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Nancy Holan acaba de fazer o melhor safári de sua vida. Ela e uma amiga voaram até o Quênia e eles passaram pelas amplas planícies, e tiveram os leões, zebras e elefantes só para eles. “Foi maravilhoso”, disse ela.
Não muito longe dali, Isaac Rotich, um guia de safáris de alto nível, andava de um lado para o outro dentro de uma cabana de caça vazia com suas botas de safári recém polidas. Ele é capaz de ver um lagarto de 15 centímetros a cerca de 15 metros de distância e dizer o nome – em Kiswahili, inglês e latim – da planta sobre a qual ele está. Ele passou anos construindo sua carreira e ganhava US$30 mil por ano, o que equivale ao resgate de um rei por estas bandas. Agora, ele tem medo de perder tudo.
“Estamos sendo prejudicados, e muito”, afirmou Rotich. É isto o que o lendário safári do Quênia se tornou – maravilhoso para os turistas, desastroso para todas as outras pessoas.
O turismo é uma das maiores indústrias do Quênia, mas a violência que explodiu após a eleição fracassada em dezembro teve um efeito devastador sobre os negócios, com as reservas de turistas caindo entre 80 e 90% na maioria das áreas. Mesmo depois de um tratado de paz assinado na última quinta-feira (28), autoridades governamentais e ligadas ao turismo se preocuparam com fato de que levaria meses – senão anos – para que o setor se recuperasse.
Os políticos rivais do país concordaram em compartilhar seu poder e na última sexta-feira (29), muita gente os elogiou por finalmente serenar o país. Mas as conseqüências econômicas de longo prazo estão apenas começando a se manifestar. “Nós trabalharemos duro pra ver o que podemos recuperar”, afirmou Rose Musonye Kwena, autoridade do Comitê de Turismo do Quênia, que estima que mesmo que não houvesse violência maior este ano, o negócio ainda assim teria caído pela metade.
As imagens de hordas de pessoas segurando facões causaram uma evasão de turistas e a incerteza que ainda paira quanto à direção do país causou uma onda de cancelamentos, deixando dúzias de hotéis fechados e milhares de guias, motoristas, cozinheiros, garçons, massagistas, entalhadores de madeira e artesões que fazem colares de contas desempregados. Muitos deles apóiam uma vasta rede de parentes.
Uma crise contínua no turismo poderia levar milhões de quenianos à pobreza, o que foi uma das causas indiretas da violência desde o início. A crise também ameaça reverter a evolução que o país fez nos últimos anos no sentido de proteger a terra e os animais.
Autoridades governamentais estavam preocupadas quanto aos guias turísticos e de trilhas que estavam desempregados e passaram a invadir propriedade privada para caçar. Anciãos das aldeias em áreas ricas em animais que estavam convencidos de que a conservação e o turismo seriam lucrativos têm re-examinado essa equação e considerado a venda de suas terras. Vendas significam fazendas, e fazendas significam cercas, o que poderia bloquear os milhões de zebras, gnus e antílopes que migram através da famosa reserva de caça Masai Mara anualmente, possivelmente colocando em risco uma das mais espetaculares junções de vida animal que há no planeta. “Isso é absolutamente catastrófico”, afirmou Calvin Cottar, proprietário de um campo de safári de alto nível. E indústria bilionário do turismo no Quênia, que injeta dinheiro estrangeiro na economia, algo que é de necessidade crítica, não é a única a ser prejudicada por essa situação.
A crise, que teve início quando a comissão eleitoral declarou que o então presidente, Mwai Kibaki, que venceu após uma disputa acirrada, apesar de ampla evidência de fraude nos votos, havia matado mais de mil pessoas e fragmentando o Quênia em territórios menores, com centenas de milhares de pessoas fugindo de seus lares e indo se fixar em zonas homogêneas.
A violência prejudicou gravemente a economia, abalando a produção local de café e chá, derrubando o mercado de ações e afetando adversamente os transportes, as manufaturas, a construção e quase toda a indústria – exceto talvez o ramo funerário. O turismo poderia ser um dos mais demorados para se recuperar, porque é uma área essencialmente sensível a percepções e o notório derramamento de sangue dos últimos dois meses prejudicou muito a imagem do Quênia. No ano passado, o país teve mais de 2 milhões de turistas. Em janeiro, havia apenas 55 mil novas chegadas, bem menos do que o esperado. A verdade é que a maior parte da violência já cessou e nunca alcançou áreas como o Masai Mara.
F: Do 'New York Times'
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