mundo

Modelo brasileiro contra a mortalidade infantil ajuda Angola a melhorar saúde Imprimir e-mail
Escrito por : Cfr. no fim da pág   
12-Mai-2008
Todos os dias Laurindo Tomás acorda por volta das 5 horas. Ele se apronta para trabalhar, verifica o tempo (quando está chovendo sai descalço, única forma de se equilibrar nas ruas de barro) e depois veste a peça de roupa que o diferencia dos outros 50 mil habitantes do bairro Boa Esperança, na cidade de Cacuaco, a 25 quilômetros de Luanda, capital de Angola. No colete azul lê-se em letras brancas: "Vigilante da Saúde". Tomás é um dos 1.770 agentes comunitários que estão ajudando a mudar o perfil da saúde pública na região. Inspirado no modelo brasileiro, o programa começou no ano passado em seis municípios angolanos e já começa a colher resultados. No ano passado, o paludismo (como é chamada a malária em Angola) deixou de ser a primeira causa de mortalidade infantil nas maternidades de Luanda. A malária é uma doença infecciosa febril aguda transmitida por mosquito.

Apoiado pelo Unicef, o projeto foi pago pelo governo local: foram US$ 4,4 milhões, incluído o treinamento de mais 1.770 vigilantes até o início de 2009.

LINHA DE FRENTE

Com seu colete azul, Laurindo Tomás faz parte de um exército de 850 vigilantes que atuam em Cacuaco. Cada um visita cem famílias e tenta educá-las para cuidados básicos, a começar pelo tratamento da água. "Nós distribuímos a lixívia (cloro) e ensinamos a misturá-la na proporção correta", explica. "A água ainda é uma fonte de muitas doenças em Angola", diz.

No combate à malária, o foco é a prevenção. Tomás ensina a eliminar focos de reprodução do mosquito, horários em que o risco de ser picado é maior e os sintomas iniciais da doença. Além disso, identifica mulheres grávidas e crianças para que recebam mosquiteiros impregnados de inseticida. "Eu também sou encarregado de verificar regularmente se ele está sendo usado de forma correta", conta ele.

O Unicef já distribuiu, desde 2006, 1,8 milhão de mosquiteiros em todo o país. O objetivo é combater a forma congênita da malária, transmitida pela mãe ao bebê na gestação. As toxinas do parasita impedem o desenvolvimento normal do feto e, na maioria dos casos, levam à morte no nascimento. Maria Cecília João Miguel, de 38 anos e sete filhos, escapou do risco graças à atuação de Tomás. Ela contraiu a doença durante a gravidez do caçula, que tem agora 5 meses. "Ele me encaminhou à Unidade Sanitária e eu tomei 15 comprimidos", lembra. "Meu filho nasceu bem e ainda ganhei um mosquiteiro para nos proteger."

O tratamento de Maria Cecília foi gratuito graças ao Programa Nacional de Luta Contra a Malária, que no ano passado aprovou uma lei tornando gratuitos o atendimento, o teste da gota espessa (que detecta a presença do parasita no sangue) e a distribuição do medicamento. "Antes os pacientes eram obrigados a pagar por tudo", explica a médica Alexandra Patarra Fernandes, uma das coordenadoras do programa na Direção Provincial de Saúde de Luanda. No ano passado, Angola tratou 215.500 menores de 5 anos e 27.300 grávidas.

Essas medidas ajudaram a reduzir o número de pacientes internados com paludismo de 3 milhões, em 2003, para 2 milhões no ano passado. No número de óbitos, a redução foi ainda maior: 7 mil mortos em 2007 contra 30 mil em 2003.

Assim como o Unicef, o exército de vigilantes da saúde também dirige atenção especial às gestantes, que são encaminhadas para exame pré-natal regular nas Unidades Sanitárias e ganham lugar na maternidade na hora do parto. "Meu último filho foi o primeiro a nascer num hospital", comemora Maria Estrela, de 33 anos e mãe de cinco crianças, o mais novo com sete dias. Ela é outra moradora atendida por Tomás. "Todos os outros nasceram em casa", conta.

Após o nascimento, Tomás passa a acompanhar o desenvolvimento do bebê. "Faço as pesagens regulares para verificar se está tudo bem e oriento as datas de todas as vacinas", orgulha-se. "Sinto que estou fazendo algo importante. É como se eu também fosse pai desses miúdos", diz ele.

Para garantir a confiança das famílias, o programa reproduz o modelo brasileiro na hora de escolher os vigilantes: todos são vizinhos das pessoas que visitam. Isso foi fundamental no início do trabalho. Uma das heranças dos 27 anos de guerra civil que dividiu o país é a desconfiança. "Muitas famílias não queriam preencher o cadastro, achavam que era um levantamento de partidários da oposição", lembra Tomás. "Hoje esse medo acabou."

ORGANIZAÇÃO

Para trabalhar oito horas por semana, cada vigilante de Luanda recebe 4 mil kwanzas por mês, o equivalente a US$ 53. Os 30 coordenadores, que acabaram de receber treinamento, ganham o dobro por 20 horas semanais. Amanhã, os resultados obtidos por esse exército serão apresentados pelo governo local ao Ministério da Saúde. A tendência é que governo de Angola adote o programa com sotaque brasileiro em todo país.
 
Estadão 
Ferdinando Casagrande
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